Entrevista com Tiago Abreu, do podcast Introvertendo.

Descrição de imagem: Com um fundo desfocado de cidade, Tiago Abreu com uma blusa preta escrito “Radiohead” e óculos olha para a câmera.

O podcast Introvertendo, que fala sobre autismo, tem como um de seus participantes e criadores o jornalista Tiago Abreu. Algo que o diferencia fortemente dos outros conteúdos som a mesma temática é a questão do protagonismo autista. Todos os integrantes do Introvertendo são autistas e, por isso, seu conteúdo é produzido a partir da visão de quem verdadeiramente sente e vive o autismo diariamente. Com isso em mente, convidei o Tiago Abreu para uma entrevista não apenas sobre seu trabalho com o podcast, mas também sobre suas experiências enquanto autista. Acompanhe as 10 perguntas que fiz a ele e suas respectivas respostas.

Alice: Conte um pouco sobre você e da sua trajetória até o seu diagnóstico.

Tiago: Minha história é bastante parecida em relação aos autistas diagnosticados na vida adulta. Tive vários sinais na infância. Demorei para falar, não respondia com facilidade aos estímulos que minha mãe apresentava, e ela pensou que eu poderia ser surdo porque temos parentes surdos. Por sugestão médica entrei na escola com 2 anos e, neste sentido, meu desenvolvimento foi muito bom. Aprendi a falar, aprendi a ler, mas frequentemente tinha problemas de relacionamento com meus colegas. No recreio, saía de perto de todo mundo e ficava batendo papo com pessoas mais velhas, como a coordenadora da escola ou o pessoal da limpeza. Sempre era essa contradição, o que fez com que eu fosse julgado pelas pessoas como alguém que não queria socializar e não alguém com dificuldade para interagir com as pessoas da mesma idade. E, claro, foram anos de bullying na escola, nos ambientes religiosos, nos diferentes espaços sociais.

Em 2013, uma psicóloga de RH, num ambiente que nada tinha a ver com a profissão, julgou o meu abraço afirmando que “gente que abraça assim é porque quer soltar logo”. Eu voltei para casa muito confuso e constrangido, lembro bem. Acho que autistas sabem a sensação de quando você não se encaixa no mundo e não há nada que você faça para mudar isso. Eu sentia aquilo em diferentes períodos da vida, mas não tinha um nome para aquilo. E eu aproveitei aquela noite para ler sobre depressão. Encurtando o processo, acabei depois de meses em um grupo sobre Síndrome de Asperger no Facebook. Eu nem sabia direito o que era autismo e só em pensar na hipótese de autismo considerava absurdo, mas as queixas e relatos faziam muito sentido. Eu não odiava e desprezava pessoas como os outros diziam. Foi então que procurei uma psicóloga, ela pensou bem a hipótese e escreveu um relatório completo. Com o relatório, procurei um neurologista e ele fez todo o processo com a ajuda de uma equipe e alguns exames. Março de 2015, tinha acabado de entrar na universidade e estava com laudo de autismo.

Costumo dizer que 2014, quando trabalhava a hipótese, foi o ano divisor de águas na minha vida. Foi quando eu passei a aceitar minhas diferenças e comecei a construir algumas amizades saudáveis que me ajudaram e ainda me ajudam muito. Só o fato de você saber que você tem certas características te ajuda imensamente a se reconhecer e ser alguém melhor, é essa a função de um diagnóstico. De lá para cá, tenho vivido os melhores anos da minha vida.

Alice: Como surgiu a ideia de criar o Introvertendo? Foi algo que te ajudou a se conectar mais com outros autistas e a melhorar a socialização?

Tiago: Ah, é uma história extremamente longa.

Antes do diagnóstico do autismo, eu era um fã intenso de podcasts. Gostava muito de podcasts sobre música, meu principal hiperfoco, e sonhava ter o meu, isso ainda em 2013. Mas meus amigos não queriam fazer comigo. Eles achavam que ninguém se interessava em podcast e deveríamos fazer um canal no YouTube. Eu detestava a exposição de imagem e pensava no podcast como ferramenta exatamente para evitar isso. Entrei na Universidade Federal de Goiás (UFG) com um diagnóstico em mãos e a primeira coisa que eu quis foi procurar outros autistas na UFG. Eu só conhecia pessoas pela internet. O Núcleo de Acessibilidade tinha o contato por e-mail de duas, que era o Marcos da Física Médica e um estudante do mestrado em Sociologia chamado Renato Moreira, que até entrevistei no Introvertendo uma vez. Houve greve na universidade, minha terapia foi encerrada abruptamente por um pedido de demissão da psicóloga, fiquei bastante desassistido e quase larguei o curso de Jornalismo no primeiro semestre. Meus amigos insistiram pra eu continuar e só abandonar quando soubesse minha nota no Enem seguinte. Fiz isso. Acabei mudando de ideia, gostei do curso, e fiquei.

Em 2016, eu já tinha desistido da ideia de procurar terapia, o processo era muito burocrático. Até entendia o porquê muitos autistas na universidade não procuravam os espaços de assistência estudantil. Aí, num dia, recebi uma mensagem no WhatsApp de uma psicóloga chamada Tatiana. Ela conseguiu meu número a partir do Núcleo de Acessibilidade, atendia um aluno da Medicina com Asperger e afirmou que ele não conhecia ninguém com o mesmo diagnóstico. Dias depois, estávamos juntos no consultório. Era o Otavio. E conhecer o Otavio foi sensacional, porque ele tem um jeito intenso, um senso de humor desconcertante, mas um interesse genuíno quando se envolve em algo. Estava criado ali o grupo Asperger. Coincidentemente, tempos depois, chegou um aluno pedindo ajuda, chamado Michael, diagnosticado em 2012. Tempos depois, eu estava andando no prédio da Física e vi o Marcos arrumando a mochila. Eu nunca tinha conversado pessoalmente com ele, apenas o visto andando pelo campus, e sabia que era o cara dos e-mails. Tomei coragem, puxei conversa, disse que tinha um grupo para aspies e perguntei se ele topava ir comigo de ônibus. E daí nós quatro nos encontramos e vimos que, quando conversávamos juntos, era um tipo de conversa que eu não tinha em lugar nenhum, era muito divertida e pouco comum. Lembro desse período com muito carinho, porque valia muito a pena passar todo aquele calor goianiense nas tardes de quinta pra conversar com pessoas parecidas comigo.

Fora da universidade, num grupo de fãs de um podcast, eu conheci o Luca Nolasco. Ele era aluno do ensino médio, morava em Goiânia, e a gente se encontrou. E foi uma conversa bem engraçada, porque éramos bastante parecidos. Tínhamos um hiperfoco em música e, pouco tempo depois, ele foi diagnosticado com autismo também. Levei ele ao restante do pessoal no final de 2017. Eu já tinha falado que queria um podcast sobre música, mas na altura do campeonato já dava para perceber que deveria ser um podcast de autistas. Não exatamente sobre autismo, mas deveria ser um podcast nosso. Antes disso, em 2017, já tinha feito um perfil de Jornalismo Literário sobre o Michael e um radiodocumentário. Foi o suficiente pra convencer eles. Usei meu computador, um gravador, um microfone, e começamos a gravar após o horário da terapia. A Tatiana conseguiu deixar que ficássemos na sala nos primeiros episódios (até o 16), até que o nosso barulho começou a atrapalhar as outras consultas e ficamos perambulando de prédio em prédio da UFG (risos). E, depois disso, até meados de junho de 2019, continuamos gravando presencialmente de vez em quando e a maior parte do conteúdo passou a ser feito pela internet.

Depois dessa introdução gigante, mais objetivo: O Introvertendo foi criado porque, na minha busca por podcasts sobre autismo, encontrava apenas um estrangeiro, chamado Aspie Cast, que lançava nem 3 episódios por ano. Vimos uma oportunidade de fazer um projeto pioneiro. O Michael até fazia piada sobre as questões culturais do Brasil com o autismo, dizendo: “É até difícil achar um autista gravando seus videozinhos lá fora, e no Brasil você tem o Paulo Kogos”. É engraçado que uns podcasts de autistas em inglês hoje, como o Them Aspergers e This Podcast Has Autism, foram lançados dias depois do Introvertendo, no mesmo mês. É muita coincidência. Do ponto de vista objetivo, não nos ajudou tanto na socialização, porque ele era consequência de um processo de socialização. Mas nos ajudou muito a participar mais efetivamente da comunidade do autismo no Brasil. De alguma forma viramos um tipo de Asperger’s Are Us brasileiro – sem ser um grupo de comédia (risos).

Alice: Como você acha que o podcast contribui tanto para a comunidade autista quanto para a sociedade brasileira?

Tiago: Para a comunidade autista e a comunidade do autismo, creio que a principal função do podcast é mostrar como autistas interagem e a variação de características dentro do espectro. É como começamos e é o que seremos enquanto existirmos. Ao longo do tempo, também vimos uma outra contribuição singular e natural: Por sermos uma produção em áudio, sem as barreiras do vídeo, trazemos figuras da comunidade de todos os lugares do Brasil e conseguimos juntá-las em encontros inéditos. Para a sociedade brasileira, conseguimos mostrar que nós existimos e que nós podemos contribuir nas discussões sobre autismo e saúde mental. E há muito o que conversar sobre isso.

Alice: Na sua opinião, o que significa ser autista?

Tiago: Uma vez, um autista publicou um poema no Facebook falando o que era “ser autista”, e até chegou a viralizar entre autistas e mães. Outro, discordando, comentou logo abaixo: “Ser autista é estar no transtorno do espectro do autismo”. Eu geralmente não curto muito descrições floridas sobre o autismo. São perfeitamente válidas para emocionar pessoas em contextos específicos, mas não têm muita utilidade para além disso. Não vejo o autismo como uma tragédia, não o vejo como o auge da existência humana, vejo como uma condição. Uma condição que não me torna um ser humano pior ou melhor em relação às outras pessoas, que não me torna menos gente. Pra mim, ser autista é ser alguém com qualidades e defeitos, com dificuldades mais significativas em certos aspectos e, em alguns casos, mais habilidades. Só não podemos usar esse tipo de discurso para dizer que o autismo não é uma deficiência, ou que no fundo no fundo todo mundo é igual, porque sabemos que não é.

Alice: Você é formado em jornalismo. Poderia nos contar um pouco sobre a sua experiência no ensino superior e no mercado de trabalho enquanto autista? Teve alguma adaptação?

