Entrevista com neuropsiquiatra sobre autismo e neurodiversidade

Descrição de imagem: Dra. Raquel Del Monde sentada à mesa olhando para frente. Embaixo, uma ilustração de um cérebro colorido e as palavras “Neuropsiquiatra da infância e adolescência. Dra. Raquel Del Monde”

Muito se fala, dentro da comunidade autista, sobre a neurodiversidade. Trata-se de um movimento que vê as diferenças neurológicas como algo positivo e enriquecedor para a sociedade, o que vai na contramão da visão patológica de condições mentais que não se tratam de doenças, mas de um funcionamento diferente e legítimo. Apesar de ser tão debatido entre autistas engajados na causa, pouco se fala sobre isso entre os profissionais da saúde, que não costumam acompanhar os movimentos protagonizados pelos próprios autistas, mas apenas o que a ciência diz. Foi com isso em mente que resolvi convidar a Dra. Raquel Del Monde, neuropsiquiatra da infância e adolescência para esta entrevista. Acontece que ela é uma exceção à regra, pois sua prática clínica é baseada no respeito às diferenças a partir da neurodiversidade. Acompanhe a entrevista:

Alice: O que é autismo, do ponto de vista médico?

Dra. Raquel: É uma condição neuropsiquiátrica, de origem predominantemente genética, com apresentações clínicas bastante heterogêneas, envolvendo dois amplos domínios do comportamento humano: 1 – A comunicação social; 2 – Interesses e comportamentos restritos e repetitivos/alterações do processamento sensorial.

Alice: A sra. poderia falar um pouco da sua trajetória acadêmica e do seu trabalho?

Dra. Raquel: Sou formada em medicina pela FMRP – USP, em 1993. Fiz residência médica em pediatria na FCM – UNICAMP e trabalhei como pediatra por muitos anos. Sempre tive um grande interesse em comportamento e saúde mental infantil – esse foi, inclusive, o tema da minha iniciação científica, ainda na graduação. Mas a virada da minha vida profissional veio com a experiência de ser mãe de um filho neuroatípico, com Dupla Excepcionalidade. As dificuldades que enfrentei na época para encontrar profissionais qualificados e informações de qualidade me levaram a buscar capacitação na área. Não vou dizer que encontrei tudo o que procurava em um único curso ou formação, porque simplesmente não foi o que aconteceu. Frequentei eventos e congressos destinados a pedagogos, fonoaudiólogos, psicólogos e terapeutas ocupacionais, que me ajudaram muito a preencher lacunas no meu conhecimento. Frequentei por seis meses um ambulatório de distúrbios de aprendizagem e mergulhei no estudo da neurociência. Em 2013, fiz a especialização em psiquiatria da infância e adolescência na FCM – UNICAMP e foquei meu trabalho na área de aprendizagem, desenvolvimento e autismo. O contato intenso e contínuo com pacientes e suas famílias também contribuiu muito para enriquecer a minha prática.

Alice: O que uma pessoa deve fazer para se tornar neuropsiquiatra como a sra.?

Dra. Raquel: O termo neuropsiquiatria é usado para designar a prática psiquiátrica pela abordagem da neurociência. Nos últimos anos, tem havido uma aproximação necessária dessas áreas, possibilitando a compreensão de mente e cérebro como elementos intrinsecamente relacionados. É uma tendência que vem se acentuando nos cursos da área de saúde mental.

Alice: Qual o maior déficit na formação dos profissionais no que diz respeito ao autismo? O que pode ser feito para melhorar isso?

Dra. Raquel: Acredito que as grades curriculares ainda não tenham assimilado o conhecimento atual que temos acerca do autismo. Observamos que, em boa parte dos ambientes de formação, ainda são replicadas informações desatualizadas. Os responsáveis pela definição dos programas de formação profissional precisam ser sensibilizados quando à necessidade de mudança.

Alice: Qual seria a importância do conceito de neurodiversidade na prática médica e na de outros profissionais que lidam com pessoas neurodiversas?

