Autismo e suicídio: quando o leve não é tão leve

Descrição de imagem: Em tons de preto, pessoa sentada abraçando os joelhos.

Estive ausente por um tempo porque recebi uma visita muito importante aqui em casa durante uma semana inteira. Foi o meu namorado! Nós nos conhecemos pela internet e nos vimos pessoalmente pela primeira vez! Foi maravilhoso! Mal posso esperar para vê-lo novamente. Agora ao que interessa:

Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), cerca de 800 mil pessoas tiram a própria vida anualmente. E o número de tentativas de suicídio é ainda maior. Entre os autistas leves, o risco de suicídio é nove vezes maior do que na população sem autismo. Segundo o site autimates, cerca de 28% dos autistas leves já pensaram ou pensam constantemente em tirar a própria vida. Os números são alarmantes.

A ansiedade, o sentimento de não pertencimento, o bullying, a solidão que parece eterna, entre outras coisas, são fatores de risco para os pensamentos de morte entre aqueles que se enquadram na parte mais branda do espectro autista. Justamente por sermos mais leves e, por tanto, aparentarmos menos ter a condição, somos cobrados para sermos iguais às outras pessoas: ter vários amigos, ir a festas, entrar e ter sucesso no mercado de trabalho, não fazer movimentos considerados estranhos, falar sobre e compreender os sentimentos, fazer parte de grupos sociais distintos, sair de casa, ter um namorado ou namorada, não ficar falando apenas do mesmo assunto ou ser desajeitado ao abordar uma pessoa etc. Muitas são as cobranças e poucos são os recursos para ajudar, principalmente se o autismo for tardiamente diagnosticado. Imaginem só crescer e estar cada vez mais ciente das suas diferenças, mas não ter uma explicação para elas! Foi isso que aconteceu no meu caso. O resultado? Cresci achando que tinha algum defeito, que era burra, inútil, imprestável, que jamais seria como as outras pessoas. Isso não faz bem para ninguém.

Recentemente, tivemos a triste notícia de um jovem autista de 17 anos que se suicidou após sofrer bullying constante. O rapaz tinha medo de como seria sua vida depois do ensino médio. O resultado de todo o seu sofrimento foi um vídeo de cinco minutos que ele gravou para explicar sobre sua partida e, em seguida, a tirada de sua própria vida. Casos como esse não são raros. A sociedade parece ter pouca tolerância ao diferente, tanto é que é muito fácil encontrar pessoas pertencentes a algum grupo minoritário que já tenham sofrido algum tipo de preconceito por causa disso. Pela minha convivência dentro da comunidade autista, percebo que é muito comum o pensamento de morte e, até mesmo, a própria tentativa de suicídio. Muito comumente vejo que respostas como “eu também” a afirmativas como “eu já tentei suicídio” aparecem nos grupos de autistas dos quais faço parte. É uma realidade de partir o coração.

O preconceito ao autista leve não vem apenas de quem não convive com o autismo. Existem pessoas que convivem com autistas mais severos, como pais, que gostam de menosprezar as dificuldades dos autistas leves. Uma vez, em um grupo de autismo, uma mãe me disse para ter um filho autista antes de querer opinar alguma coisa. Também já vi profissional dizer que Síndrome de Asperger não é autismo, mas apenas uma forma diferente de ser, que Asperger não é nada. O que essas pessoas não entendem é que o autismo é um espectro, e mais, que as dificuldades dos autistas não se limitam a não falar, não ir ao banheiro sozinho e interagir pouco. Só porque outro autista não tem as mesmas dificuldades que o filho autista severo de uma mãe, não quer dizer que ele tenha vida fácil. Na verdade, entra uma nova gama de problemas, que é a de não ter sua diferença respeitada ou reconhecida. Quanto mais leve o autismo, mas difícil o diagnóstico, mais difícil conseguir tratamento e ter direitos. Autista leve não tem vida fácil por ser leve. E não vá achando que um autista severo tem apenas as dificuldades típicas do autismo. Ele é uma pessoa também e, portanto, também quer ser respeitado como tal. Autista severo também tem sexualidade, por exemplo, além de problemas que qualquer pessoa pode ter. O problema é quando os pais olham para seu filho e veem apenas o atraso de fala, os comportamentos repetitivos e a dificuldade de interação. Enquanto no autista severo outras dificuldades ficam invisibilizadas, no leve elas são maiores do que a dificuldade de fala, por exemplo. E justamente por isso, algumas pessoas têm resistência para aceitar autismos que não são tão severos quanto o do próprio filho. Só porque uma pessoa tem estereotipias mais sutis, consegue falar, ir ao banheiro, ir à faculdade, trabalhar e se relacionar, não quer dizer que ela seja menos autista. Tudo isso é feito com dificuldade, ainda que não tão grande quanto a do autista severo. Só porque eu falo, não significa que eu saiba me expressar bem em todas as ocasiões. Só porque não grito, me jogo no chão ou me balanço em público, não quer dizer que eu não tenha dificuldades com estímulos ou mudanças, por exemplo. Posso tirar notas boas na escola, mas sou excluída pelos meus colegas, não participo das festinhas e, no colégio, só penso em ir para casa. Posso trabalhar, mas vou ter dificuldades com mudanças, com o barulho dos colegas, de entender as piadas dos outros adultos etc. Essas dificuldades são mais difíceis de ver no autista, mas elas existem e causam grande impacto na nossa vida.