Tiago: Como obtive o laudo exatamente quando ingressei no ensino superior, procurei rapidamente os serviços de assistência estudantil. Uma psicóloga me atendeu, duas consultas depois pediu demissão, depois veio a Tatiana, como já contei. E o atendimento individual que eu tive com ela, junto com o grupo Asperger, certamente foi um incentivo para continuar na universidade. Era um período muito crítico, estava cumprindo 10 disciplinas ao mesmo tempo e fazia uns freelas na internet para complementar a renda, praticamente um overclock insustentável. Tive problemas com depressão e ansiedade neste período e fui atendido de graça na universidade, consegui até parte da medicação. Eu diria que os serviços de saúde mental são fundamentais para autistas na universidade. No sentido curricular não precisei de nada muito específico. Meu curso era complicado porque eram muitas atividades em grupo, mas consegui ter três pessoas próximas que eram a minha “turma”. Depois que terminei a graduação, continuei muito bem. Já não preciso de medicação há quase 2 anos.

Em termos profissionais, eu trabalho de forma remota na mesma empresa desde 2017. Ela fica em Porto Alegre e, de vez em quando, vou para lá. Levei um ano e meio para contar sobre o diagnóstico, porque trabalhar à distância sempre foi tão tranquilo para mim que isso acabou passando batido. Hoje, a empresa que eu trabalho faz a produção do Introvertendo. Tem sido ótimo. Fora do mercado de trabalho formal, ainda faço algumas atividades jornalísticas. Escrevi um livro chamado Histórias de Paratinga, sobre um município baiano, e escrevo umas reportagens sobre música e autismo.

Alice: Como você vê o movimento da neurodiversidade? E a questão da inclusão e aceitação do autista no Brasil?

Tiago: O movimento da neurodiversidade, sendo sincero, ainda é uma incógnita pra mim. Ouvi falar sobre ele logo que tive o primeiro contato com autismo, lá em 2013, e fiquei muito empolgado. Mas, apesar do entusiasmo, minha leitura sobre o tema era muito superficial. Nos grupos virtuais de autistas, maior parte pró-neurodiversidade, isso em meados de 2013 e 2014, era uma briga frequente entre autistas, uma baixaria que me deixava bastante decepcionado. Nesta época, eu conheci várias pessoas autistas muito legais, que poderiam dar uma contribuição social absurda, mas acabaram desistindo da comunidade por completo e nunca mais voltaram. Até que eu comecei a interagir mais com pais de autistas, acabei presenciando alguns ruídos no ativismo autista no país e no exterior, e comecei a adotar uma postura bastante receosa (e até discordante) com o movimento. Tinha as questões conceituais, algumas dicotomias que eu ainda discordo. Até porque a própria Judy Singer, nos últimos anos, andou criticando várias interpretações sobre a ideia de neurodiversidade, a um nível que já vi o termo ser usado em contextos extremamente genéricos. Mas como alguém que procura ler antes de tomar decisões precipitadas, comecei a ler muito sobre a história do autismo de uns anos pra cá, e posso dizer que eu ainda estou num processo de reconciliação gradual com a neurodiversidade. Como jornalista, uma das minhas tarefas é entender os diferentes guetos da comunidade do autismo, e todos eles tem seus problemas (alguns mais que outros, claro). E cada vez mais estou chegando à conclusão de que sou mais respeitado, enquanto indivíduo, entre as pessoas que defendem a noção de neurodiversidade.

Sobre a inclusão e aceitação, podemos admitir que falamos sobre autismo muito mais do que falávamos há 10 anos. E as políticas públicas se orientaram neste sentido. Tivemos a Lei do Autismo em 2012, a Lei Brasileira de Inclusão em 2015, e mesmo depois de uma guinada absurda do Governo Federal, por meio do IBGE, em enxugar o Censo, o autismo vai entrar no questionário por livre e espontânea pressão. Quando vemos, dia a dia, notícias sobre discriminação a autistas e a falta de suporte que muitos de nós deveríamos receber, podemos pensar que as coisas não estão andando, mas daqui a alguns anos veremos o quanto avançamos em cerca de uma década. Não é ideal ainda, mas está progredindo.

Alice: Você já enfrentou alguma barreira atitudinal ao revelar seu diagnóstico para as pessoas? Sente-se acolhido?

Tiago: Sim, já percebi várias barreiras atitudinais, mas não vejo um padrão nelas, porque essas barreiras ocorreram em períodos e contextos diferentes. Vi barreiras atitudinais na universidade quando colegas faziam piadinhas pelas costas, vi barreiras atitudinais em eventos de autismo ao ser encarado como um herói ou como uma criança, vi barreiras atitudinais até em relacionamentos amorosos, quando ouvi que eu usava o autismo como escudo. É complicado ser autista nestes contextos, porque você não tem como prever como as pessoas vão reagir ao assunto. Ao mesmo tempo, existe um período de amadurecimento pós-diagnóstico. Levei cerca de 3 anos para ter um olhar mais sereno para todas as mudanças ocorridas em tão pouco tempo. Porque, no início, era uma empolgação tão grande com as respostas que tive e, olhando pra trás, realmente eu falava sobre autismo em todos os contextos. Depois disso foi o inverso, fiquei extremamente retraído. Hoje em dia o autismo só se torna assunto quando há um contexto para ser introduzido. E, por conta do Introvertendo, muitas pessoas acabam sabendo do autismo antes mesmo de falar comigo. Neste sentido, as reações têm sido boas, no geral.

Alice: Você acha que ainda existe uma barreira no que diz respeito ao autista ter sua voz ouvida e seu lugar de fala respeitado?

Tiago: Com certeza. Tem vários aspectos e contextos, na verdade, que envolvem isso. Eu percebo que isso é muito evidente no ativismo local, cuja construção histórica foi de mães com certas demandas e estas demandas, naturalmente, podem não ser as mesmas de alguns autistas. E acho até natural que as pessoas tenham essas reservas quando elas estão nessa trajetória há muito mais tempo que nós. Mas temos visto mudanças significativas pelo país. Em Goiânia, por exemplo, há uma associação com vários autistas na diretoria, e tem feito um trabalho formidável em amparar adultos com suspeita de autismo e produz conteúdos culturais sobre autismo. 

Quando ingressei na comunidade, lá em 2013, quase todos os eventos sobre autismo eram feitos apenas por profissionais. Entendo bem que um congresso científico, de capacitação na área de educação ou psiquiatria, por exemplo, deve ter só pessoas especializadas, independentemente de serem autistas ou não, porque o conteúdo é mais importante que o emissor da mensagem. Mas a gente sabe bem que também existia uma parte massiva de eventos com mães e pais de autistas, sem conhecimento técnico sobre autismo, relatando experiências. Se eles podiam estar na mesa, por que autistas não? Pais falando horas sobre questões do autismo nem um pouco técnicas e especializadas, num evento que deveria promover mais informação… Criei um mal estar localmente há anos, durante uma audiência pública, quando sugeri, educadamente, que seria interessante ter um autista na mesa numa próxima audiência. O deputado coordenador da mesa riu, levemente, de um jeito que eu não sei se ele zombou ou ficou desconfortável. Nem fui na audiência seguinte porque estava viajando para uma outra palestra, mas fiquei sabendo que teve autista na mesa. Em 2020, as coisas mudaram absurdamente. Autistas não são mais apenas parte das apresentações culturais e participam de mesas, são palestrantes. Não que eu concorde com o que todos os autistas palestrantes falam, mas lanço essa provocação aqui: Se não tinha nenhum critério sobre os pais que falavam (e ainda às vezes falam) sobre autismo, por que só os autistas deveriam ficar de fora?

Alice: Como você se sente em relação às mudanças no diagnóstico de autismo que serão introduzidas no novo CID-11 futuramente?

Tiago: Critérios diagnósticos sempre foram algo confuso para mim, e só consegui entender razoavelmente bem com muita leitura e ajuda de alguns colegas. Eu entendo que o CID-11 vai resolver um problema muito significativo da última edição do DSM, o qual é o “autismo moderado”. Falar sobre os antigos aspies é fácil, falar sobre o que se chamava de “autismo infantil” de Kanner também é um território muito bem demarcado, mas o que tinha entre os dois “extremos” do espectro nunca ficou muito palpável. E as divisões do CID são muito mais intuitivas do que as o DSM-V. Até hoje essas fronteiras não são bem específicas. Existe um senso comum de que todo autista não-oralizado, por exemplo, é autista severo e isso não é verdade. Terá um efeito muito positivo na comunidade, em principalmente alertar a muitas pessoas que existem autistas de muitas formas, inclusive sem deficiência intelectual e sem forte comprometimento na linguagem. Vai quebrar muito do papo “Asperger não é autismo” e vai fazer também muita gente, outrora na mesma “categoria”, receber códigos diferentes. Se estou equivocado, só o tempo vai dizer…

Alice: Quais foram os momentos mais memoráveis da sua jornada no Introvertendo? Pode contar sobre seus projetos futuros?

Tiago: É muito difícil responder isso, porque foram tantas fases nestes dois anos, ainda mais no meu caso que estou em todas as etapas de gravação e pós-produção… Mas, com certeza, o início me dá mais saudade. Época que nos encontrávamos pessoalmente na UFG para gravar e tudo ainda era muito romântico e sem filtros… Mas quem ouve não imagina que foi uma época muito complicada pra mim, na verdade. Estava com problemas sérios com depressão, terminando o curso próximo ao TCC, tive um relacionamento o qual me deixou desestruturado, e o podcast era uma válvula de escape, um momento pra me divertir de verdade. Gravamos os episódios 1 ao 25 em cerca de dois meses e lançamos aos poucos. Aí teve a Copa do Mundo, o Michael foi embora, eu estava focado no TCC, o grupo presencial se desfez e ficou só pela web. Vieram a Thaís, Paulo e Yara, trouxeram uma maturidade que nós fundadores não tínhamos e, mais tarde, a Mariana e o Willian Chimura, um cara extremamente sério e que sempre sabe o que está fazendo, que complementa muito nas discussões com um viés científico que só temos explorado de uns meses pra cá. Acho que, enquanto o tempo passar, eu vou sempre sentir saudade de todo o processo, porque cada dia é uma descoberta.

