Desafios de uma autista na universidade

Descrição de imagem: mulher de beca preta e de costas segura diploma para o alto.

Ah, a faculdade…aquele lugar no qual sonhamos em entrar e, depois que entramos, parece que o sonho vira um pesadelo!! A gente só quer que acabe logo. Como podem ver, já é um período difícil na vida de muitas pessoas. Agora, pode ser mais ainda quando se é autista. O ambiente escolar no geral pode ser muito difícil para nós, mas, a faculdade muito mais, pois é um espaço bem maior e com menos atenção individualizada para cada caso específico. Hoje, decidi escrever sobre as minhas dificuldades enquanto universitária autista, afinal, somos uma minoria absoluta nesse espaço acadêmico.

Em primeiro lugar, a mudança da escola para a universidade já pode ser, em si, muito assustadora para qualquer pessoa. Mas, quando essa pessoa tem uma dificuldade particular com mudanças, o medo pode ser ainda mais intenso. O ambiente novo, o percurso novo, as pessoas novas, as matérias novas, professores novos, a rotina nova…tudo isso pode desestabilizar a pessoa autista. Por isso, antes de começar a faculdade, eu pesquisei tudo o que podia sobre meu curso, sobre o prédio em que ocorreriam minhas aulas, vi vídeos que mostrassem os ambientes…me preparei o máximo que pude para não ser pega totalmente de surpresa. O máximo que senti foi ansiedade, mas fiquei calma. No dia da matrícula, fui com meus pais visitar o meu prédio. Isso ajudou muito. No primeiro dia de aula, minha mãe fez o percurso comigo de ônibus para eu aprender o caminho. Isso também foi bem útil. Com isso, posso dizer que uma ótima estratégia para ajudar o autista com essa mudança tão brusca é tentar antecipar o que puder, ir ao local com antecedência, ensinar o caminho, pesquisar junto.

Depois que a faculdade começou, me deparei com meu segundo problema: a interação social. Eu já tinha poucos amigos na escola. Na verdade, eu tinha só uma amiga no ensino médio, mas, mesmo assim, passava os recreios sozinha. Pelo visto, essa amiga era só para fazer trabalhos. Na faculdade, me deparei com uma quantidade absurda de jovens que eu não conhecia e, observando como eram estranhos em relação ao que eu estava acostumada, eu senti, sinceramente, que preferia nem conhecer. Festas com bebida, vestimentas estranhas, falar alto, se atracar romanticamente…esse mundo estranho dos jovens/adultos da faculdade era, certamente, um em que eu não queria entrar. O meu mundo continuava sendo ver desenho e jogar, que que não combinava nada com o dos outros universitários. Me senti muito deslocada. Será que esse ambiente é para mim mesmo? Será que pertenço a este lugar? Como vou sobreviver aqui por, pelo menos, quatro anos? Felizmente, depois de alguns dias, consegui fazer um amigo, e esse amigo depois me trouxe mais uma amiga. Hoje formamos um trio de amizade. Pelo menos consegui arrumar dois amigos, mas não graças à minha própria iniciativa, como sempre. Tive sorte. Em relação aos professores, a interação não é tão boa. Ainda tenho muita dificuldade de tirar dúvidas em sala e ir falar com eles.

Depois de esbarrar com a dificuldade da mudança de rotina e de interação social, foi a vez da hipersensibilidade sensorial. Os jovens lá da faculdade falam muito alto e, como são muitos, ocorrem muitos barulhos ao mesmo tempo. Eu fico desorganizada, incomodada. Às vezes, pode me machucar, me irritar. Não é só o barulho: as luzes também. Algumas vezes, já aconteceu de eu não conseguir olhar para o professor durante a aula por causa das luzes do teto. Deixei de prestar atenção no que ele estava falando. Outro problema não menos importante, na verdade, pior que o das luzes, é o transporte público que pego para ir à faculdade. Eu pego dois ou três ônibus para ir e dois para voltar. Pode ocorrer de pegar um muito cheio de pessoas e eu ficar em pé grudada nelas. Tenho muita sensibilidade tátil. Eu já escrevi aqui no site sobre o direito ao assento preferencial por causa da dificuldade do autista com o transporte público, mas acontece que eu só descobri meu diagnóstico este ano e, além disso, ninguém vai me ceder lugar, já que autismo não é visível no aspecto físico das pessoas. Eu teria que provar que sou autista e, sinceramente, isso deve ser muito cansativo. Não tenho essa coragem ainda. Prefiro me preservar. Já perdi a conta das vezes que cheguei da faculdade chorando e tive crise por causa não só da exaustão da faculdade, mas do transporte público lotado. É algo muito complicado. A solução mais recente que encontramos foi minha mãe me permitir voltar para casa de uber quando a aula termina muito tarde e o transporte costuma ficar muito cheio, mas isso causa muitos gastos e nós não somos ricos para ter esse luxo. Me sinto culpada por fazer minha mãe gastar esse dinheiro por minha causa. Sei que ela gasta com amor e prazer, mas mesmo assim…

