Entrevista com Tiago Abreu, do podcast Introvertendo.

Descrição de imagem: Com um fundo desfocado de cidade, Tiago Abreu com uma blusa preta escrito “Radiohead” e óculos olha para a câmera.

O podcast Introvertendo, que fala sobre autismo, tem como um de seus participantes e criadores o jornalista Tiago Abreu. Algo que o diferencia fortemente dos outros conteúdos som a mesma temática é a questão do protagonismo autista. Todos os integrantes do Introvertendo são autistas e, por isso, seu conteúdo é produzido a partir da visão de quem verdadeiramente sente e vive o autismo diariamente. Com isso em mente, convidei o Tiago Abreu para uma entrevista não apenas sobre seu trabalho com o podcast, mas também sobre suas experiências enquanto autista. Acompanhe as 10 perguntas que fiz a ele e suas respectivas respostas.

Alice: Conte um pouco sobre você e da sua trajetória até o seu diagnóstico.

Tiago: Minha história é bastante parecida em relação aos autistas diagnosticados na vida adulta. Tive vários sinais na infância. Demorei para falar, não respondia com facilidade aos estímulos que minha mãe apresentava, e ela pensou que eu poderia ser surdo porque temos parentes surdos. Por sugestão médica entrei na escola com 2 anos e, neste sentido, meu desenvolvimento foi muito bom. Aprendi a falar, aprendi a ler, mas frequentemente tinha problemas de relacionamento com meus colegas. No recreio, saía de perto de todo mundo e ficava batendo papo com pessoas mais velhas, como a coordenadora da escola ou o pessoal da limpeza. Sempre era essa contradição, o que fez com que eu fosse julgado pelas pessoas como alguém que não queria socializar e não alguém com dificuldade para interagir com as pessoas da mesma idade. E, claro, foram anos de bullying na escola, nos ambientes religiosos, nos diferentes espaços sociais.

Em 2013, uma psicóloga de RH, num ambiente que nada tinha a ver com a profissão, julgou o meu abraço afirmando que “gente que abraça assim é porque quer soltar logo”. Eu voltei para casa muito confuso e constrangido, lembro bem. Acho que autistas sabem a sensação de quando você não se encaixa no mundo e não há nada que você faça para mudar isso. Eu sentia aquilo em diferentes períodos da vida, mas não tinha um nome para aquilo. E eu aproveitei aquela noite para ler sobre depressão. Encurtando o processo, acabei depois de meses em um grupo sobre Síndrome de Asperger no Facebook. Eu nem sabia direito o que era autismo e só em pensar na hipótese de autismo considerava absurdo, mas as queixas e relatos faziam muito sentido. Eu não odiava e desprezava pessoas como os outros diziam. Foi então que procurei uma psicóloga, ela pensou bem a hipótese e escreveu um relatório completo. Com o relatório, procurei um neurologista e ele fez todo o processo com a ajuda de uma equipe e alguns exames. Março de 2015, tinha acabado de entrar na universidade e estava com laudo de autismo.

Costumo dizer que 2014, quando trabalhava a hipótese, foi o ano divisor de águas na minha vida. Foi quando eu passei a aceitar minhas diferenças e comecei a construir algumas amizades saudáveis que me ajudaram e ainda me ajudam muito. Só o fato de você saber que você tem certas características te ajuda imensamente a se reconhecer e ser alguém melhor, é essa a função de um diagnóstico. De lá para cá, tenho vivido os melhores anos da minha vida.

Alice: Como surgiu a ideia de criar o Introvertendo? Foi algo que te ajudou a se conectar mais com outros autistas e a melhorar a socialização?

Tiago: Ah, é uma história extremamente longa.

Antes do diagnóstico do autismo, eu era um fã intenso de podcasts. Gostava muito de podcasts sobre música, meu principal hiperfoco, e sonhava ter o meu, isso ainda em 2013. Mas meus amigos não queriam fazer comigo. Eles achavam que ninguém se interessava em podcast e deveríamos fazer um canal no YouTube. Eu detestava a exposição de imagem e pensava no podcast como ferramenta exatamente para evitar isso. Entrei na Universidade Federal de Goiás (UFG) com um diagnóstico em mãos e a primeira coisa que eu quis foi procurar outros autistas na UFG. Eu só conhecia pessoas pela internet. O Núcleo de Acessibilidade tinha o contato por e-mail de duas, que era o Marcos da Física Médica e um estudante do mestrado em Sociologia chamado Renato Moreira, que até entrevistei no Introvertendo uma vez. Houve greve na universidade, minha terapia foi encerrada abruptamente por um pedido de demissão da psicóloga, fiquei bastante desassistido e quase larguei o curso de Jornalismo no primeiro semestre. Meus amigos insistiram pra eu continuar e só abandonar quando soubesse minha nota no Enem seguinte. Fiz isso. Acabei mudando de ideia, gostei do curso, e fiquei.