Tenho muitos projetos futuros. Sobre o Introvertendo, estamos com planos de entrevistar figuras internacionais do autismo. Apenas não sabemos como vamos fazer isso nos episódios, mas é um sonho antigo que vamos executar este ano ainda. Queremos muito que a comunidade internacional saiba o que os autistas do Brasil estão fazendo. Também tenho muita vontade de organizar um evento local sobre autismo em Goiânia, o qual venha atrair a audiência do podcast pra cá. Um congresso de propósito mais cultural, não sei, é algo para um futuro distante, já que com o surto de Covid-19 tudo ficou mais difícil. E tenho um plano antigo de fazer outro podcast, num formato storytelling, sobre as regiões mineiras e baianas do Vale do São Francisco, com apenas uma temporada. Vai ser algo totalmente diferente do Introvertendo e estou com muita expectativa de que surpreenda a galera. Se tudo der certo, provavelmente será lançado ano que vem.

Gostaram da entrevista? Acho que o Tiago foi o entrevistado que, de longe, mais escreveu nas respostas. Você pode ouvir o podcast no youtube ou nas mais diversas plataformas de podcasts disponíveis. Tem até um episódio comigo! Por hoje é só. Até a próxima e tchau tchau!

Autismo e sexualidade: entrevista com sexóloga

Descrição de imagem: Lara olhando para a câmera e sorrindo levemente sem mostrar os dentes, com a mão direita no ombro. Ela usa brincos, colar e uma blusa “tomara-que-caia”.

Recentemente conversei com a psicóloga e sexóloga Lara Perasso, de Santo André, SP. Ela nos contou um pouco sobre sexualidade e também sobre esse assunto relacionado ao TEA. Vamos lá:

Alice: Fale sobre você, sua formação e seu trabalho.

Lara: Sou psicóloga formada pela Universidade Metodista de São Paulo e sexóloga formada pelo Instituto Paulista de Sexualidade. Atendo em consultório particular no ABC paulista, faço parte da equipe da neuropsicóloga Luciana Xavier na Clínica Integrada Mais Saúde, desenvolvo grupos terapêuticos em escolas e demais instituições e faço palestras sobre saúde mental e sexual em eventos aos quais sou convidada. Mas, para além desse lado acadêmico e profissional, já que me pediu para que eu falasse de mim, vamos a algumas curiosidades (rsrs): sou apaixonada por animais, mas tenho pavor de insetos. Entre doce e salgado? Salgado com certeza. Amo dias de Sol, mas adoro tardes de chuva. Na Lua cheia estarei sempre de bom humor. Estou em paz quando fico com a minha família. Sou bem caseira, mas tenho poucos e bons amigos. Aprendo, todos os dias, a importância do ouvir. Ouço muitos pacientes com histórias das mais variadas e me apaixono por cada uma delas. Como costumo dizer, fui escolhida pela psicologia e xavecada pela sexologia. Hoje estou num relacionamento sério comigo mesma e com todos aqueles que me confiam seus universos.

Alice: O que faz o sexólogo?

Lara: Bom, primeiramente, para tornar-se sexólogo(a), é preciso fazer uma pós-graduação em sexologia. Na minha experiência, a maior parte da minha turma era da área da saúde, como médicos, fisioterapeutas e psicólogos. Um sexólogo trabalha com saúde sexual, estuda a história da sexualidade e seus vários tópicos, discutindo assuntos da atualidade e demandas da sociedade. Existem cursos que abrangem temas mais teóricos e cursos que focam na chamada “terapia sexual”, em que a prática é ensinada a partir de técnicas e instrumentalizações específicas. Em ambos os casos, o objetivo é ajudar as pessoas a buscarem autoconhecimento e, consequentemente, diagnóstico e tratamento para possíveis disfunções sexuais, problemas conjugais, etc. Esse profissional pode trabalhar levando a escolas, instituições e demais eventos a importância de debater e informar as pessoas acerca da sexualidade.

Alice: O que é sexualidade?

Lara: Tudo. Bem abrangente, eu sei, mas é real. Sexualidade vai muito além do ato sexual. Envolve identidade de gênero, orientação sexual, sexo biológico, papéis sociais, erotismo, prazer, intimidade e reprodução. Ela pode ser expressa através de pensamentos, fantasias, desejos, crenças, atitudes, valores, comportamentos, práticas, relacionamentos, etc. Basicamente é o eixo central de todo o ser humano, do qual irá acompanhar o desenvolvimento e a expressão da individualidade, desde a infância até a velhice. É a forma de ser e estar das pessoas do mundo.

Alice: Por que isso é um tabu tão enorme na sociedade? Por que é ainda maior com pessoas com deficiência?

Lara: Para entendermos melhor o tabu em relação à sexualidade, precisamos voltar alguns capítulos na história. Séculos atrás, nas épocas nômades, o sexo era livre e instintivo. Envolvia a busca pelo prazer e a saciação de um desejo que poderia ser comparado com o da fome ou da sede. Com a agricultura, caça e demais habilidades adquiridas pelo homem ao longo dos anos, tribos iam se constituindo e se reproduzindo entre si. Apesar de a vida em sociedade começar a nascer daí, nem todas as regras sociais existentes hoje faziam parte do cotidiano daquela época. Para começar, a mulher era vista com outros olhos em algumas culturas. Ela era considerada sagrada, pois dava a vida (gravidez). Os filhos eram da tribo, ou seja, não havia relações monogâmicas. Com o surgimento do cristianismo, guerras e necessidades de defender territórios, as relações começaram a mudar, e os tabus foram surgindo. O que era considerado comum agora não era mais, passando de geração para geração, esse medo de falar sobre sexo, sexualidade e busca por prazeres carnais e emocionais. Na deficiência, isso se agrava pelo fato de que pessoas com deficiência são vistas pela sociedade como incapazes e, dessa forma, ficam marginalizadas diante de questões que envolvam sexualidade e relacionamentos interpessoais. Subestimadas, ignoradas e até silenciadas, deixam de receber, muitas vezes, a estimulação necessária para o desenvolvimento de suas autonomias.

Alice: O que são orientação sexual e identidade de gênero?

Lara: Bom, vamos lá: esse é um assunto que daria para falar por horas e, ainda assim, teríamos papo. Ele é bem diverso e dinâmico, mas tentarei resumir à priori. Podemos dividir didaticamente o ser humano em três partes: sexo biológico, identidade de gênero e orientação sexual. Sexo biológico tem a ver com a genitália e características secundárias do corpo. Podemos ser homens (com pênis, próstata, barba, etc), mulheres (com vulva, vagina, útero, etc) ou intersexo (pessoas que têm características físicas de ambos os sexos – hermafroditas). Na identidade de gênero, falamos exatamente sobre identidade (a forma como você se apresenta para o mundo, independente do seu corpo físico), tendo as seguintes possibilidades: cisgênero (pessoas que se identificam com seu gênero de nascença), transgênero (pessoas que não se identificam com seu gênero de nascença) e não-binárias (pessoas que transitam entre o gênero feminino e masculino ou criam um terceiro gênero). Por fim, a orientação sexual pode ser definida como o desejo sexual e/ou afetivo que as pessoas têm umas pelas outras, sendo elas: heterossexualidade (homem e mulher), homossexualidade (homem e homem, mulher e mulher), bissexualidade (uma pessoa que se relaciona com os dois gêneros binários – homem e/ou mulher), pansexualidade (pessoas que se relacionam com pessoas independente de sua identidade de gênero) e assexualidade (pessoas que não têm atração sexual, mas podem ter atração afetiva). Lembrando que estou dando uma pincelada geral no assunto. Existem muitas nuances dentro da expressão e vivência da sexualidade.

Alice: Quais são as dificuldades mais comuns em relação à sexualidade de pessoas com TEA?

Lara: Relacionamento. Relacionar-se interpessoalmente é, com certeza, uma das grandes dificuldades de pessoas com TEA. Essa troca com o outro costuma gerar muita angústia e incômodo quando chega a adolescência e vida adulta, em que os namoros começam a surgir como uma necessidade social e até pessoal. Toques nem sempre são bem-vindos, a depender da sensibilidade física e sensorial. A comunicação costuma gerar ansiedade na hora de paquerar ou mesmo fazer amizades. A orientação sexual pode ser confusa, pois ela se desenvolve a partir da troca de experiências com o outro. Quando deixamos de olhar para dentro de nós mesmos e nos interessamos pelo mundo alheio, abrimos espaço para desejos, eróticos ou não, mas que motivam a busca por relacionamentos. É por isso que nem sempre pessoas com TEA têm certeza quanto à sua orientação sexual. Muitos se autointitulam como assexuais, pois o ato sexual não lhes desperta interesse. Isso não quer fizer que a pessoa não possa namorar ou casar, pois alguns se apaixonam e mantêm relacionamentos afetivos apenas. A sexualidade do TEA é neurodiversa, isto é, possui um desenvolvimento e funcionamento diferente da sexualidade de pessoas típicas. Mesmo assim, ela não deixa de ser diversa!

Alice: De que forma alguns autistas podem se beneficiar da terapia sexual?

Lara: Bom, novamente, cabe um mundo nessas demandas. Em crianças e adolescentes, uma queixa muito comum vinda dos pais é a masturbação em excesso ou mesmo a busca por conteúdo pornográfico. Entram em hiperfoco e buscam um prazer exacerbado, que acaba comprometendo o convívio social e até a saúde física. O que mais podemos trabalhar numa terapia sexual em pessoas com TEA são o treino de habilidades sociais, a educação sexual, orientando e sanando possíveis dúvidas desses pacientes, e o desenvolvimento do autoconhecimento, ajudando essa pessoa a entender seus desejos, respeitar seus limites e aprender a se relacionar interpessoalmente.

Alice: Já teve alguma experiência profissional com paciente autista? Como foi? Há alguma diferença em relação a outros pacientes?

Lara: Já, sim. Na verdade, a maioria (se não todos) veio através da Clínica Integrada Mais Saúde. Já que Luciana Xavier é especialista em autismo, costumamos trabalhar juntas nesses casos. Nos meus primeiros atendimentos, confesso que tive certa dificuldade. Sou expressiva, me mexo muito em sessão (trocando a perna de lugar ou passando a mão no cabelo), o que faz com que a atenção do paciente se perca em alguns momentos. Além disso, gosto muito de usar analogias e ditados populares em sessão, e nem sempre eles compreendiam do que eu estava falando. Mas todo profissional de saúde passa por desafios até aprimorar suas técnicas. O crescimento numa psicoterapia, juntamente com um indivíduo com TEA, é lindo. Tanto o psicólogo como paciente aprendem demais! E, sim, cada paciente é um universo. Apesar de estarem dentro do espectro, a personalidade é única, e o manejo clínico também.

