Entrevista com Tiago Abreu, do podcast Introvertendo.

Descrição de imagem: Com um fundo desfocado de cidade, Tiago Abreu com uma blusa preta escrito “Radiohead” e óculos olha para a câmera.

O podcast Introvertendo, que fala sobre autismo, tem como um de seus participantes e criadores o jornalista Tiago Abreu. Algo que o diferencia fortemente dos outros conteúdos som a mesma temática é a questão do protagonismo autista. Todos os integrantes do Introvertendo são autistas e, por isso, seu conteúdo é produzido a partir da visão de quem verdadeiramente sente e vive o autismo diariamente. Com isso em mente, convidei o Tiago Abreu para uma entrevista não apenas sobre seu trabalho com o podcast, mas também sobre suas experiências enquanto autista. Acompanhe as 10 perguntas que fiz a ele e suas respectivas respostas.

Alice: Conte um pouco sobre você e da sua trajetória até o seu diagnóstico.

Tiago: Minha história é bastante parecida em relação aos autistas diagnosticados na vida adulta. Tive vários sinais na infância. Demorei para falar, não respondia com facilidade aos estímulos que minha mãe apresentava, e ela pensou que eu poderia ser surdo porque temos parentes surdos. Por sugestão médica entrei na escola com 2 anos e, neste sentido, meu desenvolvimento foi muito bom. Aprendi a falar, aprendi a ler, mas frequentemente tinha problemas de relacionamento com meus colegas. No recreio, saía de perto de todo mundo e ficava batendo papo com pessoas mais velhas, como a coordenadora da escola ou o pessoal da limpeza. Sempre era essa contradição, o que fez com que eu fosse julgado pelas pessoas como alguém que não queria socializar e não alguém com dificuldade para interagir com as pessoas da mesma idade. E, claro, foram anos de bullying na escola, nos ambientes religiosos, nos diferentes espaços sociais.

Em 2013, uma psicóloga de RH, num ambiente que nada tinha a ver com a profissão, julgou o meu abraço afirmando que “gente que abraça assim é porque quer soltar logo”. Eu voltei para casa muito confuso e constrangido, lembro bem. Acho que autistas sabem a sensação de quando você não se encaixa no mundo e não há nada que você faça para mudar isso. Eu sentia aquilo em diferentes períodos da vida, mas não tinha um nome para aquilo. E eu aproveitei aquela noite para ler sobre depressão. Encurtando o processo, acabei depois de meses em um grupo sobre Síndrome de Asperger no Facebook. Eu nem sabia direito o que era autismo e só em pensar na hipótese de autismo considerava absurdo, mas as queixas e relatos faziam muito sentido. Eu não odiava e desprezava pessoas como os outros diziam. Foi então que procurei uma psicóloga, ela pensou bem a hipótese e escreveu um relatório completo. Com o relatório, procurei um neurologista e ele fez todo o processo com a ajuda de uma equipe e alguns exames. Março de 2015, tinha acabado de entrar na universidade e estava com laudo de autismo.

Costumo dizer que 2014, quando trabalhava a hipótese, foi o ano divisor de águas na minha vida. Foi quando eu passei a aceitar minhas diferenças e comecei a construir algumas amizades saudáveis que me ajudaram e ainda me ajudam muito. Só o fato de você saber que você tem certas características te ajuda imensamente a se reconhecer e ser alguém melhor, é essa a função de um diagnóstico. De lá para cá, tenho vivido os melhores anos da minha vida.

Alice: Como surgiu a ideia de criar o Introvertendo? Foi algo que te ajudou a se conectar mais com outros autistas e a melhorar a socialização?

Tiago: Ah, é uma história extremamente longa.

Antes do diagnóstico do autismo, eu era um fã intenso de podcasts. Gostava muito de podcasts sobre música, meu principal hiperfoco, e sonhava ter o meu, isso ainda em 2013. Mas meus amigos não queriam fazer comigo. Eles achavam que ninguém se interessava em podcast e deveríamos fazer um canal no YouTube. Eu detestava a exposição de imagem e pensava no podcast como ferramenta exatamente para evitar isso. Entrei na Universidade Federal de Goiás (UFG) com um diagnóstico em mãos e a primeira coisa que eu quis foi procurar outros autistas na UFG. Eu só conhecia pessoas pela internet. O Núcleo de Acessibilidade tinha o contato por e-mail de duas, que era o Marcos da Física Médica e um estudante do mestrado em Sociologia chamado Renato Moreira, que até entrevistei no Introvertendo uma vez. Houve greve na universidade, minha terapia foi encerrada abruptamente por um pedido de demissão da psicóloga, fiquei bastante desassistido e quase larguei o curso de Jornalismo no primeiro semestre. Meus amigos insistiram pra eu continuar e só abandonar quando soubesse minha nota no Enem seguinte. Fiz isso. Acabei mudando de ideia, gostei do curso, e fiquei.

