“Preciso aprender isso tudo?” – Autismo e Habilidades Sociais

Descrição de imagem: foto com fundo de um livro bem grosso. Na frente, está escrito na parte de baixo “preciso aprender isso tudo?, autismo e habilidades sociais” em uma barra colorida. Em cima da barra, três personagens em desenho. Da esquerda para a direita, um rapaz amarelo de cabelo preto e curto com a mão na cabeça pensando em remédios para dor, uma moça branca de cabelos castanhos segurando a cabeça com as duas mãos frustrada com uma linha embolada de confusão e uma moça marrom de cabelos castanhos ondulados com as mãos para cima de confusão e três interrogações em cima da cabeça. Na imagem, espalhados cinco símbolos do infinito coloridos, em tamanhos diferentes e girados em ângulos diferentes. Por fim, no topo da imagem, à esquerda e pequeno, a logo da página A Menina Neurodiversa.

Feliz aniversário, site A Menina Neurodiversa!

Antes de começar a redigir sobre o assunto anunciado no título desta matéria, gostaria de dizer que hoje, dia 06 de abril de 2021, fazem exatamente DOIS anos desde que criei esta página, que foi por onde tudo começou. Na época, eu estava passando pelo processo de finalmente aceitar meu diagnóstico como ele é, de tentar deixar para trás aquela ideia de que havia algo bastante errado comigo, mas que talvez tivesse conserto. Como foi bom aprender que, para início de conversa, eu jamais estive quebrada. Para mim, desde que consegui entender minhas diferenças em relação às outras crianças, como não ter habilidades que elas tinham ou zero tolerância para coisas que elas faziam tranquilamente, precisava da mãe para muitas atividades de independência mesmo enquanto crianças até mais novas do que eu já as faziam sozinhas. Isso desde o ensino básico. Eu era muito observadora, mas, mesmo assim, não conseguia imitar os outros, pois nada daquilo era inato em mim. Tive atraso de linguagem, tinha muitas manias, rituais e peculiaridades, mudanças de humor difíceis de compreender (tanto para mim quanto para quem precisava lidar comigo) e muitas outras coisas. Naquele momento dos anos 2000, isso não foi chamado de autismo, mas sim de “o jeito dela”. Não vou entrar em mais detalhes sobre isso, pois não é disso que o texto se encarregar hoje. Gostaria apenas de dedicar este primeiro parágrafo para fazer uma silenciosa comemoração do dia em que finalmente ganhei uma voz, uma forma para me expressar. Desse modo, feliz aniversário, A Menina Neurodiversa! Sua existência definitivamente dividiu a minha vida em um antes e um depois.

“Preciso aprender isso tudo?” – Autismo e Habilidades Sociais

Algo muito bem estabelecido para o diagnóstico de Transtorno de Espectro Autista atualmente são seus dois principais critérios diagnósticos: dificuldades na comunicação social e padrões de comportamentos restritos e repetitivos. Essas são as duas grandes áreas que tornam uma pessoa autista neurologicamente discrepante de pessoas não autistas, e que tornam o autismo uma condição diagnosticável. Com isso em mente, percebemos que essa condição está muito atrelada a um conjunto que diz respeito a questões de saúde, seja com terapias, médicos ou o que for, mas sabemos que não é apenas isso. Para muito além disso, em um outro conjunto, autismo é uma deficiência que faz de nós pessoas autistas, nascidas com uma configuração neurológica diferente, que é o se entende por autismo.

Saber que uma pessoa é autista é de extrema importância para entender suas atitudes e, principalmente, sua natureza. É algo tão importante, que sua descoberta, ainda que tardia, pode mudar a vida de milhões de pessoas pelo mundo para melhor e na medida do possível. Apesar disso, mesmo entendendo melhor sobre nós mesmos ou nossos amigos, parentes etc, um fato não deixa de desaparecer: a percepção de que a sociedade e a natureza autista entram em confronto. As regras sociais de cada cultura é aprendida naturalmente por grande parte das pessoas, assim como as formas de existência e funcionamento que são vistas como padrão. Autistas, assim como pessoas com deficiência no geral, ao se apresentarem como são, geram desconforto aos outros, a sensação de que tem algo a ser consertado nessas pessoas tão destoantes. Essa percepção, se não confrontada e posta em evidência (que é o que pessoas consideradas ativistas tentam fazer, sempre tento como objetivo uma mudança real e concreta no mundo), gera diversos problemas e obstáculos para a plena participação da pessoa com deficiência na sociedade.

Quanto ao autismo, para o qual vamos direcionar nosso foco neste espaço, sabemos da importância de diversas intervenções pensadas para nos ajudar, seja com questões sensoriais que nos deixam em crise, com as dificuldades para nos expressar ou a tremenda rigidez mental que tornam nossas emoções tão difíceis de controlar. Ao mesmo tempo, existe o grande perigo de muitos, senão a maioria, dos profissionais que nos atendem ficarem presos ao primeiro conjunto, do autismo como uma mera questão de saúde, e nunca buscarem o mais importante, que é a do autismo como uma deficiência provocada por uma configuração neurológica em oposição a uma sociedade em que essa configuração não é o padrão, mas que deve ser respeitada a partir do entendimento de que a nossa natureza é e sempre será autista. Por isso, ainda é muito comum o pensamento de que terapia, quando se trata de autistas, deve ter como objetivo principal nos fazer “indistinguíveis de nossos pares”.

