PARA CONHECER COMUNIDADES SURDAS: APONTAMENTOS INICIAIS SOBRE CULTURAS, DIREITOS E DEMANDAS SOCIAIS

Descrição de imagem: uma mão forma a letra L. Ao lado, as letras “ibras”, formando a palavra “Libras”.

Oi, pessoal! Quanto tempo! Hoje estou trazendo um texto sobre a comunidade surda, produzido pelo meu grande amigo, que conheci na faculdade, João Paulo. Não é um assunto referente à neurodiversidade ou autismo, mas também é importante no que tange a inclusão. Pedi para o João escrever esse texto justamente porque ele é um pesquisador na área de Linguística voltada para Libras, além de estar inserido na comunidade surda e escolher para si essa causa. Espero que gostem!

Por João Paulo da Silva Nascimento, professor aperfeiçoado em Atendimento Educacional Especializado (Faculdade Metropolitana do Estado de São Paulo/2019) e pesquisador do Núcleo de Estudos sobre Interlíngua e Surdez da Universidade Federal do Rio de Janeiro – NEIS-UFRJ. Contato: jpn0401@gmail.com. Currículo: http://lattes.cnpq.br/0302551946472994.

Olá! Em primeiro lugar, gostaria de agradecer à Alice, minha querida amiga e a incrível menina neurodiversa, por ter me convidado para falar um pouquinho sobre a comunidade surda, sua cultura, seus direitos e suas demandas socioeducacionais – assunto de que tanto gosto! Obrigado pela confiança!

Bem, como começar a abordar um assunto tão amplo sem deixar de lado nenhum detalhe que seja importante à compreensão estimada? Não se trata mesmo de uma tarefa fácil, mas acredito que definir a surdez por uma perspectiva cultural seja de fato o melhor caminho! Comecemos, então, por um exercício indispensável para entendermos a causa da comunidade surda: imagine se, durante muito tempo da história, você e seus pares fossem considerados pessoas impossibilitadas de usufruirem justamente da característica que distingue os seres humanos de outros animais – a comunicação? Estranho, não é mesmo? Dá aquela sensação de que seríamos então considerados como “não-pessoas” e, portanto, inferiores à condição natural. Infelizmente, essa visão tão limitadora esteve – e, por vezes, está – presente na vida de pessoas surdas graças à visão patológica sobre a surdez, a qual reduz o indivíduo surdo à condição de incapaz e foi a responsável, dentre muitos danos, pela proibição do uso das línguas de sinais e pela compulsória forçagem à oralização em um dado recorte da história dos povos surdos.

Então, você deve estar se perguntando, se a comunidade surda não deve ser tratada como incapaz, como devemos tratá-la? A resposta é simples, além de inclusiva e mais justa: as comunidades surdas são, antes de tudo, grupos étnico-linguísticos detentores de culturas próprias e variadas, de língua (no caso de surdos brasileiros, a Língua Brasileira de Sinais – Libras) e experiências próprias. Segundo Oliver Sacks, um importante sociólogo que se dedicou aos Estudos Surdos em seu livro “Vendo vozes: uma viagem ao mundo dos surdos”, publicado em 1989, “ser surdo, nascer surdo, coloca a pessoa numa situação extraordinária; expõe o indivíduo a uma série de possibilidades linguísticas e, portanto, a uma série de possibilidades intelectuais e culturais que nós, outros, como falantes nativos num mundo de falantes, não podemos sequer imaginar”. Curioso, não é? Mas, ao mesmo tempo, instigante para entendermos uma maneira de ser e de estar no mundo distinta, sobretudo, pela experiência comunicativa, pela linguagem e pela percepção do mundo!

Defender uma visão cultural para as comunidades surdas não é pouca coisa! Na verdade, trata-se de uma necessidade constante, uma vez que a difusão de visões patológicas são responsáveis pela legitimação equivocada de estereótipos sobre pessoas surdas, os quais veiculam concepções capacitistas e limitadoras sobre a vida, as relações e o processo de ensino-aprendizagem de surdos. No Brasil, por exemplo, apesar de muitos desafios, a comunidade surda já dispõe de políticas inclusivas que auxiliam a manutenção de um novo olhar para a surdez, principalmente no campo educacional. São alguns exemplos: a lei n° 10.436/02 (também conhecida como “lei de Libras”), o decreto n° 5.626/05 (responsável por regulamentar a lei de Libras e por definir algumas recomendações para o ensino de surdos em uma perspectiva bilíngue) e a lei n° 12.319/10 (que regulamenta a profissão de tradutores-intérpretes de Libras, afirmando a obrigatoriedade desse direito).

