Autista na família: o que os pais e parentes precisam entender?

Descrição de imagem: Uma moça de trança longa e cabelo cacheado confusa e com as duas mãos abertas para cima ao fundo. Ao lado esquerdo da cabeça dela, três pontos de interrogação. Do lado direito, está escrito “autismo?”. Na parte de baixo na imagem, Está escrito “autista na família?? O que que devo fazer? Como posso ajudar? com um símbolo do infinito colorido de cada lado. No canto superior esquerdo a logo da página A Menina Neurodiversa.

Olá! Hoje pretendo falar sobre coisas importantes que as famílias de autistas PRECISAM saber não apenas pelo bem da pessoa autista, mas também para evitar suas próprias frustrações com tantas expectativas não atendidas oriundas de uma grande falta de conhecimento a respeito do autismo. Como sou expert apenas no MEU autismo e também conhecedora dos critérios diagnósticos, as informações serão fortemente baseadas nas minhas experiências (diagnóstico tardio), com o acréscimo de informações gerais já conhecidas sobre o diagnóstico pelos não leigos. Espero que apreciem, que ajude de alguma forma, especialmente as pessoas que eu tanto amo e que convivem comigo. Utilizarei o formato de tópicos.

#1 POR QUE MINHA (INSERIR NÍVEL DE PARENTESCO) AUTISTA NÃO INTERAGE TANTO COMIGO?

Bem, para quem não faz ideia do que seja autismo, incluindo as características que fazem com que uma pessoa seja diagnosticada com tal condição, aqui vai um dos PRINCIPAIS critérios diagnósticos: DIFICULDADE NA COMUNICAÇÃO SOCIAL. O que é isso? Bem, é algo que vai muito além de não falar nada. A comunicação social representa a utilização da linguagem (verbal ou não verbal) com propósito de/êxito na comunicação. Autistas possuem dificuldade (alguns mais, outros menos) em INICIAR e MANTER uma conversa fluida, com assuntos variados e da forma como o interlocutor espera. Caso você possua um parente autista, isso é essencial de se saber, pois é muito injusto receber julgamento por puro desconhecimento alheio. Para interagir comigo, muito provavelmente você terá que iniciar essa interação, com grandes chances de respostas curtas e sem perguntas em retorno. Como lidar com isso? Pergunte sobre coisas que eu gosto, meus interesses, que logo estarei lhe mostrando minha coleção de quadrinhos, ou vídeo atrás de vídeo sobre meus interesses restritos (outra característica do autismo é ter interesses intensos e restritos a poucos assuntos, causando dificuldade de acompanhar conversas sobre outras coisas por conta de um baixo repertório de assuntos). É assim que consigo interagir na vida real. Se você tivesse essa mesma dificuldade, também passaria a maior parte do seu tempo isolado em seu quarto. Com um pouco de empatia, talvez possa se imaginar nesse cenário.

Se você acha ruim que essa falta de busca por interação e se frustra, procure ler algo sobre autismo para entender que funcionamos assim e relaxe, pois não é nada pessoal. Nesses casos, inicie você a interação. É muito frustrante para mim ter que ouvir reclamações por causa disso mesmo após tendo um laudo médico que diz, basicamente, “ALICE É AUTISTA”. Às vezes, sinto que posso jogar esse laudo no lixo e fingir que nunca existiu, pois nem assim consigo o nível de compreensão e adaptação que gostaria e que me ajudaria a conseguir alcançar mais e mais objetivos. Aliás, eu me saio muito melhor com mensagens de texto. Essa é outra alternativa para conversar comigo e ainda receber mais interação do que receberia na vida real. Por favor, não diga coisas como “essa parente põe uma barreira que impede os outros de interagirem” ou “ela afasta as pessoas/é antipática”, pois isso não é real e, como já disse, julgamentos errados machucam, até porque eu NÃO escolhi ser assim. Eu NASCI assim. Cabe a mim aprender a me aceitar e perceber o meu funcionamento, e a família, a compreender e respeitar. Não é porque me retiro do local com outras pessoas que eu simplesmente não me importo. Isso acontece porque interação social contínua me esgota imensamente, e eu preciso me afastar para recarregar as energias, ficar mais calma, evitar ao máximo uma crise de ansiedade e as dores da sobrecarga sensorial. Até porque as pessoas falam alto e ao mesmo tempo, uma tenta falar mais alto que a outra, eu não entendo nada dos assuntos ou não consigo mais entender o que ninguém fala porque tudo vira um grande ruído maçante, não lido bem com grupos de pessoas.