Existe uma terapia que promove o treino de habilidades sociais. Ela pode ser benéfica se usada da forma correta, a partir do segundo conjunto. Não deve ser usada como ferramenta para nos ensinar a maneira padrão de funcionamento como o certo, mas sim para que, quando acharmos necessário (inclusive por motivos de segurança) e realmente quisermos usá-la, ela estar disponível, seja decorada mentalmente ou textualmente. Seria uma forma de nos mostrar: “os não autistas fazem isso e esperam dos outros aquilo. Não é estranho? Pois é, mas eles fazem isso” e não “o seu jeito está errado e esse é o motivo de todas as suas dificuldades, portanto vou lhe ensinar como fazer o certo e se encaixar”. Na verdade, ser autista não é o motivo de todas as nossas dificuldades, mas sim a sociedade excludente, que nos vê como menos, como coitadinhos ou incapazes. A proporção da parcela de pessoas que esperam que nós façamos todo o esforço sozinhos, adaptando a nós mesmos, em relação a de pessoas que entendem que a sociedade deve ser diversa, plural, acessível e inclusiva, estendendo a responsabilidade para o coletivo e não a deixando apenas conosco, ainda é extremamente maior. Isso não é justo, não é? Como disse um querido amigo autista, o Lucas, que fiz através do ativismo, os autistas e os não autistas devem se encontrar no meio da ponte, ao invés de nós termos que atravessá-la sozinhos para chegar ao outro lado. Não queremos terapias para nos normalizar; queremos terapias que nos deem recursos para uma melhor independência, autoestima e autonomia, além dos recursos para que consigamos alcançar nossos próprios objetivos, e não os dos outros.

Por fim, isso me leva ao próprio título do texto: “preciso aprender isso tudo?” (em relação às regras sociais neurotípicas). A resposta é “não, eu não preciso. Eu tenho o direito de escolher se quero ou não adquirir alguma habilidade neurotípica, pois, em muitas ocasiões, entendo que o problema é a falta de compreensão e aceitação dos outros sobre mim”. Acho que essa é a melhor maneira de conduzir as intervenções voltadas para nós, a que respeita nossas diferenças e não quer nos mudar, mas sim nos ajudar a nos entender e aceitar melhor como somos, para que possamos perceber nosso próprio potencial e usá-lo da melhor forma possível. Já somos bombardeados com informações todos os dias, que deixam nossos cérebros hiperestimuláveis muito sobrecarregados. Isso já causa dor o suficiente. Imagine também termos que estar na rua (ou fora da zona de conforto num geral), com todos aqueles estímulos, gastando toda nossa energia para lidar como podemos com as pessoas e objetos ao redor, e tendo ainda que evocar toda a enciclopédia de regras do comportamento social neurotípico. Se tivermos aprendido que esse é o jeito correto, o único jeito possível, estaremos sendo impedidos de utilizar nossos próprios recursos naturais para lidar com a situação (como exemplo: fazer stims, sair do local etc), e isso pode ser uma receita para o completo desastre. Um exemplo interessante é, ao invés de considerar não olhar nos olhos como falta de atenção, interesse ou até como forma de nos ver como suspeitos, considerar entender que olhar para o rosto das pessoas nos traz estímulos extras e desnecessários que podem potencializar nossa dificuldade de processar o que estão nos dizendo, ou seja, se quiser que eu te ouça, deverá me permitir tirar o foco do sentido da visão ou nada feito. E isso não é escolha minha, mas sim o meu funcionamento, programado geneticamente mesmo antes de eu nascer. Essa seria uma forma de nos encontrarmos no meio da ponte neste caso.

9 comentários sobre ““Preciso aprender isso tudo?” – Autismo e Habilidades Sociais

  1. Lais 6 de abril de 2021 / 23:40

    Alice, minha filha tem 3 anos e estou no início do diagnóstico. E amei seu texto. O que descreveu, foi exatamente o que sinto com relação a busca de ajuda que procuro pra minha filha.
    Eu desejo que ela seja ela, na sua essência e a sua descrição de: encontrar no meio da ponte – fez todo sentido pra mim. Obrigada por compartilhar e parabéns por seu conteúdo.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Siael Alves 7 de abril de 2021 / 00:03

    Excelente texto. Eu tenho um repertório mais do que suficiente de habilidades sociais, mas parei de usar tudo há 1 ano atrás, ao descobrir o autismo. Hoje, eu uso só o necessário, mas apenas com desconhecidos. O que fez a diferença pra mim foi a aceitação dentro de casa. Eu sempre falo que isso é muito importante. Depois de 26 anos achando que era normal ter essa dificuldade para entender e desenvolver habilidades sociais, traz grande alívio saber que há outras pessoas com as mesmas dificuldades que eu.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Marisa 7 de abril de 2021 / 09:08

    Parabéns pelos 2 anos da Menina Neurodiversa e pelo excelente texto.
    Mais uma vez, expondo posições e ideias importantes de forma clara e precisa.

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  4. shirley asperger 17 de abril de 2021 / 12:27

    seu relato e da sua psicóloga no programa escial me encorajam em querer de novo fazer faculdade eu queria letras também

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