No caso dos autistas não diagnosticados, são a depressão e a ansiedade que os fazem buscar ajuda. Essas comorbidades são comuns no autismo leve e devem ser tratadas o quanto antes. Ao receber o diagnóstico de autismo na fase adulta, a pessoa finalmente consegue entender toda a sua vida, que antes não fazia sentido, que parecia problemática e difícil sem motivo algum. Quando finalmente consegue aceitar sua própria condição, se entender melhor, o autista adulto se sente liberto de um grande peso.

Eu tentei suicídio três vezes com remédios e algumas com estrangulamento. As minhas primeiras duas tentativas foram antes do diagnóstico. Eu estava passando por muitos problemas e dificuldades, me sentia uma menina defeituosa e sem futuro. Desisti de tudo. Lembro de chegar chorando da escola no final da infância e na pré-adolescência porque eu não tinha amigos, porque tinham implicado comigo, porque eu não queria mais ir. Lembro de ter brigas com meus pais apenas porque entendi errado a expressão que eles usaram, gerando uma confusão desnecessária. Lembro de me mutilar com um objeto afiado para aliviar a dor de não conseguir falar com as pessoas, de não conseguir apresentar trabalhos, de não conseguir estudar para o vestibular por causa da ansiedade, por não conseguir me expressar de outra forma sobre as brigas dos meus pais. Lembro de chorar depois de voltar da faculdade por ter pego ônibus cheios e estar exausta com todos aqueles estímulos, por ter brigado com um amigo porque eu não conseguir falar para fazer um trabalho importante. Lembro de desejar estar morta todos os dias por sentir que não pertencia a lugar nenhum e nunca iria pertencer, por não querer encarar o que o futuro iria me trazer. Tudo isso poderia ter sido evitado se eu soubesse do meu diagnóstico.

Mesmo com o diagnóstico, precisamos ficar atentos aos jovens e adultos autistas leves. Eles recebem cobranças da sociedade iguais às dos neurotípicos, mas ainda possuem autismo. Além disso, são mais propensos a ser diagnosticados mais tardiamente ou até não ser diagnosticados. Com o CID-11, que passará a valer a partir de 2022, o autismo não será mais dividido em diferentes síndromes. Dessa forma, autismo será autismo. A diferença será no nível de prejuízo na linguagem funcional e presença ou não de deficiência intelectual. Muitos na comunidade autista que se enquadram no que hoje o CID-10 chama de Síndrome de Asperger estão muito ansiosos para essa mudança. Nos EUA, que usam o DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), já não existem mais os subtipos de autismo, como a Síndrome de Asperger. Agora o transtorno se divide em três níveis baseados na necessidade de apoio do indivíduo. Isso se fez necessário, pois os que possuíam Asperger não conseguiam tratamento custeado pelo governo. Isso é mais um exemplo de discriminação contra o autista leve. Por isso, devemos entender que autismo é autismo, e o que muda é a quantidade de apoio necessário para o funcionamento do autista na sociedade.