As outras pessoas costumam ter um repertório maior de assuntos para conversar, principalmente sobre tendências atuais, quem traiu quem, que celebridade se divorciou, a sexualidade alheia, novelas, reality shows e muitas outras coisas. Isso tudo é muito difícil de suportar, pois não só me sinto perdida (e até burra), como não tenho meios de interagir nesse momento. Acabo ficando alheia, extremamente entediada, frustrada, então saio de perto e deixo as pessoas conversarem, pois a minha realidade de assuntos e interesses não converge com a delas, incluindo familiares. O que eu vou fazer no meu quarto sozinha? Basicamente fico me balançando na cadeira (isso é um movimento que acalma), posso pôr meus abafadores de ruído, posso tentar, metaforicamente falando, sair dessa realidade através do meu “mundinho”, que, no momento, se resume a ver vídeos, principalmente de Star Wars, autismo, Suécia e jogos ou tentar encontrar alguma outra pessoa autista na internet para desabafar, trocar experiências, basicamente interagir com alguém que me entende melhor.

Você pode dizer: “se esforce”, “vá lá e aprenda/faça”, mas não funciona assim e parece que não importa quantas vezes eu escreva sobre isso, pois continuo recebendo demandas, expectativas nas minhas costas que, no momento, não tenho como atingir e reclamações sobre algo COMPLETAMENTE fora do meu controle. Inclusive eu poderia ter menos dificuldade com isso hoje em dia se tivesse recebido ajuda especializada na infância. Isso fez (e ainda está fazendo) muita falta, e considero um dos maiores motivos pelos quais meu nível de dependência ainda é médio/alto em comparação a vários colegas da mesma idade ou até mais jovens. Isso me frustra muito e, ao invés de ajudar, me atrapalha, pois minha autoestima diminui mais ainda enquanto a ansiedade sobe. Detesto ser comparada, principalmente com pessoas que não são autistas. Também acho difícil falar ao telefone, então utilize mensagens de texto e leve em conta que tendo a ser muito literal.

#2 POR QUE MINHA (…) AUTISTA NÃO FAZ ISSO E AQUILO JÁ QUE AUTISMO É BASICAMENTE A MESMA COISA QUE TIMIDEZ FORTE?

Bem, esse é um pensamento muito leigo a respeito do autismo. Isso acaba causando comparações e cobranças injustas e sentimento de culpa, afinal, fulano e ciclano já faziam X coisas na minha idade ou até bem antes. Bem, por mais que essas pessoas tenham tido suas dificuldades, eram dificuldades diferentes das minhas. Realidades diferentes, dificuldades diferentes, certo? Oralmente a minha comunicação não é das melhores, então muito provavelmente não vão entender de verdade o que seriam as minhas dificuldades. Eu costumo acabar chorando de frustração por não conseguir explicar direito. Com a escrita, mesmo demorando horas para escrever uma matéria robusta como esta, tenho infinitamente mais facilidade de me fazer entendida, basta apenas que leiam com carinho e a mente aberta ao aprendizado.

Autismo e timidez (assim como introversão), são coisas COMPLETAMENTE diferentes. Timidez é um traço de personalidade da pessoa, que a torna mais reservada, entre outras coisas. “Timidez” que causa PREJUÍZOS reais na vida de uma pessoa NÃO é timidez, já é algo patológico que precisa de ajuda especializada. Timidez é algo normal, e muitas pessoas no mundo são tímidas, assim como a introversão. Uma pessoa introvertida perde energia com interações sociais (mesmo gostando de interagir) e precisa de um tempo só depois. Ao contrário, uma pessoa extrovertida se sente mais energizada e disposta quando está com outras pessoas. Mas e o autismo? Bem, se quer saber sobre autismo, prepare-se para ler a definição do DSM 5 (Manual Estatístico e Diagnóstico de Transtornos Mentais, da Associação Americana de Psiquiatria) a respeito dessa condição, que não é simplesmente timidez ou introversão, mas sim um TRANSTORNO DO NEURODESENVOLVIMENTO.

CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS PARA O TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA:

A. Déficits persistentes na comunicação social e na interação social em múltiplos contextos, conforme manifestado pelo que segue, atualmente ou por história prévia (os exemplos são apenas ilustrativos, e não exaustivos; ver o texto):

  1. Déficits na reciprocidade socioemocional, variando, por exemplo, de abordagem social anormal e dificuldade para estabelecer uma conversa normal a compartilhamento reduzido de interesses, emoções ou afeto, a dificuldade para iniciar ou responder a interações sociais.
  2. Déficits nos comportamentos comunicativos não verbais usados para interação social, variando, por exemplo, de comunicação verbal e não verbal pouco integrada a anormalidade no contato visual e linguagem corporal ou déficits na compreensão e uso gestos, a ausência total de expressões faciais e comunicação não verbal.
  3. Déficits para desenvolver, manter e compreender relacionamentos, variando, por exemplo, de dificuldade em ajustar o comportamento para se adequar a contextos sociais diversos a dificuldade em compartilhar brincadeiras imaginativas ou em fazer amigos, a ausência de interesse por pares.

B. Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades, conforme manifestado por pelo menos dois dos seguintes, atualmente ou por história prévia (os exemplos são apenas ilustrativos, e não exaustivos; ver o texto):

  1. Movimentos motores, uso de objetos ou fala estereotipados ou repetitivos (p. ex., estereotipias motoras simples, alinhar brinquedos ou girar objetos, ecolalia, frases idiossincráticas).
  2. Insistência nas mesmas coisas, adesão inflexível a rotinas ou padrões ritualizados de comportamento verbal ou não verbal (p. ex., sofrimento extremo em relação a pequenas mudanças, dificuldades com transições, padrões rígidos de pensamento, rituais de saudação, necessidade de fazer o mesmo caminho ou ingerir os mesmos alimentos diariamente).
  3. Interesses fixos e altamente restritos que são anormais em intensidade ou foco (p. ex., forte apego a ou preocupação com objetos incomuns, interesses excessivamente circunscritos ou perseverativos).
  4. Hiper ou hiporreatividade a estímulos sensoriais ou interesse incomum por aspectos sensoriais do ambiente (p. ex., indiferença aparente a dor/temperatura, reação contrária a sons ou texturas específicas, cheirar ou tocar objetos de forma excessiva, fascinação visual por luzes ou movimento).

C. Os sintomas devem estar presentes precocemente no período do desenvolvimento (mas podem não se tornar plenamente manifestos até que as demandas sociais excedam as capacidades limitadas ou podem ser mascarados por estratégias aprendidas mais tarde na vida).
D. Os sintomas causam prejuízo clinicamente significativo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo no presente.
E. Essas perturbações não são mais bem explicadas por deficiência intelectual (transtorno do desenvolvimento intelectual) ou por atraso global do desenvolvimento. Deficiência intelectual ou transtorno do espectro autista costumam ser comórbidos; para fazer o diagnóstico da comorbidade de transtorno do espectro autista e deficiência intelectual, a comunicação social deve estar abaixo do esperado para o nível geral do desenvolvimento.

NÍVEIS DE SUPORTE DE PESSOAS COM TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA, SEGUNDO O DSM 5:

Nível 3: “Exigindo apoio muito substancial” – Déficits graves nas habilidades de comunicação social verbal e não verbal causam prejuízos graves de funcionamento, grande limitação em dar início a interações sociais e resposta mínima a aberturas sociais que partem de outros. Por exemplo, uma pessoa com fala inteligível de poucas palavras que raramente inicia as interações e, quando o faz, tem abordagens incomuns apenas para satisfazer a necessidades e reage somente a abordagens sociais muito diretas. Inflexibilidade de comportamento, extrema dificuldade em lidar com a mudança ou outros comportamentos restritos/repetitivos interferem acentuadamente no funcionamento em todas as esferas. Grande sofrimento/dificuldade para mudar o foco ou as ações. Nível 2: “Exigindo apoio substancial” – Déficits graves nas habilidades de comunicação social verbal e não verbal; prejuízos sociais aparentes mesmo na presença de apoio; limitação em dar início a interações sociais e resposta reduzida ou anormal a aberturas sociais que partem de outros. Por exemplo, uma pessoa que fala frases simples, cuja interação se limita a interesses especiais reduzidos e que apresenta comunicação não verbal acentuadamente estranha. Inflexibilidade do comportamento, dificuldade de lidar com a mudança ou outros comportamentos restritos/repetitivos aparecem com frequência suficiente para serem óbvios ao observador casual e interferem no funcionamento em uma variedade de contextos. Sofrimento e/ou dificuldade de mudar o foco ou as ações.
Nível 1: “Exigindo apoio” – Na ausência de apoio, déficits na comunicação social causam prejuízos notáveis. Dificuldade para iniciar interações sociais e exemplos claros de respostas atípicas ou sem sucesso a aberturas sociais dos outros. Pode parecer apresentar interesse reduzido por interações sociais. Por exemplo, uma pessoa que consegue falar frases completas e envolver-se na comunicação, embora apresente falhas na conversação com os outros e cujas tentativas de fazer amizades são estranhas e comumente malsucedidas. Inflexibilidade de comportamento causa interferência significativa no funcionamento em um ou mais contextos. Dificuldade em trocar de atividade. Problemas para organização e planejamento são obstáculos à independência.