Em 2016, eu já tinha desistido da ideia de procurar terapia, o processo era muito burocrático. Até entendia o porquê muitos autistas na universidade não procuravam os espaços de assistência estudantil. Aí, num dia, recebi uma mensagem no WhatsApp de uma psicóloga chamada Tatiana. Ela conseguiu meu número a partir do Núcleo de Acessibilidade, atendia um aluno da Medicina com Asperger e afirmou que ele não conhecia ninguém com o mesmo diagnóstico. Dias depois, estávamos juntos no consultório. Era o Otavio. E conhecer o Otavio foi sensacional, porque ele tem um jeito intenso, um senso de humor desconcertante, mas um interesse genuíno quando se envolve em algo. Estava criado ali o grupo Asperger. Coincidentemente, tempos depois, chegou um aluno pedindo ajuda, chamado Michael, diagnosticado em 2012. Tempos depois, eu estava andando no prédio da Física e vi o Marcos arrumando a mochila. Eu nunca tinha conversado pessoalmente com ele, apenas o visto andando pelo campus, e sabia que era o cara dos e-mails. Tomei coragem, puxei conversa, disse que tinha um grupo para aspies e perguntei se ele topava ir comigo de ônibus. E daí nós quatro nos encontramos e vimos que, quando conversávamos juntos, era um tipo de conversa que eu não tinha em lugar nenhum, era muito divertida e pouco comum. Lembro desse período com muito carinho, porque valia muito a pena passar todo aquele calor goianiense nas tardes de quinta pra conversar com pessoas parecidas comigo.

Fora da universidade, num grupo de fãs de um podcast, eu conheci o Luca Nolasco. Ele era aluno do ensino médio, morava em Goiânia, e a gente se encontrou. E foi uma conversa bem engraçada, porque éramos bastante parecidos. Tínhamos um hiperfoco em música e, pouco tempo depois, ele foi diagnosticado com autismo também. Levei ele ao restante do pessoal no final de 2017. Eu já tinha falado que queria um podcast sobre música, mas na altura do campeonato já dava para perceber que deveria ser um podcast de autistas. Não exatamente sobre autismo, mas deveria ser um podcast nosso. Antes disso, em 2017, já tinha feito um perfil de Jornalismo Literário sobre o Michael e um radiodocumentário. Foi o suficiente pra convencer eles. Usei meu computador, um gravador, um microfone, e começamos a gravar após o horário da terapia. A Tatiana conseguiu deixar que ficássemos na sala nos primeiros episódios (até o 16), até que o nosso barulho começou a atrapalhar as outras consultas e ficamos perambulando de prédio em prédio da UFG (risos). E, depois disso, até meados de junho de 2019, continuamos gravando presencialmente de vez em quando e a maior parte do conteúdo passou a ser feito pela internet.

Depois dessa introdução gigante, mais objetivo: O Introvertendo foi criado porque, na minha busca por podcasts sobre autismo, encontrava apenas um estrangeiro, chamado Aspie Cast, que lançava nem 3 episódios por ano. Vimos uma oportunidade de fazer um projeto pioneiro. O Michael até fazia piada sobre as questões culturais do Brasil com o autismo, dizendo: “É até difícil achar um autista gravando seus videozinhos lá fora, e no Brasil você tem o Paulo Kogos”. É engraçado que uns podcasts de autistas em inglês hoje, como o Them Aspergers e This Podcast Has Autism, foram lançados dias depois do Introvertendo, no mesmo mês. É muita coincidência. Do ponto de vista objetivo, não nos ajudou tanto na socialização, porque ele era consequência de um processo de socialização. Mas nos ajudou muito a participar mais efetivamente da comunidade do autismo no Brasil. De alguma forma viramos um tipo de Asperger’s Are Us brasileiro – sem ser um grupo de comédia (risos).

Alice: Como você acha que o podcast contribui tanto para a comunidade autista quanto para a sociedade brasileira?

Tiago: Para a comunidade autista e a comunidade do autismo, creio que a principal função do podcast é mostrar como autistas interagem e a variação de características dentro do espectro. É como começamos e é o que seremos enquanto existirmos. Ao longo do tempo, também vimos uma outra contribuição singular e natural: Por sermos uma produção em áudio, sem as barreiras do vídeo, trazemos figuras da comunidade de todos os lugares do Brasil e conseguimos juntá-las em encontros inéditos. Para a sociedade brasileira, conseguimos mostrar que nós existimos e que nós podemos contribuir nas discussões sobre autismo e saúde mental. E há muito o que conversar sobre isso.

