Autismo e adolescência

Descrição de imagem: um adolescente de camisa branca e braços cruzados sozinho e cabisbaixo. Mais atrás, no fundo desfocado, três jovens adolescentes sentados olham para ele.

A adolescência é um período de grandes mudanças na vida dos jovens. Hormônios, alterações corporais, deixar de ser criança, pressão social para se encaixar em grupos, mais desafios na escola, sexualidade, entre outros, são alguns dos exemplos do que se passa nesse período da nossa vida. Decerto, podemos dizer que a adolescência é o momento no qual percebemos que, na infância, éramos felizes e não sabíamos. Agora, imagine que esse adolescente tem dificuldades com mudanças, de socialização e comunicação, interesses restritos e comportamento repetitivo. É o caso dos autistas. Pensando nesse grupo ainda mais específico de adolescentes, decidi, a partir de uma sugestão de um seguidor da página, abordar o tema “autismo e adolescência”.

Lá para o final da minha infância, com 9/10 anos, a minha socialização ficou ainda pior. Percebi que as outras crianças eram bem diferentes de mim, e eu, delas. Estávamos chegando à chamada pré-adolescência, mas eu continuada a mesma: gostava de correr e ficava toda suada, gostava dos meus brinquedos, via os mesmos desenhos animados. Eu percebi que as outras meninas já formavam grupinhos para andar juntas e falar sobre assuntos que eu jamais entendi: meninos, maquiagem, moda. Não é à toa que eu passei a andar com dois meninos, pois nós só conversávamos sobre jogos e jogávamos juntos. Nesse momento da minha vida, eu superava o bullying através da amizade, ou seja, isso não me fazia tão mal, pois eu tinha amigos (mesmo que poucos). Eu era esquisita, mas ainda conseguia pertencer a um pequeno grupo.

Isso não durou muito: mudei de escola aos 11 anos e já não conseguia mais me encaixar em grupo nenhum. Fiquei sozinha. Não conseguia falar com os colegas, tinha fobia de socialização. Chorava em casa porque não tinha amigos e me sentia deslocada. A partir daí, mudanças estavam acontecendo. Meu corpo estava mudando, as pessoas estavam mudando, as exigências estavam mudando, mas eu continuava sendo a mesma por dentro. Era uma criança ainda.

Na adolescência, tudo ficou pior. Eu era deprimida, ansiosa, desatenta. Havia pressão social para ter amigos, namorar, ir a festas…e eu não fazia nada disso. Eu ficava em casa jogando ou vendo desenho. Só queria saber do mesmo assunto e só sabia conversar sobre isso. Não tinha o corpo ideal, não ligava para roupas da moda, tinha uma péssima postura corporal, me sentia feia. Não suportava ir a festas e quase não tinha amigos. Eu pensava muito em morte. O bullying e a solidão eram muito presentes na minha vida. Eu era uma nerd solitária e estranha.

É claro que o fato de eu não ter o diagnóstico nesse época dificultou tudo, mas até mesmo aqueles que foram diagnosticados na infância, muitas vezes, passam por problemas na adolescência. Acontece que é nesse período que se começa a querer ser independente dos pais, a querer ser legal e descolado. Só que o autista é, na maioria das vezes, dependente. Muitos de nós continuam precisando dos pais até na fase adulta. A necessidade de suporte varia, mas sabemos que é quase sempre necessário. O bullying se amplia, e os autistas costumam ser alvos fáceis. Começam os grupinhos fechados, as chamadas “panelinhas”, mas nós autistas normalmente não nos encaixamos nelas.

É fato que autistas são vistos como estranhos para a maioria das pessoas desinformadas sobre a condição. Imagine um adolescente, tentando ser independente e descolado, vendo seu colega de turma correndo, balançando os braços e fazendo sons incomuns. Imagine ele vendo o colega precisando dos pais, de mais apoio em sala de aula, só conversando sobre naves especiais ou qualquer que seja seu interesse restrito, dizendo coisas indelicadas, tapando os ouvidos e não correspondendo às expectativas dos adolescentes populares. Fica bem difícil querer ser amigo dessa pessoa, que, como podemos concluir, é autista!