Pois é, autismo é uma condição do neurodesenvolvimento, não um jeito de ser. É uma deficiência que exige apoio para atingir mais independência. Não é só ir lá e fazer algo, pois, se não tiver aprendido essa habilidade, não vai vir do nada (exceto em casos de pessoas com menor necessidade de suporte e capacidade de ser autodidata, o que claramente não é meu caso). Esse tal de apoio que consta na parte anterior do texto é justamente o que se deve receber desde a infância, mas que eu estou começando a receber agora, aos 22 anos. Faço Terapia Ocupacional tanto para conseguir lidar com os estímulos e sentidos (tais como barulhos, cheiros, toques, luzes, cores fortes, perceber meu corpo no espaço, equilíbrio, ter melhor coordenação motora etc), que seria a parte de Integração Sensorial, quanto para desenvolver habilidades do dia a dia, de independência. Faço terapia com fonoaudióloga para melhorar minha comunicação e algumas alterações na fala. Faço psicoterapia para lidar com minha parte emocional. Vou ao psiquiatra para ajudar com o transtorno de ansiedade e a depressão. Tenho apoio psicopedagógico (com uma pessoa muito acolhedora e excelente profissional) para lidar com as disfunções executivas, ansiedade e dificuldades relacionadas ao estudo. Estou fazendo uma avaliação neuropsicológica porque meu diagnóstico do SUS está incompleto (não especificou minhas áreas de dificuldade e nem de habilidade), não foi feito com testes ou escalas (então NÃO sei meu nível de suporte ou “grau de autismo”, como muitos dizem. Pelo que percebo, me encaixo em muitas coisas do nível 1 e em muitas do nível 2), desatualizado (CID 10) e não houve qualquer investigação mais profunda para ver se há outros diagnósticos associados além dos óbvios à vista, nem informações sobre o que fazer depois de receber o papel (terapias, adaptações etc).

O que eu quero dizer é: eu conheço os meus limites mais do que qualquer pessoa e estou fazendo o possível para tentar recuperar todos esses anos perdidos, o atraso acumulado. Essas ajudas que estou recebendo de fora não é para ficar só lá. É para ser praticado em casa também, começando pelo mais fácil até chegar ao mais difícil. Por isso, os pais precisam saber o que está sendo trabalhado nas terapias, acompanhar esse processo, manter contato com os terapeutas e participar, perguntar como dar continuidade em casa. É algo que exige o apoio da família. Quando eu digo que não estou conseguindo me organizar para fazer algo, que não consigo entender quando eu preciso ajudar em casa sem que me digam o que fazer e como fazer (de forma bem explicada, pois um dia desses mãe pediu para tirar a roupa da corda, então desci e tirei a roupa da corda. No final das contas, ela quis dizer que era para tirar tudo da corda, mas eu entendi o que ela pediu literalmente e sem generalizar), que preciso de um apoio visual para não atrapalhar mais do que ajudar, é porque eu realmente preciso e acho que pode ajudar, então preciso do envolvimento da família para que a gente consiga cooperar e não frustrar um ao outro. Quando digo que não consigo limpar algo, como um prato com restos de pudim, não é porque não quero ajudar. Na verdade eu sempre fico feliz em ajudar. O problema é que não deixei de ter dificuldades sensoriais do dia para a noite, e alguns alimentos me causam enorme repulsa, inclusive para olhar, sentir o cheiro e até tocar. Pode me fazer até vomitar ou ficar enjoada. Viver com um cérebro hiperestimulado 24 horas por dia não é nada fácil. É doloroso, literalmente. Quero dizer, fisicamente mesmo. Tenho que processar muitas coisas ao mesmo tempo ao invés de uma por uma e isso se torna maçante, doloroso e mais demorado. Por isso, eu tenho um tempo diferente, posso precisar de uma pausa, ajuda ou até não conseguir fazer algo (até o momento).