Alice: Na sua opinião, o que significa ser autista?

Tiago: Uma vez, um autista publicou um poema no Facebook falando o que era “ser autista”, e até chegou a viralizar entre autistas e mães. Outro, discordando, comentou logo abaixo: “Ser autista é estar no transtorno do espectro do autismo”. Eu geralmente não curto muito descrições floridas sobre o autismo. São perfeitamente válidas para emocionar pessoas em contextos específicos, mas não têm muita utilidade para além disso. Não vejo o autismo como uma tragédia, não o vejo como o auge da existência humana, vejo como uma condição. Uma condição que não me torna um ser humano pior ou melhor em relação às outras pessoas, que não me torna menos gente. Pra mim, ser autista é ser alguém com qualidades e defeitos, com dificuldades mais significativas em certos aspectos e, em alguns casos, mais habilidades. Só não podemos usar esse tipo de discurso para dizer que o autismo não é uma deficiência, ou que no fundo no fundo todo mundo é igual, porque sabemos que não é.

Alice: Você é formado em jornalismo. Poderia nos contar um pouco sobre a sua experiência no ensino superior e no mercado de trabalho enquanto autista? Teve alguma adaptação?

Tiago: Como obtive o laudo exatamente quando ingressei no ensino superior, procurei rapidamente os serviços de assistência estudantil. Uma psicóloga me atendeu, duas consultas depois pediu demissão, depois veio a Tatiana, como já contei. E o atendimento individual que eu tive com ela, junto com o grupo Asperger, certamente foi um incentivo para continuar na universidade. Era um período muito crítico, estava cumprindo 10 disciplinas ao mesmo tempo e fazia uns freelas na internet para complementar a renda, praticamente um overclock insustentável. Tive problemas com depressão e ansiedade neste período e fui atendido de graça na universidade, consegui até parte da medicação. Eu diria que os serviços de saúde mental são fundamentais para autistas na universidade. No sentido curricular não precisei de nada muito específico. Meu curso era complicado porque eram muitas atividades em grupo, mas consegui ter três pessoas próximas que eram a minha “turma”. Depois que terminei a graduação, continuei muito bem. Já não preciso de medicação há quase 2 anos.

Em termos profissionais, eu trabalho de forma remota na mesma empresa desde 2017. Ela fica em Porto Alegre e, de vez em quando, vou para lá. Levei um ano e meio para contar sobre o diagnóstico, porque trabalhar à distância sempre foi tão tranquilo para mim que isso acabou passando batido. Hoje, a empresa que eu trabalho faz a produção do Introvertendo. Tem sido ótimo. Fora do mercado de trabalho formal, ainda faço algumas atividades jornalísticas. Escrevi um livro chamado Histórias de Paratinga, sobre um município baiano, e escrevo umas reportagens sobre música e autismo.

Alice: Como você vê o movimento da neurodiversidade? E a questão da inclusão e aceitação do autista no Brasil?

Tiago: O movimento da neurodiversidade, sendo sincero, ainda é uma incógnita pra mim. Ouvi falar sobre ele logo que tive o primeiro contato com autismo, lá em 2013, e fiquei muito empolgado. Mas, apesar do entusiasmo, minha leitura sobre o tema era muito superficial. Nos grupos virtuais de autistas, maior parte pró-neurodiversidade, isso em meados de 2013 e 2014, era uma briga frequente entre autistas, uma baixaria que me deixava bastante decepcionado. Nesta época, eu conheci várias pessoas autistas muito legais, que poderiam dar uma contribuição social absurda, mas acabaram desistindo da comunidade por completo e nunca mais voltaram. Até que eu comecei a interagir mais com pais de autistas, acabei presenciando alguns ruídos no ativismo autista no país e no exterior, e comecei a adotar uma postura bastante receosa (e até discordante) com o movimento. Tinha as questões conceituais, algumas dicotomias que eu ainda discordo. Até porque a própria Judy Singer, nos últimos anos, andou criticando várias interpretações sobre a ideia de neurodiversidade, a um nível que já vi o termo ser usado em contextos extremamente genéricos. Mas como alguém que procura ler antes de tomar decisões precipitadas, comecei a ler muito sobre a história do autismo de uns anos pra cá, e posso dizer que eu ainda estou num processo de reconciliação gradual com a neurodiversidade. Como jornalista, uma das minhas tarefas é entender os diferentes guetos da comunidade do autismo, e todos eles tem seus problemas (alguns mais que outros, claro). E cada vez mais estou chegando à conclusão de que sou mais respeitado, enquanto indivíduo, entre as pessoas que defendem a noção de neurodiversidade.