Mas, e quando se tem conscientização sobre o autismo? Ou melhor, e quando se aceita o autismo como uma forma válida de existência? Será que precisa ser tão ruim? Nós autistas fazemos tantas terapias, que tentam nos ajudar a nos adaptarmos ao mundo neurotípico. Mas e se a sociedade também tentasse se adaptar a nós? E se um jovem visse uma pessoa autista e, ao invés de sentir vergonha de estar perto dela, ficasse feliz e apreciasse o convívio com o que é diferente? Seria tudo muito melhor.

Os únicos problemas que enfrentaríamos mesmo seriam as mudanças orgânicas. Tudo o que seria de cunho social estaria sob controle, afinal as diferenças seriam aceitas e, melhor do que isso, celebradas. Teríamos amigos, teríamos apoio na escola, teríamos a opção de sair sábado à noite, caso quiséssemos, nos sentiríamos incluídos. Ser adolescente e autista não precisaria ser tão difícil. Nossos assuntos de interesse, por mais diferentes que fossem, seriam respeitados, assim como nossa forma de interagir, comunicar, demonstrar afeto e amizade.

Isso tudo só será possível quando a ignorância a respeito do que é o autismo acabar. Só porque uma pessoa é diferente, não significa que ela não sinta, que ela seja menos. É preciso haver eventos nas escolas, nas igrejas, nas instituições públicas. Precisamos falar sobre autismo. Precisamos ajudar os autistas a sair de seus casulos e ir voar pelo mundo. Precisamos falar sobre neurodiversidade e entender que autismo não é uma doença ou uma tragédia. Precisamos estar dispostos a conviver com quem não é igual a nós e a ter respeito. Precisamos falar sobre bullying, conscientizar os jovens sobre isso. Falem com seus filhos, com seus amigos, com seus alunos. Deem voz ao autista, nos ajudem a conquistar nosso espaço na sociedade. Nos convidem para a festinha, nos chamem para ir ao cinema, nos escutem enquanto falamos do nosso interesse, nos chamem para a sua casa e venham conhecer a nossa. Nos permitam mostrar que somos, na verdade, como você. Sejam nossos amigos.

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Autismo no feminino

Descrição de imagem: autista americana Temple Grandin sentada na terra na frente de cinco vacas.

Quando se fala em autismo, a maioria das pessoas imagina uma criança. Não apenas isso, mas uma criança do gênero masculino. Isso não é de se espantar, pois a própria história do autismo enquanto diagnóstico foi centrada em meninos! O psiquiatra americano Leo Kanner, quando estudava um grupo de pessoas que apresentava comportamentos autísticos, observou oito meninos, ao passo que apenas três meninas. O próprio Hans Asperger, pediatra austríaco que primeiramente descreveu o que se hoje conhece como autismo leve ou Síndrome de Asperger, acreditava que a condição não atingia meninas. Ele depois reconheceu o erro e se retratou.

Ao longo da evolução dos manuais de diagnósticos, os exemplos foram se focando no sexo masculino. Até hoje, muitos profissionais usam como exemplo para diagnóstico de Síndrome de Asperger o interesse exacerbado por carros ou dinossauros, brinquedos socialmente atribuídos aos interesses infantis masculinos. Não raramente os interesses restritos de muitas meninas passam despercebidos.

Enquanto a retração social em meninos costuma ser motivo de alerta para os pais, a das meninas pode passar apenas como timidez. Na nossa sociedade, são esperados comportamentos diferentes para meninos e meninas. Se um menino prefere brincar sozinho ou ficar isolado, logo se pensa que pode haver uma questão por trás disso. No caso de meninas, não é incomum que a vejam como reservada, discreta ou tímida, como já disse anteriormente.