São MUITAS coisas que diferenciam uma pessoa autista de uma pessoa apenas tímida. Os autistas possuem algo que profissionais chamam de “atrasos no desenvolvimento”, o que significa desenvolver habilidades em um ritmo mais lento do que crianças típicas. Isso não é sinônimo de ter um problema ou ser inferior às outras, apenas denota que a pessoa com esses “atrasos” (baseados em parâmetros de pessoas típicas), precisa de uma ajuda extra para desenvolver certas habilidades importantes para que no futuro tenham maiores chances de ter mais independência. Fui um bebê risonho e vocal, mas não olhava para minha mãe quando ela me amamentava. Nessa idade tão pequena é difícil perceber sinais. Consigo ver, graças a filmagens antigas, que a partir de um ano de idade fui ficando mais séria, não tinha atenção compartilhada (que é o ato de triangulação que crianças típicas adquirem cedo, olhando para algo que acham interessante, depois para seu cuidador para ver o que ele está achando, e voltar a olhar para aquele algo), ficava mais olhando para o objeto sozinha mesmo.

Com dois anos, os stims (ou estereotipias) já eram bem notáveis, mesmo já se manifestando muito antes (mas, como disse, em bebês é algo muito sutil). Minhas atividades preferidas eram correr de um lado para o outro fazendo som, correr em círculos, derrubar os CDs da minha mãe um por um várias vezes (desculpa, mamãe! <3), entre outras coisas sensorialmente estimulantes. Eu já podia falar, mas, pelo que observei nos vídeos aos quais tive acesso, falava bem pouco em relação a outras criancinhas de 2 anos, tinha pouca expressão facial, vocabulário e habilidade de comunicação não estavam “lá” ainda e muitas coisas que eu dizia era repetindo o que haviam me dito. Isso se chama atraso da fala e de comunicação. Outra coisa interessante é que ainda não havia atenção compartilhada. Em uma cena, minha madrinha me segurava e eu apontava para um balão na mesa da minha festinha de aniversário na hora de tirar foto e ficava repetindo “olha a bola, olha a bola” sem olhar para ela ou mudar o tom de voz nenhuma vez. Eu acho que o que eu queria era dizer “eu quero a bola”, mas comuniquei como podia. Nessa mesma festinha, também houve uma parte em que eu queria ajudar a cortar o bolo, mas me tiraram do banco. Ao invés de dizer o que eu queria, eu simplesmente chorei. Nota-se também minha rejeição a beijos e abraços, que também pude notar nos vídeos de 1 ano de idade. Eu ficava meio rígida no colo, tentando não encostar na pessoa. Em um momento do meu aniversário de 2 anos para tirar foto (coisa que eu detestava), mamãe me segurava no colo e me deu um beijo, chegou pertinho rosto no rosto. A minha reação foi me afastar e tentar proteger meu rosto. Assistindo mais velha, fiquei um pouco triste pensando que minha mãe poderia achar que eu não gostava do carinho dela. A verdade é que era só a minha dificuldade com toques, incluindo beijos. Toques leves e beijos são sensações que demoram a ir embora, mesmo que já tenha passado minutos. Por isso eu preciso “limpar” ou passar a mão na minha pele de forma mais forte na parte que foi encostada de leve, para que a sensação passe logo. Nunca é algo pessoal, pelo menos se tratando da minha família. Eu os amo muito e receber carinho é sempre um momento especial para mim, mas quando eu estou sobrecarregada eu posso não conseguir. É por isso que parece que eu sou carinhosa “só quando eu quero”. Não é isso. Eu sou carinhosa sempre que sinto que consigo suportar os estímulos envolvidos nesse momento, a interação. Quando eu chego por conta própria para fazer isso, é porque sei que, naquele momento, consigo. Eu lembro da sensação de estar no colo de alguém em pé ou sentado; era desconfortável, fazia minha roupa me incomodar mais ainda. O que eu gostava mesmo era de ser carregada com o tal “estilo de noiva”. Com três eu já falava mais um pouco, inclusive sabia dizer, no colo de outra pessoa “eu quero o papai” (isso nunca mudou. Eu sempre quero o “papai”), mas ainda ignorava várias vezes quando era chamada. Foi no vídeo de 4 anos que eu notei que estava muito mais fluida na fala e na interação (apesar de ainda haver dificuldades). Eu pude dizer a uma amiga, por exemplo “olha o que eu sei fazer”. Foi nessa época que voltei a ser mais sorridente.