Sobre a inclusão e aceitação, podemos admitir que falamos sobre autismo muito mais do que falávamos há 10 anos. E as políticas públicas se orientaram neste sentido. Tivemos a Lei do Autismo em 2012, a Lei Brasileira de Inclusão em 2015, e mesmo depois de uma guinada absurda do Governo Federal, por meio do IBGE, em enxugar o Censo, o autismo vai entrar no questionário por livre e espontânea pressão. Quando vemos, dia a dia, notícias sobre discriminação a autistas e a falta de suporte que muitos de nós deveríamos receber, podemos pensar que as coisas não estão andando, mas daqui a alguns anos veremos o quanto avançamos em cerca de uma década. Não é ideal ainda, mas está progredindo.

Alice: Você já enfrentou alguma barreira atitudinal ao revelar seu diagnóstico para as pessoas? Sente-se acolhido?

Tiago: Sim, já percebi várias barreiras atitudinais, mas não vejo um padrão nelas, porque essas barreiras ocorreram em períodos e contextos diferentes. Vi barreiras atitudinais na universidade quando colegas faziam piadinhas pelas costas, vi barreiras atitudinais em eventos de autismo ao ser encarado como um herói ou como uma criança, vi barreiras atitudinais até em relacionamentos amorosos, quando ouvi que eu usava o autismo como escudo. É complicado ser autista nestes contextos, porque você não tem como prever como as pessoas vão reagir ao assunto. Ao mesmo tempo, existe um período de amadurecimento pós-diagnóstico. Levei cerca de 3 anos para ter um olhar mais sereno para todas as mudanças ocorridas em tão pouco tempo. Porque, no início, era uma empolgação tão grande com as respostas que tive e, olhando pra trás, realmente eu falava sobre autismo em todos os contextos. Depois disso foi o inverso, fiquei extremamente retraído. Hoje em dia o autismo só se torna assunto quando há um contexto para ser introduzido. E, por conta do Introvertendo, muitas pessoas acabam sabendo do autismo antes mesmo de falar comigo. Neste sentido, as reações têm sido boas, no geral.

Alice: Você acha que ainda existe uma barreira no que diz respeito ao autista ter sua voz ouvida e seu lugar de fala respeitado?

Tiago: Com certeza. Tem vários aspectos e contextos, na verdade, que envolvem isso. Eu percebo que isso é muito evidente no ativismo local, cuja construção histórica foi de mães com certas demandas e estas demandas, naturalmente, podem não ser as mesmas de alguns autistas. E acho até natural que as pessoas tenham essas reservas quando elas estão nessa trajetória há muito mais tempo que nós. Mas temos visto mudanças significativas pelo país. Em Goiânia, por exemplo, há uma associação com vários autistas na diretoria, e tem feito um trabalho formidável em amparar adultos com suspeita de autismo e produz conteúdos culturais sobre autismo. 

Quando ingressei na comunidade, lá em 2013, quase todos os eventos sobre autismo eram feitos apenas por profissionais. Entendo bem que um congresso científico, de capacitação na área de educação ou psiquiatria, por exemplo, deve ter só pessoas especializadas, independentemente de serem autistas ou não, porque o conteúdo é mais importante que o emissor da mensagem. Mas a gente sabe bem que também existia uma parte massiva de eventos com mães e pais de autistas, sem conhecimento técnico sobre autismo, relatando experiências. Se eles podiam estar na mesa, por que autistas não? Pais falando horas sobre questões do autismo nem um pouco técnicas e especializadas, num evento que deveria promover mais informação… Criei um mal estar localmente há anos, durante uma audiência pública, quando sugeri, educadamente, que seria interessante ter um autista na mesa numa próxima audiência. O deputado coordenador da mesa riu, levemente, de um jeito que eu não sei se ele zombou ou ficou desconfortável. Nem fui na audiência seguinte porque estava viajando para uma outra palestra, mas fiquei sabendo que teve autista na mesa. Em 2020, as coisas mudaram absurdamente. Autistas não são mais apenas parte das apresentações culturais e participam de mesas, são palestrantes. Não que eu concorde com o que todos os autistas palestrantes falam, mas lanço essa provocação aqui: Se não tinha nenhum critério sobre os pais que falavam (e ainda às vezes falam) sobre autismo, por que só os autistas deveriam ficar de fora?

Alice: Como você se sente em relação às mudanças no diagnóstico de autismo que serão introduzidas no novo CID-11 futuramente?

