Autismo em tempos de quarentena: a solidão de sempre

Descrição de imagem: imagem em preto e branco. Homem, de costas e do lado de dentro, onde tudo está escuro, olha para fora, onde está claro, por uma janela.

Atualmente, o mundo se encontra em quarentena, uma medida de proteção contra o contágio de uma ameaça viral que pode sobrecarregar o sistema de saúde dada sua grande capacidade contaminatória: o coronavírus. Fomos afetados das mais diversas formas possíveis. Uns não podem trabalhar ou estudar, outros precisam sair diariamente e correr o risco de se contaminar; uns estão trabalhando de casa, outros perderam o emprego. Foi decretado estado de pandemia. Precisamos nos isolar em casa e ficar longe de quem amamos por um bem maior e coletivo. Para uns, isso representa uma completa mudança de rotina. Para outros, o isolamento social é mais um dia como outro qualquer.

Muitos autistas se encontram no segundo grupo, aquele no qual o isolamento sempre foi rotineiro. Não apenas os autistas, mas suas famílias também. É claro que, para quem possuía uma rotina de estudos e terapia semanal, ter que ficar em casa pode ser uma grande mudança. Muitos responsáveis estão se virando para estimular suas crianças como podem em casa, e muitos autistas que trabalhavam ou estudavam estão sentindo a alteração em sua rotina. Apesar disso, não é disso que estou falando. Estou falando do convívio social para além das obrigações diárias, para além das terapias. A solidão é uma parte muito presente da vida de grande parte dos autistas e suas famílias.

Não sou familiar de alguém autista, mas sim autista. Por isso, vou relatar apenas a minha experiência, e deixar relatos de experiências que não vivencio para aqueles que podem falar com propriedade sobre isso.

Conheço autistas que prezam muito pelo tempo que passam sozinhos e não costumam sentir falta de estar com outros. Considero isso algo chamado solitude e gosto de diferenciá-la do que chamo de solidão. O primeiro caso seria algo voluntário, ou seja, a escolha de estar sozinho. Realmente, aprecio os momentos em que quero ficar sozinha fazendo as minhas coisas. Isso ocorre muito quando passo horas fora de casa, como nos dias de aula. Nada como descansar dessa interação social demasiada passando um bom tempo comigo mesma. O problema é quando sinto a solidão, que independe de mim e do que eu quero.

Antes da quarentena, eu passei pouco mais de uma semana indo à faculdade. Também cheguei a ir um dia ao meu novo emprego de estagiária. Tinha acabado de voltar de férias. Quando descobri que precisaria ficar em casa, de quarentena, já sabia que viveria as minhas férias tudo de novo. Tirando uma viagem especial que fiz no final do ano passado para visitar uma pessoa amada, o resto das minhas férias foram exatamente como a quarentena está sendo agora para mim: solitária. A ansiedade de querer ser produtiva sem conseguir, as horas excessivas na cama para não precisar enfrentar o dia, o desejo não realizado de ter uma companhia e de conseguir se ocupar com uma atividade prazerosa…tudo isso continua o mesmo. Às vezes, sinto que eu já vivia em quarentena. Ou quase isso. Se, por um lado, o período da faculdade é tão estressante, por outro, estar de férias dela pode ser tão desagradável quanto estar sobrecarregada com trabalhos, provas, viagens longas de ônibus e matérias chatas.

Minhas maiores distrações têm sido basicamente assistir a vídeos de jogos que nunca vou ter e dormir. Felizmente, tenho um namorado que pode jogar comigo aos sábados à noite e, às vezes, aos domingos. Tenho feito esforços para conhecer novas pessoas pela internet para ter alguém para jogar comigo ou conversar sobre assuntos em comum. Mas para quê? Eu não consigo conversar com estranhos mesmo, eu não sinto mais tanto prazer nas coisas quanto já senti um dia sabe-se lá quando. Só consigo sentir alguma motivação para fazer alguma coisa quando tem alguém para fazer comigo, e isso é muito raro. Os últimos dias foram um tanto quanto abençoados e discrepantes dos anteriores, pois consegui arrumar uma companhia para jogar. Fora isso, raramente estou fazendo alguma coisa divertida.