Em 2016, eu já tinha desistido da ideia de procurar terapia, o processo era muito burocrático. Até entendia o porquê muitos autistas na universidade não procuravam os espaços de assistência estudantil. Aí, num dia, recebi uma mensagem no WhatsApp de uma psicóloga chamada Tatiana. Ela conseguiu meu número a partir do Núcleo de Acessibilidade, atendia um aluno da Medicina com Asperger e afirmou que ele não conhecia ninguém com o mesmo diagnóstico. Dias depois, estávamos juntos no consultório. Era o Otavio. E conhecer o Otavio foi sensacional, porque ele tem um jeito intenso, um senso de humor desconcertante, mas um interesse genuíno quando se envolve em algo. Estava criado ali o grupo Asperger. Coincidentemente, tempos depois, chegou um aluno pedindo ajuda, chamado Michael, diagnosticado em 2012. Tempos depois, eu estava andando no prédio da Física e vi o Marcos arrumando a mochila. Eu nunca tinha conversado pessoalmente com ele, apenas o visto andando pelo campus, e sabia que era o cara dos e-mails. Tomei coragem, puxei conversa, disse que tinha um grupo para aspies e perguntei se ele topava ir comigo de ônibus. E daí nós quatro nos encontramos e vimos que, quando conversávamos juntos, era um tipo de conversa que eu não tinha em lugar nenhum, era muito divertida e pouco comum. Lembro desse período com muito carinho, porque valia muito a pena passar todo aquele calor goianiense nas tardes de quinta pra conversar com pessoas parecidas comigo.

Fora da universidade, num grupo de fãs de um podcast, eu conheci o Luca Nolasco. Ele era aluno do ensino médio, morava em Goiânia, e a gente se encontrou. E foi uma conversa bem engraçada, porque éramos bastante parecidos. Tínhamos um hiperfoco em música e, pouco tempo depois, ele foi diagnosticado com autismo também. Levei ele ao restante do pessoal no final de 2017. Eu já tinha falado que queria um podcast sobre música, mas na altura do campeonato já dava para perceber que deveria ser um podcast de autistas. Não exatamente sobre autismo, mas deveria ser um podcast nosso. Antes disso, em 2017, já tinha feito um perfil de Jornalismo Literário sobre o Michael e um radiodocumentário. Foi o suficiente pra convencer eles. Usei meu computador, um gravador, um microfone, e começamos a gravar após o horário da terapia. A Tatiana conseguiu deixar que ficássemos na sala nos primeiros episódios (até o 16), até que o nosso barulho começou a atrapalhar as outras consultas e ficamos perambulando de prédio em prédio da UFG (risos). E, depois disso, até meados de junho de 2019, continuamos gravando presencialmente de vez em quando e a maior parte do conteúdo passou a ser feito pela internet.

Depois dessa introdução gigante, mais objetivo: O Introvertendo foi criado porque, na minha busca por podcasts sobre autismo, encontrava apenas um estrangeiro, chamado Aspie Cast, que lançava nem 3 episódios por ano. Vimos uma oportunidade de fazer um projeto pioneiro. O Michael até fazia piada sobre as questões culturais do Brasil com o autismo, dizendo: “É até difícil achar um autista gravando seus videozinhos lá fora, e no Brasil você tem o Paulo Kogos”. É engraçado que uns podcasts de autistas em inglês hoje, como o Them Aspergers e This Podcast Has Autism, foram lançados dias depois do Introvertendo, no mesmo mês. É muita coincidência. Do ponto de vista objetivo, não nos ajudou tanto na socialização, porque ele era consequência de um processo de socialização. Mas nos ajudou muito a participar mais efetivamente da comunidade do autismo no Brasil. De alguma forma viramos um tipo de Asperger’s Are Us brasileiro – sem ser um grupo de comédia (risos).

Alice: Como você acha que o podcast contribui tanto para a comunidade autista quanto para a sociedade brasileira?