Tiago: Critérios diagnósticos sempre foram algo confuso para mim, e só consegui entender razoavelmente bem com muita leitura e ajuda de alguns colegas. Eu entendo que o CID-11 vai resolver um problema muito significativo da última edição do DSM, o qual é o “autismo moderado”. Falar sobre os antigos aspies é fácil, falar sobre o que se chamava de “autismo infantil” de Kanner também é um território muito bem demarcado, mas o que tinha entre os dois “extremos” do espectro nunca ficou muito palpável. E as divisões do CID são muito mais intuitivas do que as o DSM-V. Até hoje essas fronteiras não são bem específicas. Existe um senso comum de que todo autista não-oralizado, por exemplo, é autista severo e isso não é verdade. Terá um efeito muito positivo na comunidade, em principalmente alertar a muitas pessoas que existem autistas de muitas formas, inclusive sem deficiência intelectual e sem forte comprometimento na linguagem. Vai quebrar muito do papo “Asperger não é autismo” e vai fazer também muita gente, outrora na mesma “categoria”, receber códigos diferentes. Se estou equivocado, só o tempo vai dizer…

Alice: Quais foram os momentos mais memoráveis da sua jornada no Introvertendo? Pode contar sobre seus projetos futuros?

Tiago: É muito difícil responder isso, porque foram tantas fases nestes dois anos, ainda mais no meu caso que estou em todas as etapas de gravação e pós-produção… Mas, com certeza, o início me dá mais saudade. Época que nos encontrávamos pessoalmente na UFG para gravar e tudo ainda era muito romântico e sem filtros… Mas quem ouve não imagina que foi uma época muito complicada pra mim, na verdade. Estava com problemas sérios com depressão, terminando o curso próximo ao TCC, tive um relacionamento o qual me deixou desestruturado, e o podcast era uma válvula de escape, um momento pra me divertir de verdade. Gravamos os episódios 1 ao 25 em cerca de dois meses e lançamos aos poucos. Aí teve a Copa do Mundo, o Michael foi embora, eu estava focado no TCC, o grupo presencial se desfez e ficou só pela web. Vieram a Thaís, Paulo e Yara, trouxeram uma maturidade que nós fundadores não tínhamos e, mais tarde, a Mariana e o Willian Chimura, um cara extremamente sério e que sempre sabe o que está fazendo, que complementa muito nas discussões com um viés científico que só temos explorado de uns meses pra cá. Acho que, enquanto o tempo passar, eu vou sempre sentir saudade de todo o processo, porque cada dia é uma descoberta.

Tenho muitos projetos futuros. Sobre o Introvertendo, estamos com planos de entrevistar figuras internacionais do autismo. Apenas não sabemos como vamos fazer isso nos episódios, mas é um sonho antigo que vamos executar este ano ainda. Queremos muito que a comunidade internacional saiba o que os autistas do Brasil estão fazendo. Também tenho muita vontade de organizar um evento local sobre autismo em Goiânia, o qual venha atrair a audiência do podcast pra cá. Um congresso de propósito mais cultural, não sei, é algo para um futuro distante, já que com o surto de Covid-19 tudo ficou mais difícil. E tenho um plano antigo de fazer outro podcast, num formato storytelling, sobre as regiões mineiras e baianas do Vale do São Francisco, com apenas uma temporada. Vai ser algo totalmente diferente do Introvertendo e estou com muita expectativa de que surpreenda a galera. Se tudo der certo, provavelmente será lançado ano que vem.

Gostaram da entrevista? Acho que o Tiago foi o entrevistado que, de longe, mais escreveu nas respostas. Você pode ouvir o podcast no youtube ou nas mais diversas plataformas de podcasts disponíveis. Tem até um episódio comigo! Por hoje é só. Até a próxima e tchau tchau!

Passarinha: um livro sobre uma menina autista e sua busca por um desfecho

Descrição de imagem: capa do livro Passarinha, com uma menina em posição fetal em tons de preto dentro de uma cesta que parece um ninho e a palavra “Passarinha” em branco.

A obra Passarinha, de Kathryn Erskine, é narrada a partir do ponto de vista de Caitlin, uma menina de 10 anos que tem Síndrome de Asperger. Para ela, o seu pensamento concreto transforma o mundo em preto e branco, certo e errado, isso ou aquilo. Muitas vezes sincera ou literal demais, a jovem tem dificuldade em fazer amigos e, por isso, não gosta da hora do recreio. Ela vive apenas com o pai, pois a mãe falecera anos atrás por causa de um câncer. Não apenas isso: seu irmão mais velho perdeu recentemente a vida em um tiroteio dentro da escola. Devon era o único que entendia Caitlin, que a acalmava e a aconselhava, a ajudava a lidar com as situações. Agora sem o irmão e com o pai completamente abalado e de luto, a menina precisa encontrar um desfecho para a situação.