O que tornava minhas férias suportáveis eram minhas idas semanais à terapia e também minhas consultas periódicas com minha psiquiatra. Fiquei sem a psiquiatra ainda nas férias e sem a psicóloga por causa da quarentena. Agora estou sem as duas. Consegui um atendimento psicológico online temporário e gratuito para o período da quarentena, mas me pergunto se foi uma boa escolha. Tive dois atendimentos até agora e posso dizer que foram muito bons, mas eu queria mesmo mudar de profissional depois de quase dois anos com a mesma, com aquela que já sabe tanto sobre mim? Começar do zero é sempre tão doloroso, e eu sinto tanta, tanta falta do contato com a terapia presencial ou, mesmo que à distância, com a mesma pessoa de antes. Está tudo diferente e, ao mesmo tempo, tudo igual. Isso dói bastante. Não tenho mais quem antes estava disponível para me ajudar. É como se o lado ruim das férias estivesse presente na quarentena, e o lado bom tivesse todo ido embora. As raríssimas saídas de casa para ir ao cinema agora são impossíveis, minha formatura provavelmente não acontecerá mais esse ano, perdi meu emprego, me sinto rejeitada, triste, sozinha e imprestável…e isso não é nada. Já são mais de 100.000 mortes em todo o mundo. Quem será o próximo?

Fique em casa.

7 comentários sobre “Autismo em tempos de quarentena: a solidão de sempre

  1. Juju Marques 24 de abril de 2020 / 18:12

    Olá Alice, queria te agradecer, eu sou Neurodiversa mas não sou autista.

    Nos últimos anos da minha vida eu ganhei um número considerável de amigos autistas e, isso me levou a ficar um pouco mais obcecada por autismo do que quando eu dava aula.

    Eu sou uma jovem periférica, do Rio de Janeiro, é por isso que eu queria te agradecer, por você considerar que as situações dentro desse país são diferentes, são diferentes pessoas, lugares e situações financeiras, por considerar o SUS e toda a desigualdade social que nos cerca.

    Eu passei a seguir as páginas de autistas adultos para tentar ajudar um dos meus amigos, eu só descobri que ele era autista uns meses depois de ter começado a conviver com ele, eu sou conhecida por ser insistente quando o assunto são meus amigos, e isso é bem irritante, mas foi o que me motivou a de certa forma querer o ajudar e mesmo quando ele me afastava eu insistentemente quis ficar do lado dele.

    Seus textos me motivam a o entender, mesmo ele sendo muito diferente de você, ele não tem mais mãe, a família não o apoia, ele não tem laudo de autismo só o de bipolar, ele tem alguns problemas financeiros, enfim são situações diferentes, são pessoas diferentes, mas seus textos me lembram bastante a ele.

    Não, eu definitivamente não sou uma boa amiga, tenho problemas de humor e irritação e para mim é complicado me manter estável diante a uma situação que me irrite, eu sou irritante e insistente e isso cansa as pessoas, e uma observação eu amo abraçar pessoas que eu amo, e isso torna as coisas complicadas.

    Beijos repletos de gratidão, você significa muito.

    Curtido por 2 pessoas

  2. Laís Helena 14 de maio de 2020 / 01:23

    Eu sou autista (descobri recentemente, aos 25 anos de idade). E acredito que um dos motivos pelos quais não estou ansiosa é pelo fato de minha rotina não ter se alterado muito com a pandemia. Venho trabalhando em home office desde novembro, o que funciona muito bem para mim, e minha faculdade já era em EaD. Moro com minha mãe, mas ela não foi liberada para trabalhar em casa, então a rotina familiar também ficou a mesma. A única mudança foi a terapia: passou a ser online, mas com a mesma pessoa.
    A única coisa que me saltou aos olhos em meio à pandemia é o quanto é desgastante para mim ter que sair de casa (tive que sair algumas vezes durante a quarentena para ir ao mercado e ao veterinário). Ter que lidar com o trânsito, a sobrecarga de estímulos e o próprio ato de socializar são coisas que drenam minha energia. Quando chego em casa, mesmo sendo cedo, não tenho concentração para mais nada.
    Me chamou a atenção o que você falou sobre a solitude. Pelo menos para mim os momentos de introspecção não só são agradáveis como também necessários. E, acredito, são necessários para todos, em maior ou menor grau, independentemente de neuroatipias. Às vezes fico me perguntando se o excesso de barulho e estímulos do dia de hoje não vem em parte da necessidade que as pessoas têm de fugir de si mesmas, por não estarem numa boa relação consigo.
    Em certos aspectos, a pandemia destacou muitas coisas para mim.
    Abraço!

    Curtido por 1 pessoa

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