Mas como podemos diminuir o risco de suicídio entre os autistas leves? Bem, eu diria que conscientizar as pessoas sobre o ESPECTRO autista já é um bom começo. Fora isso, falar mais sobre saúde mental e parar de achar que depressão e ansiedade são frescuras, que saúde mental não importa. Os pais e cuidadores devem ficar atentos aos sinais de seus autistas leves, como pensamentos muito negativos e autodepreciativos, se ficam agressivos ou calados depois da escola (pode ser sinal de bullying), se se automutilam etc. Além de tudo isso, os profissionais de saúde devem procurar se capacitar para reconhecer os sinais de autismo leve não diagnosticado em um jovem ou em um adulto. Apenas a resposta do motivo de suas diferenças pode fazer toda a diferença na vida de uma pessoa. Outra coisa muito importante: conscientização sobre o bullying! Sofrer desse mal é muito comum entre os autistas leves, que não aparentam ser autistas, mas possuem diversas idiossincrasias. Precisamos ensinar nossos filhos a conviver e respeitar as diferenças e tornar a sociedade mais acessível aos autistas de todos os graus.

Por hoje acho que é isso! Espero que tenham gostado da matéria. Ficou meio grande, mas é um testo importante, então tudo bem. Não esqueçam de curtir a minha página no Facebook: A Menina Neurodiversa. Até a próxima e tchau tchau!

10 comentários sobre “Autismo e suicídio: quando o leve não é tão leve

  1. daniela nunes valadao 23 de julho de 2019 / 22:52

    Muito bom, gostei muito da página. Mas gostaria de pedir para que vocês colocassem a opção de compartilhar no wattszap, para que possamos compartilhar direto para as pessoas que precisam ter mais informações!
    Grata.

    Curtido por 1 pessoa

    • alimcs 23 de julho de 2019 / 23:02

      Boa noite. Para compartilhar no whatsapp é só copiar o link e colar lá.

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  2. Gisele de Souza 26 de julho de 2019 / 15:04

    Boa tarde.
    Muito boa a matéria! Gostei!

    Curtido por 1 pessoa

  3. Marisa 26 de julho de 2019 / 16:20

    Excelente, Alice.
    Uma análise importantíssima das dificuldades e do sofrimento de todos que sofrem discriminação.
    Você tem muito a contribuir para a compreensão do Autismo e para uma sociedade mais inclusiva.

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  4. Amanda O P Sales 26 de maio de 2020 / 08:45

    Bom dia

    Você é muito especial! Texto glorioso.

    Tenho um filho de 14 anos com espectro leve, eu não quis diagnosticar, para que ele não colocasse a culpa no espectro qndo as coisas saíssem errado. Mas hoje ele me falou que sentiu vontade de tirar a própria vida. Ele diz que se sente inútil, e eu afirmo 24/7 que ele é a utilidade da minha felicidade, sem ele não vivo, que a vida às vzs é difícil mas é um presente de Deus. Eu não sei se devo contar a ele sobre o autismo, mas confesso que seu texto me tocou profundamente. Não é sobre mim, é sobre ele. Assim deve ser, não é? Deus te abençoe menina linda de Jesus ❤️

    Vc tem Instagram?

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    • alimcs 26 de maio de 2020 / 17:12

      Muito obrigada! Tenho sim. É @a_menina_neurodiversa. Conte para ele sobre o autismo. É um direito dele saber. Pode contar comigo se precisar de apoio e dicas sobre como fazer isso! Estamos juntas. Vai dar tudo certo. 🙂

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  5. Samuel Moreira Afonso 30 de julho de 2020 / 12:20

    Oi Alice!

    Muito bom esse texto!!! Continue trabalhando e boa sorte na vida. Também tenho SA, stamos juntos!

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  6. Annie 14 de novembro de 2020 / 00:13

    Pensamentos suicidas são uma constante pra mim. Mesmo recebendo elogios, carinho, apoio e etc. só consigo me sentir triste e culpada (me sinto ingrata). Às vezes me sinto bem em ficar sozinha, gosto de sair também, porém com algodões nos ouvidos pra proteger do barulho 😅
    Mas não sei direito o que eu sinto, tem momenos no dia que me sinto util, pois amo plantas e plantei algodoeiros e agora estou germinando macieras! 🌱🌳
    Às vezes acho que sou boa demais pra esse mundo horrível e quero morrer 😱
    Às vezes gosto de uma pessoa mas sou obcecada por veganismo (estou em transição) e as pessoas “perdem o encanto” quando não são veganas! Eu gosto de qualquer gênero e etnia (romanticamente falando) tanto faz, mas fico chateada e tento evitar gostar quando sei que a pessoa não é pelo menos vegetariana como eu 😟
    Enfim, tenho autismo leve, ansiedade e outras coisas.

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