É curioso notar que a personagem não gosta de ser considerada autista. Ela não aceita que tem a mesma condição que seu colega William H., um autista clássico que tem comportamentos diferentes, como comer terra e fugir dos professores. Para ela, Asperger não é autismo. Como poderia ela, que desenha como profissional e tem um extenso vocabulário, ter esse tal de autismo? Essa é uma questão interessante no livro para pensarmos o preconceito que os chamados “autistas de baixo funcionamento” sofrem, pois têm seu potencial ignorado e suas dificuldades realçadas. Em um mundo em que o autismo é visto como uma doença, algo a ser curado, uma condição de alguém que sofre preconceito e é tratado como incapaz, quem é que iria querer ser autista, não é mesmo?

Devon era escoteiro e, antes de partir, havia começado seu projeto de construir um armário. Com sua morte, o projeto ficou inacabado, e seu pai o cobriu com um pano. O choro era iminente toda vez que Caitlin tentava conversar sobre o irmão, principalmente quando ela se referia a ele como “Devon-que-morreu”, para tentar mostrar ao pai que sabe de seu falecimento. A aparente insensibilidade da filha, bem característico da inadequação social de sua síndrome, torna-se um gatilho para ele.

Felizmente, a menina conta com os conselhos da sua psicóloga escolar, a sra. Brook. Ela incentiva Caitlin a tentar fazer amigos, como quando, por exemplo, dá um recreio a mais para a jovem no intervalo das crianças menores. Acontece que, quando se sente ansiosa, Caitlin sente algo que ela chama de “sensação de recreio” e começa a mastigar a manga de seu casaco. A pequena aluna, assim como a maioria das pessoas no espectro autista, apresenta estereotipias, como mastigar a manga e abanar as mãos. Erskine não precisou ir muito longe para fazer sua pesquisa de campo sobre a síndrome, pois sua própria filha foi diagnosticada com Síndrome de Asperger em 2007.

De forma simbólica, a autora não apenas representa o pensamento “preto e branco” da personagem principal na sua interação com os outros, pois a jovem Caitlin jamais colore os seus desenhos. Quando as cores de misturam, a depender da que predomina, o resultado nem sempre é previsível. A dificuldade com a imprevisibilidade faz parte da Síndrome de Asperger da menina, e é retratada por Erskine de forma bem sensível em sua obra.

A evolução de Caitlin é notável ao longo da leitura. Não vou entrar em detalhes para não estragar a experiência de quem pretende ler o livro, mas pode-se dizer que, com o passar da história, tanto a Caitlin quanto seu pai e, até, toda a cidade, passam por uma grande evolução, fruto do desfecho encontrado por nada mais nada menos que a própria menina.

O título da obra é uma referência ao clássico americano To Kill a Mockingbird, do vencedor do prêmio Pulitzer, o escritor Harper Lee. Em português, a obra foi traduzida para O Sol É Para Todos. Em vários momentos do livro de Erskine, vemos referências ao de Harper Lee, como o apelido que Devon dá a Caitlin: “Scout” (escoteira em inglês), que é o nome de uma das personagens de O Sol É Para Todos. Inclusive, a própria obra é citada em Passarinha, cujo título original é Mockingbird.

Para resumir, Passarinha, de Kathryn Erskine, é uma obra linda e sensível, protagonizada por uma criança com Síndrome de Asperger que tem muito a ensinar a todos nós leitores. Certamente, você se apaixonará por Caitlin e se emocionará com sua trajetória em busca de um desfecho para história do assassinato de seu irmão. Através do olhar de uma autista, você aprenderá uma nova forma de ver o mundo e, quem sabe, irá Captar O Sentido.

Texto por Alice Casimiro.

Facebook: A Menina Neurodiversa.

Personagens autistas na ficção

Descrição de imagem: personagem Newt Scamander, interpretado por Eddie Redmayne, da saga Animais Fantásticos e Onde Habitam.

Quando falamos em autismo, muitas pessoas imaginam que se trata de uma doença rara em que o portador da condição é um gênio ou só fica no seu canto isolado. Acontece que autismo não é doença e nem raro! E tampouco seus portadores são todos gênios ou ficam isolados do resto do mundo. Você pode já ter visto alguém autista várias vezes e nem ter reparado! Acontece que autismo não tem cara! E, por falar em cara do autismo, hoje vamos conhecer diversas carinhas autistas na ficção! Como será que é a representatividade autista na mídia? Será que dá conta da diversidade presente na condição? Acompanhe!