Tiago: Para a comunidade autista e a comunidade do autismo, creio que a principal função do podcast é mostrar como autistas interagem e a variação de características dentro do espectro. É como começamos e é o que seremos enquanto existirmos. Ao longo do tempo, também vimos uma outra contribuição singular e natural: Por sermos uma produção em áudio, sem as barreiras do vídeo, trazemos figuras da comunidade de todos os lugares do Brasil e conseguimos juntá-las em encontros inéditos. Para a sociedade brasileira, conseguimos mostrar que nós existimos e que nós podemos contribuir nas discussões sobre autismo e saúde mental. E há muito o que conversar sobre isso.

Alice: Na sua opinião, o que significa ser autista?

Tiago: Uma vez, um autista publicou um poema no Facebook falando o que era “ser autista”, e até chegou a viralizar entre autistas e mães. Outro, discordando, comentou logo abaixo: “Ser autista é estar no transtorno do espectro do autismo”. Eu geralmente não curto muito descrições floridas sobre o autismo. São perfeitamente válidas para emocionar pessoas em contextos específicos, mas não têm muita utilidade para além disso. Não vejo o autismo como uma tragédia, não o vejo como o auge da existência humana, vejo como uma condição. Uma condição que não me torna um ser humano pior ou melhor em relação às outras pessoas, que não me torna menos gente. Pra mim, ser autista é ser alguém com qualidades e defeitos, com dificuldades mais significativas em certos aspectos e, em alguns casos, mais habilidades. Só não podemos usar esse tipo de discurso para dizer que o autismo não é uma deficiência, ou que no fundo no fundo todo mundo é igual, porque sabemos que não é.

Alice: Você é formado em jornalismo. Poderia nos contar um pouco sobre a sua experiência no ensino superior e no mercado de trabalho enquanto autista? Teve alguma adaptação?

Tiago: Como obtive o laudo exatamente quando ingressei no ensino superior, procurei rapidamente os serviços de assistência estudantil. Uma psicóloga me atendeu, duas consultas depois pediu demissão, depois veio a Tatiana, como já contei. E o atendimento individual que eu tive com ela, junto com o grupo Asperger, certamente foi um incentivo para continuar na universidade. Era um período muito crítico, estava cumprindo 10 disciplinas ao mesmo tempo e fazia uns freelas na internet para complementar a renda, praticamente um overclock insustentável. Tive problemas com depressão e ansiedade neste período e fui atendido de graça na universidade, consegui até parte da medicação. Eu diria que os serviços de saúde mental são fundamentais para autistas na universidade. No sentido curricular não precisei de nada muito específico. Meu curso era complicado porque eram muitas atividades em grupo, mas consegui ter três pessoas próximas que eram a minha “turma”. Depois que terminei a graduação, continuei muito bem. Já não preciso de medicação há quase 2 anos.

Em termos profissionais, eu trabalho de forma remota na mesma empresa desde 2017. Ela fica em Porto Alegre e, de vez em quando, vou para lá. Levei um ano e meio para contar sobre o diagnóstico, porque trabalhar à distância sempre foi tão tranquilo para mim que isso acabou passando batido. Hoje, a empresa que eu trabalho faz a produção do Introvertendo. Tem sido ótimo. Fora do mercado de trabalho formal, ainda faço algumas atividades jornalísticas. Escrevi um livro chamado Histórias de Paratinga, sobre um município baiano, e escrevo umas reportagens sobre música e autismo.

Alice: Como você vê o movimento da neurodiversidade? E a questão da inclusão e aceitação do autista no Brasil?

Tiago: O movimento da neurodiversidade, sendo sincero, ainda é uma incógnita pra mim. Ouvi falar sobre ele logo que tive o primeiro contato com autismo, lá em 2013, e fiquei muito empolgado. Mas, apesar do entusiasmo, minha leitura sobre o tema era muito superficial. Nos grupos virtuais de autistas, maior parte pró-neurodiversidade, isso em meados de 2013 e 2014, era uma briga frequente entre autistas, uma baixaria que me deixava bastante decepcionado. Nesta época, eu conheci várias pessoas autistas muito legais, que poderiam dar uma contribuição social absurda, mas acabaram desistindo da comunidade por completo e nunca mais voltaram. Até que eu comecei a interagir mais com pais de autistas, acabei presenciando alguns ruídos no ativismo autista no país e no exterior, e comecei a adotar uma postura bastante receosa (e até discordante) com o movimento. Tinha as questões conceituais, algumas dicotomias que eu ainda discordo. Até porque a própria Judy Singer, nos últimos anos, andou criticando várias interpretações sobre a ideia de neurodiversidade, a um nível que já vi o termo ser usado em contextos extremamente genéricos. Mas como alguém que procura ler antes de tomar decisões precipitadas, comecei a ler muito sobre a história do autismo de uns anos pra cá, e posso dizer que eu ainda estou num processo de reconciliação gradual com a neurodiversidade. Como jornalista, uma das minhas tarefas é entender os diferentes guetos da comunidade do autismo, e todos eles tem seus problemas (alguns mais que outros, claro). E cada vez mais estou chegando à conclusão de que sou mais respeitado, enquanto indivíduo, entre as pessoas que defendem a noção de neurodiversidade.