Alice: O que é importante que não só a família, mas a sociedade geral saiba sobre a sexualidade no TEA?

Lara: O essencial é que pessoas com TEA têm sexualidade! Infelizmente, por estarem fora do “padrão social”, acabam passando despercebidas diante de um assunto tão importante. Todos temos o direito de vivenciar e experienciar nossa sexualidade, tendo acesso à informação para nos prevenir de possíveis patologias, promovendo saúde física, mental e sexual.

Alice: Você tem um projeto envolvendo sexualidade e TEA. Poderia contar um pouco sobre isso, de sua importância e objetivo?

Lara: Bom, tenho, sim! Mas alguns deles ainda são segrado (rsrsrs). Pelo simples fato de que ainda estão “no papel”. Agora, uma novidade que já lhes adianto é que, este ano, iremos abrir alguns grupos terapêuticos com o tema Sexualidade Neurodiversa lá na Clínica Integrada Mais Saúde! A importância é toda: dar voz e escuta para pais, cuidadores e educadores que lidam com pessoas com TEA, ajudando-os a serem coautores do trabalho que fazemos na clínica. Para além disso, claro que pretendemos fazer grupos para adolescentes e adultos TEA discorrerem sobre sexualidade, tirando dúvidas e trocando ideias.

Foi muito bom conversar com a Lara! Espero que tenham aprendido tanto quanto eu! Vocês podem seguir a Lara na rede social Instagram: @blogdelara. Até a próxima e tchau tchau!

Entrevista com neuropsiquiatra sobre autismo e neurodiversidade

Descrição de imagem: Dra. Raquel Del Monde sentada à mesa olhando para frente. Embaixo, uma ilustração de um cérebro colorido e as palavras “Neuropsiquiatra da infância e adolescência. Dra. Raquel Del Monde”

Muito se fala, dentro da comunidade autista, sobre a neurodiversidade. Trata-se de um movimento que vê as diferenças neurológicas como algo positivo e enriquecedor para a sociedade, o que vai na contramão da visão patológica de condições mentais que não se tratam de doenças, mas de um funcionamento diferente e legítimo. Apesar de ser tão debatido entre autistas engajados na causa, pouco se fala sobre isso entre os profissionais da saúde, que não costumam acompanhar os movimentos protagonizados pelos próprios autistas, mas apenas o que a ciência diz. Foi com isso em mente que resolvi convidar a Dra. Raquel Del Monde, neuropsiquiatra da infância e adolescência para esta entrevista. Acontece que ela é uma exceção à regra, pois sua prática clínica é baseada no respeito às diferenças a partir da neurodiversidade. Acompanhe a entrevista:

Alice: O que é autismo, do ponto de vista médico?

Dra. Raquel: É uma condição neuropsiquiátrica, de origem predominantemente genética, com apresentações clínicas bastante heterogêneas, envolvendo dois amplos domínios do comportamento humano: 1 – A comunicação social; 2 – Interesses e comportamentos restritos e repetitivos/alterações do processamento sensorial.

Alice: A sra. poderia falar um pouco da sua trajetória acadêmica e do seu trabalho?

Dra. Raquel: Sou formada em medicina pela FMRP – USP, em 1993. Fiz residência médica em pediatria na FCM – UNICAMP e trabalhei como pediatra por muitos anos. Sempre tive um grande interesse em comportamento e saúde mental infantil – esse foi, inclusive, o tema da minha iniciação científica, ainda na graduação. Mas a virada da minha vida profissional veio com a experiência de ser mãe de um filho neuroatípico, com Dupla Excepcionalidade. As dificuldades que enfrentei na época para encontrar profissionais qualificados e informações de qualidade me levaram a buscar capacitação na área. Não vou dizer que encontrei tudo o que procurava em um único curso ou formação, porque simplesmente não foi o que aconteceu. Frequentei eventos e congressos destinados a pedagogos, fonoaudiólogos, psicólogos e terapeutas ocupacionais, que me ajudaram muito a preencher lacunas no meu conhecimento. Frequentei por seis meses um ambulatório de distúrbios de aprendizagem e mergulhei no estudo da neurociência. Em 2013, fiz a especialização em psiquiatria da infância e adolescência na FCM – UNICAMP e foquei meu trabalho na área de aprendizagem, desenvolvimento e autismo. O contato intenso e contínuo com pacientes e suas famílias também contribuiu muito para enriquecer a minha prática.

Alice: O que uma pessoa deve fazer para se tornar neuropsiquiatra como a sra.?

Dra. Raquel: O termo neuropsiquiatria é usado para designar a prática psiquiátrica pela abordagem da neurociência. Nos últimos anos, tem havido uma aproximação necessária dessas áreas, possibilitando a compreensão de mente e cérebro como elementos intrinsecamente relacionados. É uma tendência que vem se acentuando nos cursos da área de saúde mental.

Alice: Qual o maior déficit na formação dos profissionais no que diz respeito ao autismo? O que pode ser feito para melhorar isso?

Dra. Raquel: Acredito que as grades curriculares ainda não tenham assimilado o conhecimento atual que temos acerca do autismo. Observamos que, em boa parte dos ambientes de formação, ainda são replicadas informações desatualizadas. Os responsáveis pela definição dos programas de formação profissional precisam ser sensibilizados quando à necessidade de mudança.

Alice: Qual seria a importância do conceito de neurodiversidade na prática médica e na de outros profissionais que lidam com pessoas neurodiversas?

Dra. Raquel: O conceito de neurodiversidade é uma mudança de paradigma para todos os profissionais que lidam com pessoas neurodiversas. A compreensão de que a existência de indivíduos neuroatípicos e as diferenças neurológicas que apresentam não são “erros” da natureza, e sim manifestações da imensa diversidade biológica da vida em nosso planeta e da pluralidade de habilidades da espécie humana, muda totalmente a forma que enxergamos os “transtornos” neuropsiquiátricos. Passamos a entender que nossa função não é normalizar ninguém e sim oferecer suporte adequado para o desenvolvimento e autonomia da pessoa.

Alice: Quais são as comorbidades mais comuns associadas ao autismo?

Dra. Raquel: As comorbidades que encontramos com maior frequência são: TDAH, ansiedade e transtornos da regulação de humor. Mas as possibilidades são muitas: TOC, Tourette, depressão, deficiência intelectual, esquizofrenia e outras.

Alice: Quais os problemas que podem levar a um diagnóstico tardio de autismo?

Dra. Raquel: Penso que todas as dificuldades do diagnóstico são devidas a falhas na formação de profissionais.

Alice: O autismo é mesmo mais comum em meninos ou existe uma dificuldade maior de se diagnosticas meninas?

Dra. Raquel: As duas coisas. O autismo é mais comum em meninos (estudo recente de metanálise aponta para uma frequência de 3:1). Porém, é fato que as meninas tendem a ter manifestações mais sutis e também a camuflar melhor suas dificuldades – portanto, são mais propensas a serem subdiagnosticadas.

Alice: Quais os aspectos mais importantes que os médicos precisam ter em mente para lidar melhor com seus pacientes autistas?

Dra. Raquel: A individualização da abordagem terapêutica é essencial. Os estudos genéticos mais atuais apontam para a existência de vários autismos, ou seja, alterações genéticas diferentes, levando a diferentes alterações no neurodesenvolvimento que, em comum, apresentam os déficits de comunicação e comportamento que definem o autismo. Isso explica tanto a heterogeneidade do espectro quanto a presença de comorbidades tão diversas entre os autistas. Simplesmente não há lógica na ideia de oferecer o mesmo tipo de suporte para todos os casos.

Alice: Qual a diferença entre o tratamento de autismo para uma criança e para um adulto que nunca teve nenhuma intervenção na infância?

Dra. Raquel: O objetivo, em qualquer caso, é oferecer suportes adequados para que o indivíduo possa ampliar seu repertório de comunicação e comportamental, favorecendo sua adaptação aos diversos ambientes e visando à sua autonomia. A principal diferença é que os adultos que nunca receberam intervenção adequada na infância perderam oportunidades de desenvolver algumas habilidades em períodos mais favoráveis de desenvolvimento neurológico e têm maior probabilidade de apresentar comorbidades secundárias à sua condição.

Alice: Qual a importância do diagnóstico para autistas adultos?

Dra. Raquel: Um diagnóstico correto, mesmo para aqueles que passaram a vida inteira sem conhecer sua condição, pode representar a chance de finalmente ter suporte terapêutico adequado, de receber acomodações necessárias no estudo ou na vida profissional, de autoconhecimento e melhoria nos relacionamentos pessoais.

Aprendi muitas coisas com essa entrevista! Sou muito grata à dra. Raquel por concedê-la a mim e também por ser tão humana e mente aberta em sua prática, quando sabemos que não costuma ser assim com todos os profissionais da área médica. Fiquei tão feliz quando conheci a página da dra. Raquel e vi que ela é a médica dos sonhos de tantos autistas que lutam pelo seu diagnóstico já na fase adulta. E também por ver que crianças diagnosticadas terão com ela a chance de mostrar aos seus pais que está tudo bem em ser autista. Muito obrigada pela entrevista, dra. Raquel! ❤

Espero que tenham gostado da entrevista! Não se esqueçam de curtir a página A Menina Neurodiversa no facebook! Até a próxima e tchau tchau!

Entrevista com fonoaudióloga sobre apraxia da fala e comunicação alternativa no autismo

Descrição de imagem: fonoaudióloga Marisa Maggiora, de óculos vermelhos e blusa preta, sorrindo para a câmera sem mostrar os dentes.

Recentemente entrevistei a fonoaudióloga Marisa Maggiora, que trabalha na Prefeitura de São Caetano do Sul e na Clínica Integrada Mais Saúde, em Santo André, SP. Ela nos contou um pouco mais sobre a apraxia da fala, que afeta muitas pessoas com autismo e pode impedir que elas venham a falar. Mas, afinal, o que é isso? Como saber se seu filho tem? Como é o tratamento fonoaudiológico com autistas? Para saber mais, leia a entrevista a seguir!

Alice: Poderia se apresentar, falar um pouco sobre a sua formação e como é o seu trabalho?