Dessa forma, não, meu desenvolvimento não foi típico como de uma criança qualquer. Dizer isso é esquecer todos os sinais percebidos. Se tivesse sido, eu não teria aprendido a relatar febre à minha mãe apenas aos 18 anos, ou a amarrar os cadarços com uns 14, abotoar a blusa também tarde, assim como me vestir, tomar banho e ir ao banheiro sozinha. Se tivesse sido, eu possivelmente já estaria indo sozinha comprar minhas próprias roupas, pegando ônibus e metrô para qualquer lugar da cidade sem preocupação de me perder ou de não reconhecer alguém mal intencionado (ou ficar muito nervosa com os estímulos), com uma agenda com dias marcados para sair com amigos, pedindo para ir a shows, festas ou viagens ao invés de um brinquedinho sensorial para minha coleção ou mais um quadrinho de Star Wars, não precisaria de comandos para fazer coisas na casa, saberia isso intuitivamente, não pareceria grosseira quando, para mim, estou falando normalmente e com respeito, poderia vestir tipos variados de roupas, saberia fazer diferentes penteados em mim mesma, iria ao banco sozinha, suportaria estar em um supermercado ou até no mercadinho aqui perto, não teria crises, saberia o que dizer e a hora de dizer, não ficaria ansiosa e perdida o resto do dia porque veio visita aqui e eu não fui avisada antes e estaria sendo a filha que foi desejada, que cumpre todas as expectativas. Eu me sinto culpada de não ser isso! Corro atrás de terapias, dou aula particular para um aluno mesmo sendo difícil para nós dois, ambos autistas, peço para minha psicopedagoga para me ajudar com materiais para me ajudar a fazer as coisas em casa rotineiramente. E eu escrevo porque eu quero que me entendam melhor, que consigamos nos adaptar como família, não fazer cobranças além do que estou conseguindo agora, pois sim, queria ser a filha que só dá orgulho e não deixa a família com medo do que vai ser de mim quando partirem. Eu tenho medo disso também, mas não adianta só temer, tem que começar o preparo, e isso exige a família toda. A minha parte eu já estou fazendo e espero cada vez mais conseguir mostrar que não é coitadismo, não é timidez, não é porque eu não quero ouvir. Eu apenas sinto uma grande falta de mais entendimento sobre autismo (ele não aparece, vai embora, tira férias, depois volta. É a vida toda), sobre mim, sobre o fato de eu amar a minha família não importa as diferenças, de que ninguém sabe tudo ou é dono da verdade, que procurar ajuda para os problemas faz bem a todos do convívio. Eu só quero genuinamente que aprendam sobre autismo, não só uma coisa ou outra, não lembrar em um momento e no outro esquecer, como se o autismo tivesse tirado férias. Sempre tento sentir orgulho de ser como eu sou, mas nem sempre é fácil, principalmente quando não entendem nada sobre isso. Já estou há quase cinco horas escrevendo isso. Espero mesmo que ajude. Eu gosto das minhas manias, das minhas coisas sempre no mesmo lugar, dos movimentos “estranhos” que eu faço e da minha risada que pode parecer “do nada e sem motivo”, segundo quem vê de fora mas eu gostaria de me sentir segura fazendo isso fora do meu quarto, da minha casa), de ser uma pessoa doce, de bom caráter, respeitosa e carinhosa. Eu tenho várias qualidades, mas ainda sou autista e preciso de mais ajuda. As terapias não são para me “consertar”. Não estou quebrada ou com defeito, apesar de ter crescido acreditando nisso, eu apenas preciso dessa ajuda extra por ser autista. Nunca vou deixar de ser, mas sou capaz de aprender muitas coisas.

Eu já escrevi tanto que vai ficar só com 2 tópicos mesmo. Caso esse texto enorme consiga ajudar alguém ou alguma família, já ficarei bem feliz.

Por fim, não sou exemplo de superação para ninguém. Sou apenas uma pessoa que é obrigada a lidar com barreiras da sociedade, o que não deveria acontecer.

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