Dra. Raquel: O conceito de neurodiversidade é uma mudança de paradigma para todos os profissionais que lidam com pessoas neurodiversas. A compreensão de que a existência de indivíduos neuroatípicos e as diferenças neurológicas que apresentam não são “erros” da natureza, e sim manifestações da imensa diversidade biológica da vida em nosso planeta e da pluralidade de habilidades da espécie humana, muda totalmente a forma que enxergamos os “transtornos” neuropsiquiátricos. Passamos a entender que nossa função não é normalizar ninguém e sim oferecer suporte adequado para o desenvolvimento e autonomia da pessoa.

Alice: Quais são as comorbidades mais comuns associadas ao autismo?

Dra. Raquel: As comorbidades que encontramos com maior frequência são: TDAH, ansiedade e transtornos da regulação de humor. Mas as possibilidades são muitas: TOC, Tourette, depressão, deficiência intelectual, esquizofrenia e outras.

Alice: Quais os problemas que podem levar a um diagnóstico tardio de autismo?

Dra. Raquel: Penso que todas as dificuldades do diagnóstico são devidas a falhas na formação de profissionais.

Alice: O autismo é mesmo mais comum em meninos ou existe uma dificuldade maior de se diagnosticas meninas?

Dra. Raquel: As duas coisas. O autismo é mais comum em meninos (estudo recente de metanálise aponta para uma frequência de 3:1). Porém, é fato que as meninas tendem a ter manifestações mais sutis e também a camuflar melhor suas dificuldades – portanto, são mais propensas a serem subdiagnosticadas.

Alice: Quais os aspectos mais importantes que os médicos precisam ter em mente para lidar melhor com seus pacientes autistas?

Dra. Raquel: A individualização da abordagem terapêutica é essencial. Os estudos genéticos mais atuais apontam para a existência de vários autismos, ou seja, alterações genéticas diferentes, levando a diferentes alterações no neurodesenvolvimento que, em comum, apresentam os déficits de comunicação e comportamento que definem o autismo. Isso explica tanto a heterogeneidade do espectro quanto a presença de comorbidades tão diversas entre os autistas. Simplesmente não há lógica na ideia de oferecer o mesmo tipo de suporte para todos os casos.

Alice: Qual a diferença entre o tratamento de autismo para uma criança e para um adulto que nunca teve nenhuma intervenção na infância?

Dra. Raquel: O objetivo, em qualquer caso, é oferecer suportes adequados para que o indivíduo possa ampliar seu repertório de comunicação e comportamental, favorecendo sua adaptação aos diversos ambientes e visando à sua autonomia. A principal diferença é que os adultos que nunca receberam intervenção adequada na infância perderam oportunidades de desenvolver algumas habilidades em períodos mais favoráveis de desenvolvimento neurológico e têm maior probabilidade de apresentar comorbidades secundárias à sua condição.

Alice: Qual a importância do diagnóstico para autistas adultos?

Dra. Raquel: Um diagnóstico correto, mesmo para aqueles que passaram a vida inteira sem conhecer sua condição, pode representar a chance de finalmente ter suporte terapêutico adequado, de receber acomodações necessárias no estudo ou na vida profissional, de autoconhecimento e melhoria nos relacionamentos pessoais.

Aprendi muitas coisas com essa entrevista! Sou muito grata à dra. Raquel por concedê-la a mim e também por ser tão humana e mente aberta em sua prática, quando sabemos que não costuma ser assim com todos os profissionais da área médica. Fiquei tão feliz quando conheci a página da dra. Raquel e vi que ela é a médica dos sonhos de tantos autistas que lutam pelo seu diagnóstico já na fase adulta. E também por ver que crianças diagnosticadas terão com ela a chance de mostrar aos seus pais que está tudo bem em ser autista. Muito obrigada pela entrevista, dra. Raquel! ❤

Espero que tenham gostado da entrevista! Não se esqueçam de curtir a página A Menina Neurodiversa no facebook! Até a próxima e tchau tchau!

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