Marisa: Meu nome é Marisa Della Maggiora, sou fonoaudióloga há 21 anos, formada na Universidade São Camilo. Trabalho na área clínica há 17 anos na Prefeitura do Município de São Caetano do Sul e também na clínica Mais Saúde. Sempre atuei na área da linguagem oral e escrita. O método de trabalho que uso varia conforme a queixa e idade do paciente. Acredito que, na minha área, podemos usar vários métodos, desde que estes se encaixem no perfil e na patologia que a pessoa apresenta. Com crianças pequenas, gosto muito de trabalhar com o lúdico. A linguagem se constitui no símbolo no símbolo e, dessa forma, a criança consegue expressar com mais facilidade a sua subjetividade. Segundo Zorzi, os esquemas verbais ou primeiras palavras do indivíduo surgem juntamente com o seu esquema simbólico. A representação conceptual está ligada à aquisição da linguagem, ou seja, é através da brincadeira simbólica que ocorre a construção da linguagem. (ZORZI, J. A evolução do simbolismo na criança. In.: ______. Linguagem e desenvolvimento cognitivo. São Paulo: Pancast, 1994, p. 44-45).

Alice: Qual é a importância do tratamento fonoaudiológico para as pessoas com autismo?

Marisa: O autismo, também conhecido como Transtorno do Espectro Autista (TEA), é uma confição que causa problemas no desenvolvimento da linguagem e nos processos de comunicação, então a fonoaudiologia é de suma importância para auxiliar no desenvolvimento da linguagem, comunicação verbal e não-verbal.

Alice: Um adulto autista leve, não diagnosticado na infância, pode se beneficiar desse tratamento mesmo sendo verbal e já adulto?

Marisa: Pacientes nessas condições podem, sim, ser beneficiados porque, normalmente, já uma queixa que o incomoda trazida por ele ou por quem o acompanha (mãe, namorada, esposa, amigos). É importante avaliar a queixa e, a partir dela, traçar a terapia. A queixa também pode ser em relação à linguagem escrita, e a fonoaudiologia também pode auxiliar muito nesses casos.

Alice: Poderia falar sobre o autismo na visão de uma fonoaudióloga?

Marisa: Na minha visão, o importante é estabelecer a comunicação, seja ela verbal ou não-verbal, para que haja uma interação e aproximação social no meio em que a pessoa está inserida. A orientação familiar também é importante. Os pais também podem ser nossos co-terapeutas, auxiliando em todo o processo terapêutico. Quando os pais se envolvem nesses processos, as crianças podem apresentar uma evolução mais significativa.

Alice: Quais os sinais de alerta para uma criança autista precisar fazer o tratamento fonoaudiológico? Existem casos em que não é necessário?

Marisa: Quando uma criança começa a apresentar dificuldades na comunicação oral, é necessário realizar fonoterapia. É possível notar essa dificuldade logo nos meses iniciais, ou seja, nessa fase, criança presta muita atenção nos pais e familiares e tenta imitar (faz careta, bico, sorriso etc.), atende quando chamada, pronuncia palavras como “mama” e “papa”. Algumas crianças com TEA parecem desaprender tais habilidades e parecem mostrar uma “seriedade”, não reagindo mais quando chamadas, não sorrindo, não se interessando por alguns brinquedos, entre outros. Nos casos de autismo moderado e severo, o tratamento é necessário. Alguns casos de Asperger são tão sutis que não há necessidade de fonoterapia. Mas sempre é importante consultar um profissional da área.

Alice: O que é apraxia da fala? Por que algumas crianças com autismo também têm essa condição?

Marisa: A Associação Americana de Fonoaudiologia recomenda o termo Apraxia da Fala na Infância para “Distúrbio neurológico motor da fala na infância, resultante de um déficit na consistência e precisão dos movimentos necessários à fala, na ausência de déficits neuromusculares (por exemplo, reflexos normais, tônus alterados)”. Algumas crianças com Autismo também podem ser diagnosticadas com apraxia da fala na infância associada porque, além do déficit sócio cognitivo, também apresentam déficit no planejamento motor da fala. O diagnóstico de apraxia da fala na infância no Autismo não é tão simples porque algumas crianças também podem apresentar hipersensibilidade oral, falta de consciência proprioceptiva e questões sensoriais que podem também impactar o desenvolvimento da fala. A restrição alimentar também pode afetar a mastigação, os padrões sensitivos e proprioceptivos e, consequentemente, a fala. Em casos de autismo não-verbal, quando notamos que há evolução na compreensão verbal, facilidade no aprendizado de comunicação não-verbal (apontar, gestos, PECs), maior contato visual, mas a fala não acompanha a evolução, temos que pensar no déficit de planejamento motor. Todos os aspectos da comunicação, da fala e da linguagem devem ser avaliados nas crianças com Autismo, assim como com outras crianças que apresentam outros diagnósticos de fala e de linguagem.

Alice: Existem níveis de apraxia da fala? Qual a diferença entre eles?

Marisa: Existem sim, dos graus mais leves aos mais severos. Nos casos mais leves, as crianças conseguem falar, mas apresentam trocas de sons. Nos mais severos, a incapacidade de falar é maior.

Alice: Qual é a importância da comunicação alternativa? Poderia falar sobre os diferentes tipos e suas indicações?

Marisa: A comunicação aumentativa e alternativa (CAA) possibilida que a criança ou adulto expresse sentimentos, desejos, necessidades, conhecimento com os pais, familiares e pessoas do seu convívio. A comunicação aumentativa utiliza outro meio de comunicação para complementar ou compensar deficiências da fala sem substitui-la totalmente. A comunicação alternativa utiliza outro meio para se comunicar ao invés da fala quando a mesma é ausente ou não-funcional, substituindo-a. Há vários tipos de comunicação aumentativa e alternativa, e o uso também varia de acordo com cada caso. Não há pacientes iguais, então não há possibilidades de cópias de comunicação aumentativa e alternativa. Temos que respeitar as individualidades e condições. Pensando, então, em utilizar, desenvolver ou criar meios alternativos para comunicação, devemos optar por aquele que ofereça as condições desejáveis para o paciente, que pode englobar miniaturas, objetos concretos, fotos, figuras temáticas, pranchas temáticas, pastas e fichários, entre outros. O mais importante na decisão do uso da comunicação alternativa é a avaliação não só do fonoaudiológica, mas de uma equipe multidisciplinar.

Alice: O que normalmente você responde para os pais aflitos que se pergutnam se um dia seu filho irá falar?

Marisa: Receber o diagnóstico de uma patologia com implicações na comunicação não é fácil e é compreensível que os pais fiquem aflitos. Não foi fácil para mim também quando recebi o diagnóstico de surdez do meu filho, mas o que eu mais me importava era com a comunicação. Eu queria falar com ele, explicar, rir, brincar e vê-lo feliz. Então não medi esforços para me aproximar dele. Não, ele não fala muito oralmente, mas fala com as mãos (LIBRAS), e isso, para mim e para ele, já é o suficiente porque foi a trabés da LIBRAS que ele ganhou o mundo. Não desistam nunca de nada, mesmo que a caminhada seja longa.

Muito interessantes as respostas da sra. Marisa, não é mesmo? Pudemos aprender mais sobre o TEA do ponto de vista de uma profissional da fonoaudiologia, além de entender melhor sobre a apraxia da fala e sobre a comunicação aumentativa e alternativa.

Gostaria muito de reiterar que o termo “patologia”, que muito nos lembra doença, foi aqui usado no sentido de alteração funcional de ordem biológica, não de doença. Eu, pessoalmente, não gosto do termo para se referir a autismo (ou surdez), mas quero ser bem clara em afirmar que não houve má intenção por conta da entrevistada, que ajuda muitas pessoas com autismo com sua comunicação e em muito está nos enriquecendo ao conceder esta entrevista ao site. Fora que seu nome é o mesmo da minha psicóloga, por quem sinto grande carinho, então já gostei.

Espero que tenham gostado desta entrevista! Não esqueça de curtir a página do facebook A Menina Neurodiversa. Até a próxima e tchau tchau!

Entrevista com a neuropsicóloga Luciana Xavier sobre autismo e sua profissão

Descrição de imagem: Luciana Xavier sorrindo e olhando para a câmera

Recentemente tive o prazer de entrevistar uma excelente profissional da psicologia, extremamente competente e atenciosa. Eu já vinha querendo entrevistar um psicólogo há muito tempo aqui para o site. Finalmente tive essa oportunidade e estou muito feliz! A Luciana Xavier é neuropsicóloga e atua em Santo André, no estado de São Paulo. Ela tem uma clínica chamada Mais Saúde, onde atende seus pacientes, ministra cursos para pais e muito mais. Vamos conhecer um pouco mais?

Alice: Poderia falar um pouco sobre você, sua educação e o que você faz?

Luciana: Sou psicóloga há 23 anos. Me formei pela Universidade Metodista de São Paulo. Me especializei em neuropsicologia há 11 anos pelo IPAF, Instituto de Psicologia e Formação, em São Paulo. Trabalho na área clínica na Mais Saúde, onde também coordeno minha equipe. Equipe formada por por fono, neuropsicopedagoga, psiquiatra e outras psicólogas, assim como uma sexóloga. Recentemente me especializei em autismo e estou cursando uma pós em ABA, Análise do Comportamento Aplicada, o único método comprovadamente eficaz no tratamento de autismo e atrasos do desenvolvimento. Eu sempre atendi autistas, pois abracei a causa há muitos anos! Desde que tive contato com meu primeiro paciente, em que realizei o diagnóstico e e iniciei o tratamento, quando colhemos os primeiros resultados, quando realmente ele me permitiu entrar em seu mundo, compreendê-lo e ajudá-lo, eu logo me apaixonei e comecei a entender muitas crianças, adolescentes e adultos que me procuravam, desconfiados do diagnóstico e de nunca terem sito diagnosticados.

Alice: Como se interessou pela área da psicologia?

Luciana: Fui auxiliar de classe numa escolinha com 16 anos, meu primeiro emprego. E a sala que fui escalada para auxiliar tinha uma criança especial, F. Sexo masculino, de 4 anos, com Síndrome de Down. Ali descobri que queria entender seu funcionamento e ajudá-lo melhor! A diretora da escola foi quem me orientou a prestar psicologia e, assim, eu fiz no ano seguinte, prestei vestibular com 17 anos e entrei em psicologia. Daí nunca mais parei de estudar e procurar respostas, alívio, formas de intervenção, de devolver qualidade de vida às pessoas que apresentam dificuldades emocionais, neurocognitivas, doenças degenerativas e qualquer outro tipo de sofrimento psíquico.