Se uma criança do sexo feminino tem interesse em colecionar pôneis ou bonecas, isso não chama tanta atenção quanto ter interesse em colecionar pedras ou saber tudo sobre física quântica. Não que meninas não possam ter esses interesses, mas, quando elas têm interesses em assuntos como animais, natureza e literatura, a questão do interesse restrito tende a passar despercebida.

Muitos estudos mais antigos diziam que o autismo só afetava meninas de forma mais grave. Mas, hoje, percebe-se que casos mais leves têm mais chances de serem subdiagnosticados nas meninas, principalmente quando não há um atraso da fala, que é o primeiro sinal de alerta a chamar atenção dos pais. Nesse caso, a retração social passa a ser encarada como um excesso de timidez e não como característica do autismo, que envolveria uma dificuldade na teoria da mente, ou seja, de perceber o que se passa na cabeça das pessoas.

Fora que, em um grupo de meninas, a mais retraída tem mais chance de receber ajuda das outras e ser acolhida por elas, ao passo que, num grupo de meninos, existe uma chance maior de ocorrência de agressividade e bullying àquele que se apresenta de forma diferente, o que chama mais atenção. Isso é mais uma questão que pode mascarar o autismo.

Falando em mascarar, existem estudos sobre autismo que afirmam que meninas têm uma capacidade maior de mascarar seus sintomas do que os meninos. Com isso, elas conseguem observar o comportamento das outras garotas e, mesmo que de forma mecânica e artificial, imitá-los para fazer parte do grupo. O mesmo pode ocorrer nas brincadeiras e nos interesses. No meu caso, um exemplo que posso trazer é a memória de que, ao notar que as outras meninas diziam, em sua maioria, que preferiam a cor rosa em detrimento de outras, eu dizia a mesma coisa a meu respeito. Nunca me dei a chance de descobrir qual era realmente a minha cor preferida na infância. Hoje, percebo que é, na verdade, o azul claro.

Já é difícil se diagnosticar a Síndrome de Asperger em adultos em geral. Agora, em mulheres, essa dificuldade aumenta, e muito! Recentemente, tive acesso a uma reportagem que contava o caso de uma moça que havia sido diagnosticada na infância, mas, ao mudar-se para o Reino Unido e ir a uma consulta médica, teve seu diagnóstico retirado por um médico que afirmou que ela não poderia ser autista por ser do sexo feminino. Isso significa perder o direito a suporte e tratamento simplesmente pela ignorância de um “profissional” a respeito do autismo no feminino.

Um estudo famoso a respeito do tema apontou que existe uma menina autista para cada quatro meninos diagnosticados com a mesma condição. Com o caso crescente de meninas sendo diagnosticadas após diversas ações para divulgar as formas como o autismo pode se apresentar em moças, esse número têm diminuído. Um estudo recente já abaixou o número para três meninos para cada menina e já se fala de uma suposição de dois para uma. Muito provavelmente isso se dá pelo simples fato de que muitas meninas e mulheres estão ou sem diagnóstico ou com o diagnóstico errado. Não raro vemos mulheres sendo diagnosticadas com transtorno bipolar, personalidade Borderline, TDAH, entre outros, quando são, na verdade, autistas.

Pais e profissionais precisam ficar atentos aos sinais mais sutis de autismo nas meninas. Só porque ela pode ter interesse por bonecas, não significa que ela não esteja no espectro. É preciso ir mais a fundo e identificar a forma como ela cria sua brincadeira. Pode ser que ela esteja apenas organizando as bonecas ou repetindo alguma cena que viu sem que entenda os processos sociais por trás dessas ações. Também é importante não descartar a possibilidade de interesses restritos só porque esses interesses são mais socialmente aceitáveis. E, principalmente, precisamos erradicar a ideia retrógrada de que o autismo é coisa de menino. Precisamos ter em mente que autismo não é só azul, mas de todas as cores.

Espero que tenham gostado dessa matéria. Gostaria de agradecer à seguidora da minha página que sugeriu esse tema, que é de demasiada importância. Não esqueça de seguir a página do facebook: A Menina Neurodiversa! Até a próxima e tchau tchau!