Sobre a inclusão e aceitação, podemos admitir que falamos sobre autismo muito mais do que falávamos há 10 anos. E as políticas públicas se orientaram neste sentido. Tivemos a Lei do Autismo em 2012, a Lei Brasileira de Inclusão em 2015, e mesmo depois de uma guinada absurda do Governo Federal, por meio do IBGE, em enxugar o Censo, o autismo vai entrar no questionário por livre e espontânea pressão. Quando vemos, dia a dia, notícias sobre discriminação a autistas e a falta de suporte que muitos de nós deveríamos receber, podemos pensar que as coisas não estão andando, mas daqui a alguns anos veremos o quanto avançamos em cerca de uma década. Não é ideal ainda, mas está progredindo.

Alice: Você já enfrentou alguma barreira atitudinal ao revelar seu diagnóstico para as pessoas? Sente-se acolhido?

Tiago: Sim, já percebi várias barreiras atitudinais, mas não vejo um padrão nelas, porque essas barreiras ocorreram em períodos e contextos diferentes. Vi barreiras atitudinais na universidade quando colegas faziam piadinhas pelas costas, vi barreiras atitudinais em eventos de autismo ao ser encarado como um herói ou como uma criança, vi barreiras atitudinais até em relacionamentos amorosos, quando ouvi que eu usava o autismo como escudo. É complicado ser autista nestes contextos, porque você não tem como prever como as pessoas vão reagir ao assunto. Ao mesmo tempo, existe um período de amadurecimento pós-diagnóstico. Levei cerca de 3 anos para ter um olhar mais sereno para todas as mudanças ocorridas em tão pouco tempo. Porque, no início, era uma empolgação tão grande com as respostas que tive e, olhando pra trás, realmente eu falava sobre autismo em todos os contextos. Depois disso foi o inverso, fiquei extremamente retraído. Hoje em dia o autismo só se torna assunto quando há um contexto para ser introduzido. E, por conta do Introvertendo, muitas pessoas acabam sabendo do autismo antes mesmo de falar comigo. Neste sentido, as reações têm sido boas, no geral.

Alice: Você acha que ainda existe uma barreira no que diz respeito ao autista ter sua voz ouvida e seu lugar de fala respeitado?

Tiago: Com certeza. Tem vários aspectos e contextos, na verdade, que envolvem isso. Eu percebo que isso é muito evidente no ativismo local, cuja construção histórica foi de mães com certas demandas e estas demandas, naturalmente, podem não ser as mesmas de alguns autistas. E acho até natural que as pessoas tenham essas reservas quando elas estão nessa trajetória há muito mais tempo que nós. Mas temos visto mudanças significativas pelo país. Em Goiânia, por exemplo, há uma associação com vários autistas na diretoria, e tem feito um trabalho formidável em amparar adultos com suspeita de autismo e produz conteúdos culturais sobre autismo. 

Quando ingressei na comunidade, lá em 2013, quase todos os eventos sobre autismo eram feitos apenas por profissionais. Entendo bem que um congresso científico, de capacitação na área de educação ou psiquiatria, por exemplo, deve ter só pessoas especializadas, independentemente de serem autistas ou não, porque o conteúdo é mais importante que o emissor da mensagem. Mas a gente sabe bem que também existia uma parte massiva de eventos com mães e pais de autistas, sem conhecimento técnico sobre autismo, relatando experiências. Se eles podiam estar na mesa, por que autistas não? Pais falando horas sobre questões do autismo nem um pouco técnicas e especializadas, num evento que deveria promover mais informação… Criei um mal estar localmente há anos, durante uma audiência pública, quando sugeri, educadamente, que seria interessante ter um autista na mesa numa próxima audiência. O deputado coordenador da mesa riu, levemente, de um jeito que eu não sei se ele zombou ou ficou desconfortável. Nem fui na audiência seguinte porque estava viajando para uma outra palestra, mas fiquei sabendo que teve autista na mesa. Em 2020, as coisas mudaram absurdamente. Autistas não são mais apenas parte das apresentações culturais e participam de mesas, são palestrantes. Não que eu concorde com o que todos os autistas palestrantes falam, mas lanço essa provocação aqui: Se não tinha nenhum critério sobre os pais que falavam (e ainda às vezes falam) sobre autismo, por que só os autistas deveriam ficar de fora?