Alice: Quais são as opções de carreira para alguém formado em psicologia?

Luciana: Muitas! Clínica, escola, hospital, empresa…pesquisas, assessoria, se especializar e atuar nas mais diversas áreas humanas e de saúde mental. Hoje, a área teve um bum! Quando me formei, muitas pessoas ainda não acreditavam na psicologia, desconheciam e até desdenhavam…foi difícil. Somente com muito estudo, mostrando resultados que consegui me colocar e ser vista. Hoje, com o bum, também percebo que, apesar de muitas áreas, todo o respeito dado ao psicólogo etc tem um ponto negativo: muita gente indo fazer psicologia sem inclinação para, sem amor à profissão, sem vocação, entende? Isso me entristece um pouco. Nas mais diversas áreas hoje, o psicólogo é importante e pode estar, mas em todas precisa amar, estudar sem parar e estar preparado, pois não é uma tarefa fácil. Cuidar da saúde sempre, psicoterapia, horas de lazer e descanso, pois a profissão exige muito da gente.

Alice: Como um psicólogo pode ajudar autistas e pais de autistas?

Luciana: Bem, para mim, existem duas formas, resumidamente, de auxiliar: compreendendo e facilitando a vida de ambos! Vivo montando programas de treinamento, de auxílio e tratamento que foquem justamente nisso, melhorar as relações e a inserção da pessoa no meio, seja social, profissional, familiar ou escolar. Promovendo integração, inclusão, vencer dificuldades e caminharem juntos na evolução e conquistas! Tenho a sorte de já ter visto muitos casos bem sucedidos aqui na minha carreira. Tem depoimentos no instagram, e serei eternamente grata, pois aprendi muito com meus autistas e seus pais. Para mim, é um mundo fascinante! Só aprendi! São tratamentos geralmente longos, ajudando-os nas mais diversas fases da vida, e não tem como não admirar a força deles e de suas famílias. Ajudo, principalmente, traçando as dificuldades do autista, estabelecendo prioridades e, assim, iniciamos o tratamento focado para cara um. Não existe receita de bolo. Cada um tem seu programa de intervenção e vamos atrás de colocar em prática usando aquilo que cada um gosta, que cada um vê sentido, se identifica etc.

Alice: Aqui no blog, sempre falamos de autismo a partir de uma visão interna, que é a de uma pessoa autista. Poderia nos mostrar a visão de uma psicóloga sobre o TEA?

Luciana: Posso dizer, por mim, os autistas têm sua maneira d ver o mundo, de buscar soluções, de relacionarem-se. São mais sensíveis, literais, concretos, muitas vezes inocentes, puros, devido a essa forma de raciocínio tido como mais concreto. Muitas vezes nos surpreendem e nos fazem refletir! Adoro entender a lógica de cada um. Tento experimentar todas as “aflições” com cada um e, assim, explico para seus pais ou amiguinhos da escola. Vivo me questionando sobre as estereotipias, sobre os típicos x atípicos e o quanto os típicos também têm descargas de ansiedade, manias, balançar as pernas etc. Gosto quando entendemos a função das estereotipias e, assim, vejo alívio no indivíduo, que entende que não é estranho, certo ou errado, apenas uma forma de se auto-regular. Aí aprendo, entende? E posso dividir isso com outros pais, outros terapeutas e vamos formando uma rede de apoio. Vejo que os autistas têm sentimentos puros, verdadeiros e intensos. Vejo que não entendem ou lidam com as maldades. Muitas vezes nem preveem que possam existir e, por isso, me encanto todos os dias e, por isso, estudo tanto e me aprofundo. Temos muito o que compreender, respeitar e aprender com os autistas e seu modo singular de ser!

Alice: Muito se fala em autismo em crianças, intervenção precoce etc. Mas, no caso dos adultos que perderam essa oportunidade, como é o tratamento? Como proceder?

Luciana: Tenho alguns adultos autistas e que não foram tratados, de grau leve. Manejamos através da psicoterapia, reforçando a aquisição das habilidades sociais, minimização das dificuldades, angústias etc. Pode precisar também de suporte medicamentoso. Por isso, tenho psiquiatra na equipe. E, assim, seguimos em tratamento em equipe conforme a necessidade, evolução do paciente. Os de graus mais severos são, geralmente, crianças do passado que não foram diagnosticadas, ou de diagnóstico errado que não se beneficiaram de tratamento, então não podemos dizer se a falta de tratamento contribui para a evolução para severo ou se já eram severos. De qualquer forma, tem sempre o que fazer e o que melhorar! Nunca, em hipótese alguma, aceite que não há o que se fazer e melhorar a qualidade de vida.

Alice: Pode nos contar um pouco sobre os seus projetos envolvendo o TEA?

Luciana: Faço palestras, grupos de coaching parental, apoio aos pais. Promovi encontros de autistas, como foi no Parque Azul, em São Paulo, e o livro que eu e a @blogdelara lançaremos em breve: sexualidade e TEA. Estou engajada nas comunidades autistas e com outros profissionais, sempre tentando informar, buscar novidades e trazer para a clínica.

Alice: Que dicas e informações poderia dar para os jovens que pretendem cursar psicologia?

Luciana: Estejam sempre prontos para tocar na alma humana do outro com cuidado, respeito e amor e nunca, nunca parem de estudar! Mergulhem dentro de si e vejam se há uma vocação real. Não se iludam somente com o lado positivo. Passo madrugada lendo, fazendo laudos, discutindo casos, respondendo directs de outros profissionais que até questionam todo meu positivismo quanto à causa do autismo, tratamento e possíveis evoluções. Não é nada fácio. Por isso, tem que realmente gostar e não ser levado por modismo.

Alice: Que dicas e informações poderia dar para profissionais que pretendem trabalhar com autistas?

Luciana: Se aperfeiçoem, vão para o chão brincar, estimular, avaliar a criança. Visitem a escola, acolham os pais! Se reúnam com profissionais já experientes! Enfim, bora estudar!! Livre-se de tudo o que julga saber e olhe para cada autista de um modo singular. Nenhuma intervenção será como outra, e sim alicerçada nas dificuldades, nos traços de personalidade, nas crenças e costume de cada autista! Nos gostos, preferências, ritmo de cada um. Somente quando estiverem verdadeiramente conectados e munidos de uma boa teoria sustentada por bases cientificamente comprovadas, você poderá ajudar este autista.

Essa foi a entrevista com a neuropsicóloga Luciana Xavier! Espero que tenha gostado e aprendido muitas coisas, assim como eu! Sigam a sra. Lu no intagram e no Facebook para acompanhar o trabalho dela! Instagram: @neuropsicolux. Facebook: Psicóloga Luciana. Não esqueça de curtir a página A Menina Neurodiversa no Facebook! Até a próxima e tchau tchau!

Entrevista com Natália Moneda, autista adulta e mãe de autista.

Descrição de imagem: rosto de Natália com uma das mãos na boca e efeitos roxos e azuis parecendo aquarela.

Dias atrás entrevistei uma moça que faz parte de alguns grupos sobre autismo dos quais também participo. Eu a pedi em amizade e ela aceitou, se tornando minha nova amiga! Uma fofa! A Natália tem 29 anos, é de São Paulo e tem um filho de 5 anos. Os dois são autistas. Quer saber mais sobre ela? Acompanhe!

Alice: Pode falar um pouco de você e da sua história?

Natália: Eu sempre fui diferente. Na escola, eu tirava boas notas mesmo não sendo estudiosa. Era muito original nas atividades, me vestia de um jeito diferente, mas também sofria bullying. E eu era uma adolescente rebelde e questionadora. Creio que, na adolescência, tive minhas crises mais fortes, e eram quase todos os dias. Meus pais me levavam em um hospital, onde eu tomava um soro, um calmante, e ficava bem por algumas horas. Fui crescendo e a sensação de não pertencimento sempre me acompanhou. E eu me sentia frustrada por nunca conseguir fazer parte de um todo. Por mais que eu me esforçasse, eu não conseguia criar laços com as pessoas. Arrumava brigas por ser muito sincera. Eu já tive depressão bem severa, que quase me ceifou a vida e, mesmo fazendo tratamento, as coisas continuavam a não fazer sentido. Até descobrir o autismo, por um acaso. E, desde então, eu passei a me aceitar e gostar de quem eu sou, entender minhas limitações e até mesmo superar algumas delas.

Alice: Com quantos anos você descobriu seu diagnóstico de autismo? O que mudou na sua vida?

Natália: Na verdade, quando meu filho tinha um ou dois anos (hoje ele tem cinco), eu desconfiei de que ele era autista. Eu tinha acho que 25 anos. Pesquisei bastante sobre e me identifiquei. Mas eu estava em uma fase muito complicada da minha vida. Estava deprimida e não quis nem cogitar essa hipótese. Ano passado voltei a pesquisas e ler sobre autismo em adultos, mas fui digerindo a informação aos poucos. Mas esse ano, com 29 anos, eu caí na real de que precisava me conhecer a fundo. Precisava entender o autismo e o que isso iria acarretar na minha vida. Procurei ajuda profissional e fui diagnosticada.

Alice: Como foi crescer sem saber que era autista?

Natália: Eu cresci achando que nem humana eu era (rs). Que eu era uma extraterrestre e havia sido deixada na Terra sei lá porque! HAHAHAHA. Eu não me sentia parte da sociedade, das pessoas, do sistema. Me sentia totalmente diferente e oposta ao que as pessoas são e esperavam de mim. Por vezes me odiei, pois não conseguia acompanhar os demais, mas, como fui criada como neurotípica, aprendi a me “disfarçar” um pouco.

Alice: As mulheres são 4 vezes menos diagnosticadas com autismo do que os homens. Por que acha que isso acontece?

Natália: Nós mulheres, desde muito cedo, somos levadas a ser receptivas e sociáveis. Somos ensinadas a ser cordiais e cuidadosas. Então nós, que somos autistas, também fomos ensinadas assim, e, com isso, fomos adquirindo habilidades de nos “camuflar” entre os neurotípicos. Então muitas das nossas características foram se perdendo ou “amenizando”. Fora que ainda hoje acredita-se que o autismo tem maior ocorrência entre o sexo masculino, o que dificulta o nosso diagnóstico.

Alice: Quais são as suas maiores dificuldades enquanto autista?