#1 JULIA (VILA SÉSAMO)

Descrição de imagem: personagem Julia, do programa infantil de fantoches Vila Sésamo, segurando seu coelhinho de pelúcia.

A personagem Julia foi introduzida em Vila Sésamo em 2015, como parte da iniciativa Sesame Street and Autism: See Amazing in All Children (Vila Sésamo e Autismo: Veja o Incrível em Todas as Crianças, em português). A fantoche é uma menina de quatro anos que adora brincar. Sua brincadeira preferida é pique-boing boing (boing boing tag), na qual as crianças precisam fugir pulando e dizendo “boing”, enquanto uma outra as persegue fazendo a mesma coisa. Julia não é de falar muito, dizendo apenas algumas palavras soltas, como “brincar”. Ela também tem sensibilidade ao barulho e ao toque, o que faz com que ela não goste de música alta e nem de abraços convencionais. Isso não quer dizer que ela não precise de carinho! Com isso em mente, seus amigos inventaram o “abraço-estrela-do-mar”, que consiste em encostar as mãos nas de quem se quer abraçar. É uma forma inclusiva que eles encontraram para que Julia também recebesse seus abraços. Fofo, não? A doce menina também nem sempre responde quando é chamada, mas seus amigos sempre fieis já aprenderam que ela tem o seu próprio tempo. A Julia é a primeira personagem autista de Vila Sésamo!

#2 DR. SHAUN MURPHY (THE GOOD DOCTOR/O BOM DOUTOR)

Descrição de imagem: personagem Shaun Murphy, interpretado por Freddie Highmore, de jaleco em um hospital.

Shaun Murphy é um rapaz autista que tem síndrome de Savant e sonhava em ser médico desde que perdeu seu coelho de estimação e seu irmão. Por ter um jeito diferente, o jovem cresceu sendo vítima de bullying, sendo sempre protegido pelo irmão. Nem depois de adulto teve paz: os outros residentes e diretores do hospital também o subestimavam. Por conta do autismo, o residente médico possui certas características, como déficits na interação social e pensamento concreto e literal, o que faz com que ele não entenda a ironia de seus colegas, além de ser inadequado em muitas situações. Shaun é direto quando não deve ser, sincero quando deveria mentir e ingênuo quando querem fazê-lo de bobo. Isso não quer dizer que seu autismo seja algo negativo: o doutor possui muitas qualidades por conta de sua síndrome, como ser verdadeiro e muito bom na medicina, que é sua área de interesse. Além de autismo, o dr. Shaun Murphy tem savantismo, uma condição rara que costuma aparecer em apenas 10% dos autistas. Isso significa que ele tem um talento genial e fora do comum em uma área de conhecimento, mas tem muitas limitações fora da sua área de interesse.

#3 SAM GARDNER (ATYPICAL)

Descrição de imagem: Sentado no chão próximo a armários escolares, Sam Gardner, da série Atypical, segura um livro e olha para frente. Ele usa fones de ouvido pretos.

Atypical (Atípico, em português) é uma série da Netflix que estreou em 2017 nessa plataforma de distribuição de filmes online. O personagem principal é Sam Gardner, um menino autista de 18 anos que precisa lidar com o mundo confuso dos neurotípicos e ainda com sua família problemática. Ele tem apenas um amigo, mas é uma amizade verdadeira. Além disso, ele possui um emprego de meio período e estuda em uma turma regular, tirando excelentes notas. Mesmo não sendo plenamente independente, o jovem conta com a ajuda de seus pais, sua irmã mais nova, seu amigo e de sua psicóloga Julia. No final da segunda temporada, ele fica um passo mais próximo da independência ao entrar para a Universidade. O interesse restrito/hiperfoco de Sam são pinguins e a Antártica! Ele sabe tudo sobre esse assunto e ama falar sobre isso. Contrariando o pensamento de que autistas não se relacionam, o jovem namora, apesar dos conflitos próprios da adolescência. Atypial é uma série bem divertida da Netflix que mostra a realidade do autismo e como ela afeta a vida de quem o tem e de sua família.

#4 ROSETTA BASILIO (À SOMBRA DO PIANO)

Descrição de imagem: Rosetta Basilio, personagem de À Sombra do Piano, sentada com as mãos juntas.