Essas políticas asseguram – ao menos legalmente – determinados direitos da comunidade surda brasileira, tais como a obrigatoriedade de tradutores-intérpretes de Libras, a língua natural (e não linguagem!) de surdos defendida politicamente, em diferentes contextos de interação social. Entretanto, bem sabemos que a realidade ainda se mostra um tanto quanto distante de condições ideais para a inclusão de pessoas surdas, seja em situação educacional, seja em situações mais amplas. Por exemplo, imagine viver em um mundo em que cinemas, museus, teatros e até mesmo a TV não utilizam sua língua; imagine se sentir, por falta da efetivação prática das políticas inclusivas, estrangeiro em seu próprio país, dentro de sua própria casa, instituições de ensino e nas situações cotidianas mais banais. Decerto, não deve ser fácil e mesmo nós, ouvintes que lutamos em prol das causas da comunidade surda, não podemos mensurar precisamente, pois essas são experiências em um nível mais profundo da condição humana.

Por isso, compreender a condição surda como uma condição cultural torna-se imprescindível para a construção de uma luta social inclusiva, a fim de que os muros de silêncio entre as comunidades ouvintes e as comunidades surdas plurais se desconstruam pouco a pouco. Daí o zelo por causas como: (a) a obrigatoriedade do ensino de Libras nas escolas brasileira de educação básica; (b) o reconhecimento do uso e da difusão da Libras; (c) o investimento na formação de professores bilíngues em Libras e na formação de professores especialistas em ensino de português como segunda língua para surdos; (d) valorização dos artefatos culturais surdos, tais como literatura, artes plásticas e performances; (e) presença das janelas de tradutores-intérpretes de Libras nas programações totais de TV e de outros espaços culturais, bem como a presença desses profissionais em número satisfatório em instituições de ensino públicas e privadas, etc.

É claro que essa matéria, apesar de escrita com muito carinho e gratidão, não é suficiente para o tratamento desse tema tão complexo. E o que esperamos, na verdade, é justamente despertar a curiosidade dos leitores queridos do blog A Menina Neurodiversa sobre o tema da surdez, para que possamos juntos construir estratégias de inclusão da comunidade surda! Então, ficamos na expectativa de que gostem e de que possam utilizar esse texto como ponto de partida para novas pesquisas. Também coloco-me à disposição para elucidar quaisquer dúvidas e conversar mais sobre o tema por meio de meu e-mail e de minhas contas pessoais! Aproveito para divulgar também algumas ações do Instituto Nacional de Educação de Surdos, órgão de referência nacional na área de surdez, as quais podem ser consultadas no endereço eletrônico: http://www.ines.gov.br/ .

Mais uma vez, muito obrigado pela oportunidade!

Até a próxima, pessoal!

João Paulo.

4 comentários sobre “PARA CONHECER COMUNIDADES SURDAS: APONTAMENTOS INICIAIS SOBRE CULTURAS, DIREITOS E DEMANDAS SOCIAIS

  1. shirley asperger 8 de junho de 2020 / 13:12

    Parei com o woldpress mas gostaria de continuar lendo seus posts,não me lembro como esse post dos surdos veio parar aqui,mas gostaria de ler mais, Meu e-mail:antoniashirleysilvasantiago@gmail.com O blog é bom,gosto muito, Continuo com minhas atividades no wattpad,e no youtube dei uma parada,não sei se vou continuar

    Curtido por 1 pessoa

  2. shirley asperger 8 de junho de 2020 / 13:16

    Indiquei seu blog no aplicativo espero que eles curtem

    Curtido por 1 pessoa

  3. shirley asperger 8 de junho de 2020 / 15:15

    1-o que acha dos símbolos do autismo?quantos existem? 2-autismo associado a outra deficiencia(ceguera,surdez,down)ou transtorno(TDAH,TOC) 3-instituições Ruins(alerta) 4-livros,filmes sobre autismo que não são bons no assunto autismo ou abordam o tema de forma ruim ou esteriotipado(alerta) 5-bichinho de estimação é boa terapia?

    Curtir

  4. shirley asperger 5 de julho de 2020 / 18:14

    E a libras pode ser usadas com autistas não verbais que podem preferir os sinais a usar a voz
    Não precisa falar para ter comunicação

    Curtido por 1 pessoa

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