Natália: Eu creio que o TPS (Transtorno de Processamento Sensorial) é a minha maior dificuldade. Meus sentidos são todos muito aguçados e isso não é tão legal. Frequentemente tenho dor de ouvido, dores de cabeça muito intensas e incapacitantes, pois meu cérebro fica extremamente sobrecarregado. E também acho chato quando questionam meu autismo. Perguntam se eu tenho certeza, dizem que eu deveria procurar outros profissionais para me diagnosticar, que é impossível eu ser autista e blá blá blá. Isso me deita muiiiiiiito irritada.

Alice: Você tem um filho. Como o autismo afeta a forma como você lida com a maternidade?

Natália: O autismo só me ajuda a ser uma mãe melhor para o meu filho. Por eu ser autista e entender o que se passa com ele, eu tenho muita empatia. O que para muitas mães seria como um absurdo e motivo de perderem a calma, eu levo numa boa. Converso muito com meu filho, explico o porquê das coisas. Quando estou sobrecarregada, também explico a ele, e ele entende e me deixa quietinha (rs). Claro que tem momentos difíceis, momentos em que fico estressada, coisas que muitas vezes não entendo ou que é difícil para eu fazer, mas, em geral, o saldo positivo é bem maior.

Alice: Quais são os seus hiperfocos? Já teve problemas por causa deles?

Natália: Tenho um hiperfoco em desenhar, no Queen (em desenhar ouvindo Queen rs), no Freddie Mercury, em autismo. Recentemente eu fiquei bem enrolada com a matéria da faculdade porque eu não conseguia estudar. Só conseguia desenhar (rs) e, por mais que eu tentasse me concentrar, era muito complicado. Uma vez meu namorado reclamou que eu só falava de Queen e autismo (rs), e minha mãe às vezes diz que “tudo pra mim é Freddie Mercury” e que ela não aguenta mais ouvir falar dele HAHAHA.

Alice: Qual é a maior dificuldade de se conseguir um laudo de autismo sendo mulher e adulta?

Natália: A dificuldade é que, por eu ter sido criada como neurotípica e então “camuflar” minhas características, muitos médicos dissem que é impossível eu ser autista por conseguir falar, andar sozinha. Também acham que eu estou procurando coisas em mim, que eles são profissionais e eles quem têm que saber, não eu (olha que absurdo!). Não param para ouvir. Ouvir como foi sua infância, as dificuldades que enfrentou a vida toda, como se sente…e já vão logo enfiando um diagnóstico que eles acham que é o certo, sem se importar em pesquisar e entender a paciente a fundo.

Alice: Como a terapia pode ajudar o autista adulto?

Natália: A terapia é uma forma de se conhecer melhor, de entender suas limitações e aprender a lidar com elas, de entender toda a complexidade de ser quem você é, mas de um jeito positivo. A terapia (a boa terapia, né) vai ajudar a desenvolver confiança, auto-estima. E sendo confiantes, seremos muito mais corajosos para enfrentar o mundo. É fundamental para um autista adulto fazer terapia, na minha opinião. Mas desde que se sintam bem com o profissional, sejam amparados e tenham confiança naquela pessoa.

Essa foi a entrevista com a Natália, que abordou autismo adulto, feminino e na maternidade! Espero que tenha gostado dessa entrevista! A Nat tem uma página no Facebook chamada Papo de autista – Aspieteriana, que é tão legal quanto ela! 🙂 Não se esqueça de curtir a página A Menina Neurodiversa no Facebook e deixar seu comentário! Até a próxima e tchau tchau!

Fui entrevistada!

Descrição de imagem: rosto da Alice num fundo do Super Mário Brothers

Boa tarde, pessoal! Gostaria de anunciar que acabou de sair a primeira entrevista da minha vida na qual eu sou entrevistada! A querida Natália, da página Aspieteriana, me fez algumas perguntas sobre mim e minha experiência como autista. Clique aqui para ler! Não esqueça de curtir a página dela, que é muito legal!

Entrevista com Marcos Petry, do canal Diário de um autista

Descrição de imagem: Na frente de uma parede azul, Marcos Petry olha para a câmera com a coba aberta, como quem está falando. Ele usa óculos e uma camisa verde.

Olá, pessoal! Tive o prazer de entrevistar o Marcos Petry, do canal Diário de um autista. Ele tem um canal no YouTube, e seu vídeo mais famoso se chama Coisas que todo autista gostaria que você soubesse. (clique para acessar). Nesse vídeo, ele lista algumas coisas que gostaria que as pessoas soubessem sobre sua condição de autista. É um vídeo muito interessante, e sugiro fortemente que você assista! Fiz perguntas sobre ele e sobre sua condição de autismo, e ele respondeu de forma bem didática. Considero as informações divulgadas a seguir cruciais para a conscientização sobre o autismo. Muito se fala sobre isso, mas pouco se conhece de verdade. Não raro vemos jovens utilizando-se do termo “autista” como forma de inferiorizar uma pessoa. Dessa forma, hoje vamos conhecer um pouco mais sobre essa síndrome tão complexa a partir da visão do próprio autista. Acompanhe!

Alice: Marcos, pode se apresentar, falar um pouquinho de você?

Marcos: Sou Marcos Petry, tenho 26 anos de idade, sou escritor, palestrante e produtor de conteúdo. Sou portador de uma lesão cerebral e autista. Logo após o nascimento, tive complicações que acarretaram em desidratação profunda e o rompimento de uma membrana no coração, um sopro! Por conta disso, fiquei internado por muito tempo e, quando ganhei alta, parti para a estimulação precoce para o cérebro. Fiz anos de atividades que visavam ao desenvolvimento de novas trilhas neurais (alternativas àquelas que ficaram lesadas). Logo após esses treinos, meus pais perceberam que havia certas sequelas que não puderam ser corrigidas, como os movimentos repetitivos e pouca tolerância a sons, que eles logo atribuíram à lesão, mas entenderam logo que esse conjunto de manifestações se tratavam de nuances do autismo!

Alice: Com quantos anos você foi diagnosticado com autismo? Se foi antes de 2013, quando todos os subtipos foram englobados no TEA, com qual tipo de autismo você foi diagnosticado (infantil, clássico, Asperger etc)?

Marcos: Com sete anos de idade, uma pedagoga e amiga da minha família começou a notar as características do autismo e aconselhou-nos a procurar mais sobre a condição, então meus pais passaram a estudar e, sem encontrar explicações muito plausíveis ou de fácil acesso, eles decidiram continuar me ofertando oportunidades de vivenciar o máximo de situações possível: novos contextos, cheiros, texturas, ambientes…mais tarde, quando eu tinha 12 anos e acesso à internet, refiz o roteiro de pesquisa dos meus pais e descobri mais nuances do autismo, que, na época, dividia-se em Asperger e autismo. Fui percebendo que era aspie, mas, hoje em dia, gosto de considerar a classificação unificada do DSM V, pois creio que, desse jeito, fica mais fácil evidenciar dificuldades e conquistas dentro da ideia de Espectro Autista!

Alice: O que é a hipersensibilidade que os autistas têm? Pode falar um pouco sobre isso?

Marcos: Hipersensibilidade é o excesso de informações no ambiente de vivências. Pode ser caracterizado por um ou mais sentidos. No meu caso, sou hipersensível na parte visual e auditiva: tenho pouquíssima tolerância à luz e a sons. Para indivíduos hipersensíveis, os estímulos chegam a causar sintomas físicos, como dores ou até formigamentos. Há também os indivíduos hipossensíveis, ou seja, aqueles que precisam de muita informação ou sensações para engajar-se!

Alice: O que uma pessoa nunca deve dizer para alguém com autismo?

Marcos: Acredito que os ditos mais prejudiciais são aqueles que limitam a capacidade dos autistas, do tipo “autista não sente empatia”, ou ainda “autistas não gostam de outras pessoas por perto!”, pois nenhuma dessas afirmações é verdade! O que acontece é que o autista tem dificuldades para lidar com muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, o que causa a impressão de estar alheio a tudo, mas não deixe que essa aparente apatia desmotive!

Alice: Você fez algum tratamento durante a vida? Quais e como foi?

Marcos: Eu nunca fiz um tratamento com foco nas manifestações do autismo, mas atuei para diversificar o foco em algumas situações e para entender o mundo neurotípico da melhor forma que pude. Parte disso foi feita pelos esforços dos meus pais, não para fica igual aos neurotípicos, mas para, ao menos, tentar me conectar a eles.

Alice: Como você acha que o seu canal pode ajudar as pessoas a entenderem melhor sobre o autismo?

Marcos: Acho que, ao informar sobre o autismo e trazê-lo para o cotidiano, eu aproximo o autista das demais pessoas, e isso é um pequeno e importante passo na direção de incluir! Entendo também que o canal é uma troca de experiência entre autistas, suas famílias, seu professores e a comunidade onde eles vivem, e, ao trocar informação, as pessoas ficam conscientes do autismo, suas dificuldades e, é claro, as potencialidades também!

Alice: Pode falar um pouco sobre os movimentos repetitivos dos autistas?

Marcos: Os movimentos repetitivos do autista servem para conferir previsibilidade ao dia a dia e para a regulação do pensamento. O cérebro autístico é muito facilmente hiperexcitado com informações ao seu redor. Fazer os movimentos repetitivos proporciona ao autista uma possibilidade de filtrar em meio a tantos estímulos. Em meio aos movimentos, o autista discerne melhor entre aquilo que merece atenção e aquilo que não merece tanta atenção!

Alice: Quais são as coisas que mais de desorganizam mentalmente?

Marcos: O barulho repentino, sem aviso, me desorganiza bastante, assim como as luzes fortes! Algumas texturas também me desorganizam bastante, tais como as texturas de algumas frutas e alimentos. Entre eles, destaco a textura do abacate e do kiwi, além da textura de alguns calçados e camisas (principalmente aquelas que possuem botões).

Alice: Por que os autistas têm crises?

Marcos: Os autistas têm crises quando não conseguem filtrar tantos estímulos acontecendo ao mesmo tempo! Por conta de não conseguirem expressar o desconforto ou mesmo de sentirem-se afetados, é que muitos deles entram em crise. É uma forma tanto de chamar atenção para um problema que não conseguem resolver e também uma busca desesperada pela previsibilidade.

Alice: O que você acha importante dizer para pais de autistas que se sentem perdidos e sozinhos? Como eles podem se conectar melhor com seus filhos no espectro?