Rosetta é uma jovem mulher que, desde criança, era muito diferente dos irmãos. Ela não falava, tinha crises, se balançava para frente e para trás e aprendeu sozinha a tocar o piano. Ela não se comunica da forma convencional, normalmente repetindo frases e palavras que ouviu (ecolalia). Apesar de suas limitações e de sua mãe possessiva e controladora, ela tem uma relação muito especial com sua irmã mais velha Franny, que sempre acreditou em seu potencial. Rosetta, apesar de ser um caso de autismo severo, não recebeu um diagnóstico. A palavra autismo nunca é citada no filme, que se passa numa época em que pouco se conhecia sobre esse assunto. Sua família nunca soube o que ela tinha, e sua mãe a via como uma incapaz que apenas tocava piano por imitação. De forma diferente, Franny sabia que ela tinha um talento extraordinário para música, como sua habilidade no piano e seu ouvido absoluto, e que tinha muito a dizer, apesar de ser “não-verbal”. O filme À Sombra do Piano mostra o autismo severo de uma nova forma: a potencialidade do autista e sua capacidade de sentir, mesmo que pouco se espere deles na nossa sociedade. A história de Rosetta é baseada em fatos reais. Você pode assistir ao filme legendado clicando aqui.

#5 NEWT SCAMANDER (ANIMAIS FANTÁSTICOS E ONDE HABITAM)

Descrição de imagem: personagem Newt Scamander, interpretado por Eddie Redmayne, da saga Animais Fantásticos e Onde Habitam.

Newt Scamander é um famoso Magizoologista no universo de Harry Potter. Ele tem um grande fascínio pelas criaturas mágicas e é um especialista na área. Ele carrega consigo uma maleta, que, enfeitiçada com um Feitiço Indetectável de Extensão, o leva para o local no qual ele guarda suas criaturas. Ele é um feiticeiro extremamente habilidoso e metódico, tendo um jeito meio desengonçado e excêntrico. Por conta dessas características, o ator Eddie Redmayne, que interpreta Newt, acredita que ele esteja dentro do espectro autista.

#6 WENDY (TUDO QUE QUERO)

Descrição de imagem: Wendy, do filme Tudo que Quero, sozinha em pé na estrada.

Interpretada por Dakota Fanning, Wendy é uma jovem autista que tem como hiperfoco a série Star Trek (Jornada das Estrelas). Ela sabe tudo sobre esse assunto e vive em uma casa de apoio por conta de sua irmã mais velha Audrey, que não acredita que ela possa viver junto com o sobrinho pequeno por conta de suas crises. Wendy trabalha em uma lanchonete e faz terapia, mas, em seu tempo livre, se dedica ao seu hiperfoco, o que inclui escrever seu próprio roteiro para uma competição de Jornada nas Estrelas. A jovem possui um jeito diferente de falar e agir, o que é visto de forma estranha pelas pessoas. Percebendo que não teria como enviar seu roteiro pelos correios, a menina foge em direção à Hollywood, o que gera toda a trama do filme.

#7 SYMMETRA (OVERWATCH)

Descrição de imagem: personagem Symmetra, do jogo Overwatch, com a mão estendida olha para um objeto azul brilhante que flutua acima de sua mão.

A indiana Satya Vaswani, conhecida como Symmetra, é uma das personagens do jogo online Overwatch. Ela manipula construtos de luz sólida e altera o mundo conforme a sua vontade, na esperança de criar uma sociedade perfeita. Sendo uma das poucas capazes de se tornar uma arquiteta dobradora de luz, a jovem de 28 anos foi recrutada para a academia de arquitetura de Vishkar. Diferente dos seus colegas, ela desenvolveu uma técnica para manipular a luz sólida a partir dos movimentos da dança tradicional de sua terra natal. Foi confirmado pelos criadores do jogo que ela tem autismo e, por isso, é tão boa no que faz.

#8 BENÊ (MALHAÇÃO)

Descrição de imagem: a personagem Benê, de malhação, segura seus óculos

Benê (ou Benedita) é a primeira personagem autista de Malhação. Ela foi introduzida na temporada Viva a Diferença como uma menina tímida e diferente. Ela sofria muito bullying por causa do seu jeitinho e tinha muita sensibilidade a sons e a toques. Apesar de solitária, a menina conseguiu se inserir em um grupo de amigas, que se denominou “as garotas do vagão”, pois se conheceram no metrô. A jovem possui um talento especial para corrida e piano. No final da novela, Benê descobriu que tinha Sindrome de Asperger, que é uma forma de autismo.

Espero que tenham gostado de conhecer esses personagens autistas fictícios! Algum deles tem “cara” de autista? Difícil, né? Como já falei, autismo não tem cara. O preconceito também não! Não esqueça de curtir minha página A Manina Neurodiversa no Facebook para acompanhar minhas matérias! Obrigada e tchau tchau!