Não sei o que aconteceu.

Algumas pessoas entram na nossa vida e se tornam uma parte importante dela. Podem mudar completamente nosso entendimento sobre nós mesmos, podem trazer luz a uma vida que parecia ser completa escuridão. Quando isso acontece, só resta agradecer. Agradecer porque não nos sentimos mais uma mera existência, mas sim energia, vida, potência. Quando nos deparamos com algo assim, a constatação é automática: “estou diante de alguém especial”.

E, toda semana, aquela inquietação se instala. Que o dia chegue logo, que chegue logo. Que eu seja iluminada pela luz calorosa do acolhimento, da escuta e da empatia. Que eu me sinta segura logo, que eu me sinta eu de novo. Que eu ganhe mais um aperto de mão no início e mais um abraço no fim. Que eu, a cada segundo, me sinta mais à vontade para questionar e relatar, para sentir com olhos que, mesmo sem fitar, se emocionam. Um forte laço de confiança e carinho se fortalece a cada um desses momentos. Os singelos rabiscos exprimem: “me sinto bem por estar diante de ti. Obrigada por tudo”.

Mas, agora, não sei o que aconteceu. O perigo está lá fora, e estamos, cada um, em seu aqui dentro. Não posso mais receber a calorosa luz que me faz dar o próximo passo todos os dias, a saber evitar a sombra durante a minha eterna caminhada, ou, ao menos, resistir a ela quando o Sol vai embora. O meu aqui dentro é solitário, confuso e conturbado. Uma medida emergencial se torna a exceção necessária. Se não posso estar diante de ti, preciso estar diante de alguém. Mesmo que não seja aquela mesma luz, aquele mesmo acolhimento. Mesmo que não possa ser, no momento, em especial companhia. Mesmo que vá durar apenas enquanto o meu aqui dentro for meu único aqui. O que eu queria mesmo é que nada disso fosse real.

Não sei o que aconteceu. Tudo estava bem. O meu aqui não me separava de ti, pois a nossa troca me iluminava tão fortemente que não se limitava ao espaço. O acolhimento era tão forte assim. Era. Era? Não sei o que aconteceu. Tudo pareceu mudar de repente. Só consigo sentir falta de quando estava aqui para mim, de quando a luz era visível e me aquecia de tal forma que eu pensava: “estou diante de alguém especial”. Eu não queria estar diante de nenhuma outra luz que não a sua. Nenhuma outra seria capaz de me iluminar tão fortemente. Agora está escuro. Não enxergo nada. Queria te enxergar, queria que me enxergasse. Por favor, não me deixe. Não sei o que aconteceu, mas queria que nunca tivesse acontecido.

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