Autismo no feminino

Descrição de imagem: autista americana Temple Grandin sentada na terra na frente de cinco vacas.

Quando se fala em autismo, a maioria das pessoas imagina uma criança. Não apenas isso, mas uma criança do gênero masculino. Isso não é de se espantar, pois a própria história do autismo enquanto diagnóstico foi centrada em meninos! O psiquiatra americano Leo Kanner, quando estudava um grupo de pessoas que apresentava comportamentos autísticos, observou oito meninos, ao passo que apenas três meninas. O próprio Hans Asperger, pediatra austríaco que primeiramente descreveu o que se hoje conhece como autismo leve ou Síndrome de Asperger, acreditava que a condição não atingia meninas. Ele depois reconheceu o erro e se retratou.

Ao longo da evolução dos manuais de diagnósticos, os exemplos foram se focando no sexo masculino. Até hoje, muitos profissionais usam como exemplo para diagnóstico de Síndrome de Asperger o interesse exacerbado por carros ou dinossauros, brinquedos socialmente atribuídos aos interesses infantis masculinos. Não raramente os interesses restritos de muitas meninas passam despercebidos.

Enquanto a retração social em meninos costuma ser motivo de alerta para os pais, a das meninas pode passar apenas como timidez. Na nossa sociedade, são esperados comportamentos diferentes para meninos e meninas. Se um menino prefere brincar sozinho ou ficar isolado, logo se pensa que pode haver uma questão por trás disso. No caso de meninas, não é incomum que a vejam como reservada, discreta ou tímida, como já disse anteriormente.

Se uma criança do sexo feminino tem interesse em colecionar pôneis ou bonecas, isso não chama tanta atenção quanto ter interesse em colecionar pedras ou saber tudo sobre física quântica. Não que meninas não possam ter esses interesses, mas, quando elas têm interesses em assuntos como animais, natureza e literatura, a questão do interesse restrito tende a passar despercebida.

Muitos estudos mais antigos diziam que o autismo só afetava meninas de forma mais grave. Mas, hoje, percebe-se que casos mais leves têm mais chances de serem subdiagnosticados nas meninas, principalmente quando não há um atraso da fala, que é o primeiro sinal de alerta a chamar atenção dos pais. Nesse caso, a retração social passa a ser encarada como um excesso de timidez e não como característica do autismo, que envolveria uma dificuldade na teoria da mente, ou seja, de perceber o que se passa na cabeça das pessoas.

Fora que, em um grupo de meninas, a mais retraída tem mais chance de receber ajuda das outras e ser acolhida por elas, ao passo que, num grupo de meninos, existe uma chance maior de ocorrência de agressividade e bullying àquele que se apresenta de forma diferente, o que chama mais atenção. Isso é mais uma questão que pode mascarar o autismo.

Falando em mascarar, existem estudos sobre autismo que afirmam que meninas têm uma capacidade maior de mascarar seus sintomas do que os meninos. Com isso, elas conseguem observar o comportamento das outras garotas e, mesmo que de forma mecânica e artificial, imitá-los para fazer parte do grupo. O mesmo pode ocorrer nas brincadeiras e nos interesses. No meu caso, um exemplo que posso trazer é a memória de que, ao notar que as outras meninas diziam, em sua maioria, que preferiam a cor rosa em detrimento de outras, eu dizia a mesma coisa a meu respeito. Nunca me dei a chance de descobrir qual era realmente a minha cor preferida na infância. Hoje, percebo que é, na verdade, o azul claro.

Já é difícil se diagnosticar a Síndrome de Asperger em adultos em geral. Agora, em mulheres, essa dificuldade aumenta, e muito! Recentemente, tive acesso a uma reportagem que contava o caso de uma moça que havia sido diagnosticada na infância, mas, ao mudar-se para o Reino Unido e ir a uma consulta médica, teve seu diagnóstico retirado por um médico que afirmou que ela não poderia ser autista por ser do sexo feminino. Isso significa perder o direito a suporte e tratamento simplesmente pela ignorância de um “profissional” a respeito do autismo no feminino.

Um estudo famoso a respeito do tema apontou que existe uma menina autista para cada quatro meninos diagnosticados com a mesma condição. Com o caso crescente de meninas sendo diagnosticadas após diversas ações para divulgar as formas como o autismo pode se apresentar em moças, esse número têm diminuído. Um estudo recente já abaixou o número para três meninos para cada menina e já se fala de uma suposição de dois para uma. Muito provavelmente isso se dá pelo simples fato de que muitas meninas e mulheres estão ou sem diagnóstico ou com o diagnóstico errado. Não raro vemos mulheres sendo diagnosticadas com transtorno bipolar, personalidade Borderline, TDAH, entre outros, quando são, na verdade, autistas.

Pais e profissionais precisam ficar atentos aos sinais mais sutis de autismo nas meninas. Só porque ela pode ter interesse por bonecas, não significa que ela não esteja no espectro. É preciso ir mais a fundo e identificar a forma como ela cria sua brincadeira. Pode ser que ela esteja apenas organizando as bonecas ou repetindo alguma cena que viu sem que entenda os processos sociais por trás dessas ações. Também é importante não descartar a possibilidade de interesses restritos só porque esses interesses são mais socialmente aceitáveis. E, principalmente, precisamos erradicar a ideia retrógrada de que o autismo é coisa de menino. Precisamos ter em mente que autismo não é só azul, mas de todas as cores.

Espero que tenham gostado dessa matéria. Gostaria de agradecer à seguidora da minha página que sugeriu esse tema, que é de demasiada importância. Não esqueça de seguir a página do facebook: A Menina Neurodiversa! Até a próxima e tchau tchau!

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