Alice: Como você se sente em relação às mudanças no diagnóstico de autismo que serão introduzidas no novo CID-11 futuramente?

Tiago: Critérios diagnósticos sempre foram algo confuso para mim, e só consegui entender razoavelmente bem com muita leitura e ajuda de alguns colegas. Eu entendo que o CID-11 vai resolver um problema muito significativo da última edição do DSM, o qual é o “autismo moderado”. Falar sobre os antigos aspies é fácil, falar sobre o que se chamava de “autismo infantil” de Kanner também é um território muito bem demarcado, mas o que tinha entre os dois “extremos” do espectro nunca ficou muito palpável. E as divisões do CID são muito mais intuitivas do que as o DSM-V. Até hoje essas fronteiras não são bem específicas. Existe um senso comum de que todo autista não-oralizado, por exemplo, é autista severo e isso não é verdade. Terá um efeito muito positivo na comunidade, em principalmente alertar a muitas pessoas que existem autistas de muitas formas, inclusive sem deficiência intelectual e sem forte comprometimento na linguagem. Vai quebrar muito do papo “Asperger não é autismo” e vai fazer também muita gente, outrora na mesma “categoria”, receber códigos diferentes. Se estou equivocado, só o tempo vai dizer…

Alice: Quais foram os momentos mais memoráveis da sua jornada no Introvertendo? Pode contar sobre seus projetos futuros?

Tiago: É muito difícil responder isso, porque foram tantas fases nestes dois anos, ainda mais no meu caso que estou em todas as etapas de gravação e pós-produção… Mas, com certeza, o início me dá mais saudade. Época que nos encontrávamos pessoalmente na UFG para gravar e tudo ainda era muito romântico e sem filtros… Mas quem ouve não imagina que foi uma época muito complicada pra mim, na verdade. Estava com problemas sérios com depressão, terminando o curso próximo ao TCC, tive um relacionamento o qual me deixou desestruturado, e o podcast era uma válvula de escape, um momento pra me divertir de verdade. Gravamos os episódios 1 ao 25 em cerca de dois meses e lançamos aos poucos. Aí teve a Copa do Mundo, o Michael foi embora, eu estava focado no TCC, o grupo presencial se desfez e ficou só pela web. Vieram a Thaís, Paulo e Yara, trouxeram uma maturidade que nós fundadores não tínhamos e, mais tarde, a Mariana e o Willian Chimura, um cara extremamente sério e que sempre sabe o que está fazendo, que complementa muito nas discussões com um viés científico que só temos explorado de uns meses pra cá. Acho que, enquanto o tempo passar, eu vou sempre sentir saudade de todo o processo, porque cada dia é uma descoberta.

Tenho muitos projetos futuros. Sobre o Introvertendo, estamos com planos de entrevistar figuras internacionais do autismo. Apenas não sabemos como vamos fazer isso nos episódios, mas é um sonho antigo que vamos executar este ano ainda. Queremos muito que a comunidade internacional saiba o que os autistas do Brasil estão fazendo. Também tenho muita vontade de organizar um evento local sobre autismo em Goiânia, o qual venha atrair a audiência do podcast pra cá. Um congresso de propósito mais cultural, não sei, é algo para um futuro distante, já que com o surto de Covid-19 tudo ficou mais difícil. E tenho um plano antigo de fazer outro podcast, num formato storytelling, sobre as regiões mineiras e baianas do Vale do São Francisco, com apenas uma temporada. Vai ser algo totalmente diferente do Introvertendo e estou com muita expectativa de que surpreenda a galera. Se tudo der certo, provavelmente será lançado ano que vem.

Gostaram da entrevista? Acho que o Tiago foi o entrevistado que, de longe, mais escreveu nas respostas. Você pode ouvir o podcast no youtube ou nas mais diversas plataformas de podcasts disponíveis. Tem até um episódio comigo! Por hoje é só. Até a próxima e tchau tchau!