Marcos: Aos pais, eu diria que eles podem contar com bases de conhecimento, como o meu canal e outros tantos canais pró autismo para entender um pouco melhor o espectro. Diria também que o autista consegue grandes feitos desde que os familiares acreditem nesse potencial! Deem muitas oportunidades para que seus filhos se desenvolvam através de vivências diárias e cotidianas. Mediem isso com carinho e ofertem um pouco a cada dia, sempre avisando aos autistas qual será o desafio, a lição a aprender! Tenham, acima de tudo, muito amor pelos seus filhos.

Muito didáticas as respostas do Marcos, não é? Espero que tenha ajudado você, que convive com algum autista e quer conhecê-lo melhor e saber como ajudá-lo. O intuito deste site é justamente esse! Procuro tanto criar um espaço seguro para pessoas autistas quanto levar mais informações sobre autismo para as pessoas. Tanto para as que precisam dessas informações quanto para aquelas que querem se informar.

Deixe nos comentários sugestões de matérias ou de perguntas que querem que eu responda ou faça para outros autistas. Quem você quer me ver entrevistar? Que informações você quer acessar? O que mais quer saber sobre autismo? Estou às ordens! Não esqueça de seguir a página A Menina Neurodiversa no Facebook. O canal do Marcos Petry você acessa clicando aqui. Então é isso! Tchau tchau!

Entrevista com o autista e youtuber IndieAndy

Descrição de imagem: Andy de perfil e em um fundo azul olha para a câmera sem sorrir e usa um moletom preto e azul, com a palavra “spectrum” colorida no meio.

Olá, pessoal! Dessa vez, conversei com o youtuber IndieAndy, que está dentro do espectro do autismo e produz conteúdo focado em seu diagnóstico. Andy mora no Reino Unido com sua noiva e tem grande gosto pelo que faz. Fiz 10 perguntas para ele. Acompanhe!

Alice: Oi, Andy! Você pode falar um pouco sobre o seu diagnóstico? Quando, como e que tipo (de autismo) foi?

Andy: Eu fui diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista em 1996 depois que meus pais perceberam que eu não estava atingindo os marcos de desenvolvimento quando eu tinha 2-3 anos de idade. A partir disso, fui levado para o meu médico e então indicado para um especialista, que me diagnosticou. Eu não lembro como aconteceu por causa da minha idade, mas parece que (o diagnóstico) não foi marcado por excitação ou drama, o que é bom porque eu não tenho tempo para isso. (Andy esqueceu de responder com que tipo de autismo ele foi diagnosticado, mas foi com Transtorno Invasivo do Desenvolvimento – Sem Outra Especificação)

Alice: Quando você descobriu sobre o seu diagnóstico?

Andy: Eu descobri sobre o meu diagnóstico quando eu tinha 10-11 anos, depois que comecei a perceber que eu era diferente dos meus colegas. Eu notei isso sobretudo pelos olhares estranhos dos meus colegas e as conversas com as pessoas simplesmente não iam do jeito que eu queria que fossem. E também o sentimento de ser bem alienígena, eu acho. Com esses sentimentos em mente, eu falei com minha mãe sobre como eu estava me sentindo e ela revelou meu diagnóstico. A princípio e por vários anos, eu não conseguia me aceitar. Eu conseguia aceitar o fato de que eu era diferente, mas é meio difícil colocar na minha cabeça por que eu tinha que ser (diferente). Mas foi na idade adulta que eu realmente comecei a perceber que as minhas diferenças me tornam a pessoa que eu sou. O autismo não me define, mas é algo que eu estimo.

Alice: O que a palavra “autismo” significa para você?

Andy: Autismo, pessoalmente, significa que eu tenho uma forma diferente de ver, sentir as coisas, e apenas diferente de forma geral. Mas essas diferenças estão à parte da minha pessoa e isso é algo que eu gosto em mim. Por anos, eu tentei me encaixar e, honestamente, isso me fez extremamente infeliz. Foi quando eu encontrei a comunidade autista que eu percebi que eu não deveria tentar me encaixar. Eu deveria ser capaz de me posicionar e apenas ser eu mesmo. Ter essa forma de pensar ajudou no meu bem-estar e meus pensamentos sobre meu autismo como um todo.

Alice: O que você mais gosta sobre ser autista? Pode me contar sobre suas características preferidas?

Andy: Minha parte preferida de ser autista é a minha curiosidade pelas coisas, situações, pessoas e a vida em geral. Eu tendo a fazer um monte de perguntas sobre diferentes coisas. Isso é sobretudo para eu entender o que eu estou vendo ou o que está acontecendo. Mas isso me ajudou muito a crescer na minha carreira, no Youtube e também na minha vida pessoal porque eu fico obcecado e faço perguntas. Outras características preferidas incluem o modo como eu me comunico, minha criatividade e honestidade.

Alice: Qual a parte mais difícil de ser autista? Pode me contar sobre suas características menos preferidas?

Andy: Eu diria que uma parte difícil são as situações sociais. Agora eu gosto de algumas ocasiões sociais em que eu consigo interagir e seguir adiante. Mas quando é um evento ou situação social em que eu não conheço muitas das pessoas que vão ou ao qual eu nunca fui ou não sei o que esperar, isso me faz sentir bem ansioso e eu me sinto isolado. Até quando estou com alguém pode ter esse isolamento, então eu fico sem saber o que fazer ou como me livrar daquela situação ou dos pensamentos. Mesmo gostando de ver os pontos positivos do meu autismo, há momentos em que eu tenho dificuldades e é uma realidade que eu vivo diariamente, assim como outras pessoas autistas também fazem. Diria que outras das minhas características menos favoritas incluem minha natureza obsessiva, que pode levar ao vício. Quando eu fico aficionado por alguma coisa, fica difícil mudar de atividade ou não ser obsessivo.

Alice: O que as pessoas nunca devem dizer para uma pessoa autista?

Andy: Tem uma lista de exemplos nos quais consigo pensar, mas você pode encontrar essa lista no meu canal, pois falo sobre isso lá. Por exemplo, só para essa pergunta, é que “autistas dizem que são autistas porque não querem trabalhar”. Eu recebi esse comentário em um dos meus vídeos recentemente. Isso é bem raro de acontecer nessa comunidade, mas é algo de que vale a pena falar para esta entrevista. Só porque eu não “pareço autista” ou não “soo autista” não significa que eu não seja autista. E também a ideia de que eu quero conseguir benefícios pelo meu autismo porque eu não quero trabalhar não faz nenhum sentido e não é factual. Eu trabalho em período integral em um escritório, e as pessoas autistas querem sim trabalhar. O problema é que há barreiras para conseguir emprego para pessoas autistas, como entrevistas etc. Menos de 20% dos autistas do Reino Unido têm um emprego de período integral, o que é um número alarmante. Sinceramente, não assuma coisas sobre pessoas autistas baseando-se no que você pode ver porque tem sempre muito mais em alguém do que apenas o que está na sua frente.

Alice: Quais são as diferenças entre ser uma criança autista e um adulto autista?

Andy: Eu não diria que tinha uma diferença, já que as crianças crescem e viram adultos, e nós continuamos autistas. Só estou dizendo que, só para esclarecer, ninguém cresce e deixa de ser autista. Eu diria que a diferença entre os dois são realmente as experiências que você tem e como você lida com as coisas, e eu sinto, honestamente, que a percepção das outras pessoas muda. Se você olha para uma criança autista, se ela estiver tendo dificuldade com alguma coisa, você faz o seu melhor para ajudá-la. Mas se os papeis se invertem e for um adulto, os outros podem dar olhares ou fazer comentários maldosos. Esse é um dos principais motivos pelos quais eu continuo fazendo conteúdo sobre autismo. Eu quero que as pessoas vejam que existem adultos autistas por aí que podem ter seus próprios desafios. Não apenas promover a conscientização, mas também começar o curso da aceitação para todos os indivíduos autistas independentemente de idade etc.

Alice: Você tem uma noiva. Pode me contar sobre como é ter um relacionamento amoroso estando no espectro? De que forma é diferente dos outros relacionamentos?

Andy: Ter a minha noiva é realmente maravilhoso. Ela me faz feliz e é bom ter alguém que é sua melhor amiga e alma gêmea, de verdade. Pode ser difícil com problemas de comunicação e situações que surgem podem ser desafiadoras para o nosso relacionamento. Mas eu a amo muito e mal posso esperar para pôr um anel no dedo dela. Eu acho que a principal diferença é que o nível de intimidade entre mim e minha noiva é muito mais pessoal do que em qualquer outro relacionamento que eu tenho. (Andy não entendeu que eu quis dizer diferente dos relacionamentos de outras pessoas sem autismo, mas tá bom)

Alice: Por que e como você começou um canal no YouTube?

Andy: Eu comecei o IndieAndy em 2016 para mim mesmo. Eu queria me desafiar a fazer algo diferente. Parecia bem divertido, então esse foi um outro fator que me levou a criar o canal do YouTube. Eu estava meio que em uma situação difícil na época, pois estava desempregado havia vários meses e procurava constantemente por trabalho. Então, para mim, o IndieAndy se tornou uma saída criativa. Eu não comecei a falar sobre o meu autismo até Novembro de 2016, e isso foi lentamente se tornando o principal assunto pelo qual eu fiquei conhecido. Fico feliz por isso porque comecei o canal para me ajudar. Agora, eu posso tentar ajudar outras pessoas compartilhando minhas experiências. Não tem nada mais recompensador do que isso.

Alice: Pode dar algum conselho para pais de crianças autistas?

Andy: Eu mesmo não sou um pai, então é meio difícil dar conselhos significativos sobre o lado da parentalidade. Eu diria que a única coisa que posso dizer é para continuar seguindo em frente. Vai haver dias em que é difícil e pode ser desafiador. Quando criança, eu era um pouco descontrolado. Mas apenas lembre-se que as coisas ficam melhores com o tempo necessário, persistência e tendo o apoio adequado.

Essa foi a entrevista com o querido IndieAndy! Deixe nos comentários a sua dúvida ou sua parte favorita da entrevista! Não se esqueça de seguir a página no facebook: A Menina Neurodiversa, curtir, comentar e compartilhar com seus amigos! Vamos levar mais informação sobre o autismo para as pessoas e fazê-las se sentirem menos sozinhas. Esse é o meu objetivo com este site 🙂 Obs.: traduzir tudo isso do inglês foi difícil para um caramba, então seja solidário com a coleguinha e divulgue o meu trabalho! 😉

Link do canal do Andy:
https://www.youtube.com/channel/UCR-fiMOz0Ot2x3bwA-_mS0A