Passarinha: um livro sobre uma menina autista e sua busca por um desfecho

Descrição de imagem: capa do livro Passarinha, com uma menina em posição fetal em tons de preto dentro de uma cesta que parece um ninho e a palavra “Passarinha” em branco.

A obra Passarinha, de Kathryn Erskine, é narrada a partir do ponto de vista de Caitlin, uma menina de 10 anos que tem Síndrome de Asperger. Para ela, o seu pensamento concreto transforma o mundo em preto e branco, certo e errado, isso ou aquilo. Muitas vezes sincera ou literal demais, a jovem tem dificuldade em fazer amigos e, por isso, não gosta da hora do recreio. Ela vive apenas com o pai, pois a mãe falecera anos atrás por causa de um câncer. Não apenas isso: seu irmão mais velho perdeu recentemente a vida em um tiroteio dentro da escola. Devon era o único que entendia Caitlin, que a acalmava e a aconselhava, a ajudava a lidar com as situações. Agora sem o irmão e com o pai completamente abalado e de luto, a menina precisa encontrar um desfecho para a situação.

É curioso notar que a personagem não gosta de ser considerada autista. Ela não aceita que tem a mesma condição que seu colega William H., um autista clássico que tem comportamentos diferentes, como comer terra e fugir dos professores. Para ela, Asperger não é autismo. Como poderia ela, que desenha como profissional e tem um extenso vocabulário, ter esse tal de autismo? Essa é uma questão interessante no livro para pensarmos o preconceito que os chamados “autistas de baixo funcionamento” sofrem, pois têm seu potencial ignorado e suas dificuldades realçadas. Em um mundo em que o autismo é visto como uma doença, algo a ser curado, uma condição de alguém que sofre preconceito e é tratado como incapaz, quem é que iria querer ser autista, não é mesmo?

Devon era escoteiro e, antes de partir, havia começado seu projeto de construir um armário. Com sua morte, o projeto ficou inacabado, e seu pai o cobriu com um pano. O choro era iminente toda vez que Caitlin tentava conversar sobre o irmão, principalmente quando ela se referia a ele como “Devon-que-morreu”, para tentar mostrar ao pai que sabe de seu falecimento. A aparente insensibilidade da filha, bem característico da inadequação social de sua síndrome, torna-se um gatilho para ele.

Felizmente, a menina conta com os conselhos da sua psicóloga escolar, a sra. Brook. Ela incentiva Caitlin a tentar fazer amigos, como quando, por exemplo, dá um recreio a mais para a jovem no intervalo das crianças menores. Acontece que, quando se sente ansiosa, Caitlin sente algo que ela chama de “sensação de recreio” e começa a mastigar a manga de seu casaco. A pequena aluna, assim como a maioria das pessoas no espectro autista, apresenta estereotipias, como mastigar a manga e abanar as mãos. Erskine não precisou ir muito longe para fazer sua pesquisa de campo sobre a síndrome, pois sua própria filha foi diagnosticada com Síndrome de Asperger em 2007.

De forma simbólica, a autora não apenas representa o pensamento “preto e branco” da personagem principal na sua interação com os outros, pois a jovem Caitlin jamais colore os seus desenhos. Quando as cores de misturam, a depender da que predomina, o resultado nem sempre é previsível. A dificuldade com a imprevisibilidade faz parte da Síndrome de Asperger da menina, e é retratada por Erskine de forma bem sensível em sua obra.

A evolução de Caitlin é notável ao longo da leitura. Não vou entrar em detalhes para não estragar a experiência de quem pretende ler o livro, mas pode-se dizer que, com o passar da história, tanto a Caitlin quanto seu pai e, até, toda a cidade, passam por uma grande evolução, fruto do desfecho encontrado por nada mais nada menos que a própria menina.

O título da obra é uma referência ao clássico americano To Kill a Mockingbird, do vencedor do prêmio Pulitzer, o escritor Harper Lee. Em português, a obra foi traduzida para O Sol É Para Todos. Em vários momentos do livro de Erskine, vemos referências ao de Harper Lee, como o apelido que Devon dá a Caitlin: “Scout” (escoteira em inglês), que é o nome de uma das personagens de O Sol É Para Todos. Inclusive, a própria obra é citada em Passarinha, cujo título original é Mockingbird.

Para resumir, Passarinha, de Kathryn Erskine, é uma obra linda e sensível, protagonizada por uma criança com Síndrome de Asperger que tem muito a ensinar a todos nós leitores. Certamente, você se apaixonará por Caitlin e se emocionará com sua trajetória em busca de um desfecho para história do assassinato de seu irmão. Através do olhar de uma autista, você aprenderá uma nova forma de ver o mundo e, quem sabe, irá Captar O Sentido.

Texto por Alice Casimiro.

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