Outro problemão que enfrento na faculdade é a dificuldade em dar atenção ao que não me interessa. Não são todas as matérias que tenho que me agradam. Muitas delas são completamente desinteressantes para mim. Isso me faz não conseguir prestar atenção nas aulas e não conseguir me concentrar para fazer trabalhos ou estudar para as provas. Acabo não indo tão bem quanto sei que poderia ter ido. Isso me frustra, pois não gosto de tirar notas abaixo de 9. Sou muito exigente comigo mesma e isso é um problema. Tenho dificuldade em respeitar minhas limitações. Aliás, falando em limitações, outra coisa que me atrapalha muito para fazer trabalhos e estudar é algo que somente há pouco tempo descobri que existia: disfunção executiva. Aparentemente, isso afeta nossa capacidade de organização, planejamento e execução de tarefas, entre outras coisas. É muito comum em diversos transtornos mentais, como autismo e TDAH. Eu sempre peno muito para fazer trabalhos e estudar. Me distraio, não me planejo, fico desorganizada…já aconteceu muitas vezes de eu ficar sem dormir, terminar o trabalho e ir direto para a faculdade entregar, sem ter dormido. Além disso, como já escrevi aqui para o site, matérias muito abstratas, como literatura, são muito difíceis de entender para mim. Como meu pensamento é muito concreto, tendo a entender muito melhor conceitos concretos. Quando chega ao nível da abstração, e o professor começa a, como meus amigos dizem, viajar, eu me sinto perdida. Sinto que não consigo alcançar o raciocínio proposto e acabo não entendendo nada. Nesses casos, preciso recorrer aos meus amigos ou a artigos na internet, de preferência os que se utilizam de uma linguagem bem concreta.

Agora, preciso mencionar um problema que ainda me afeta muito, mas que me afetava muito mais no início da graduação e me causou muita tristeza. Trata-se da apresentação de trabalhos. É fato que eu me comunico muito bem escrevendo, mas, quando se trata de falar, não me saio tão bem assim. Me atrapalho com as palavras, esqueço o que ia dizer, tenho problemas de pronúncia, não consigo falar alto etc. É terrível. No primeiro período, tive que apresentar o meu primeiro seminário. Era meu aniversário, e era o pior presente da minha vida. Eu já estava nervosa de falar na frente da turma e da professora, mas tudo piorou quando o nervosismo de falar em público se aliou à dificuldade com mudanças inesperadas. A apresentação, que ia ser no auditório, passou a ser em outra sala, completamente diferente e bem menor. Fora isso, houve imprevistos durante a nossa apresentação. E aí, quando chegou a minha vez de falar, eu falei por uns 20 segundos e depois não consegui mais. Travei. Sentia que ia infartar tamanha a força com que meu coração batia. Me senti encurralada em um pesadelo terrível. Depois da apresentação, a professora conversou com nosso grupo e me aconselhou a procurar ajuda. Eu já fazia terapia, mas não estava surtindo efeito. Eu não tinha o diagnóstico ainda. Fiquei devastada, me sentindo uma fracassada defeituosa. Fui me isolar em um canto solitário do meu prédio e fiquei chorando. Pedi para os meus pais me buscarem porque não me sentia em condições de voltar de ônibus sozinha. Sorte que tinha essa opção.

Foi no segundo período da faculdade que eu tive a minha primeira tentativa de suicídio. No terceiro, tive a segunda. Foram três no total. Na verdade, foram três com remédios e algumas outras tentativas de auto-estrangulamento. É algo muito difícil de contar, mas necessário. A população autista possui um risco de suicídio expressivamente maior do que a população em geral. Isso é um grande problema. Nas minhas duas primeiras tentativas, eu não sabia o que eu tinha. Ninguém me dava uma resposta para as minhas dificuldades e diferenças. Eu me sentia com defeito, me sentia uma fracassada sem esperança de futuro. Pensava em morte o tempo todo, voltava para casa com planos de me matar. Na verdade, eu já pensava em morte frequentemente desde o ensino médio. Foi uma época muito difícil. Muita solidão e muitos problemas familiares. Problemas graves dentro de casa. Eu não tive qualquer auxílio seja na escola seja na faculdade. Como eu não tinha um laudo, ninguém nem cogitava me ajudar. Parece que só se oferece ajuda a quem tem um rótulo para justificar suas dificuldades. Como se eu me isolar na escola não fosse motivo o suficiente. Como se eu chorar em casa porque não tinha amigos ou porque sofria bullying não fosse motivo o suficiente. Somente uma professora, no oitavo ano do ensino fundamental, chamou minha mãe para conversar por eu não falar com ela em sala. Mas o pensamento era simplesmente “é que ela é muito introvertida” e fim. O colégio em que estudei conta com um núcleo de auxílio para alunos com necessidades especiais. Uma crítica que faço é que só atendem quem tem um diagnóstico. É muito mais fácil assim do que observar o aluno na escola, do que conversar com os pais e oferecer ajuda no ambiente escolar. Na faculdade é ainda pior, é cada um por si e, ainda por cima, uma competição de quem consegue a vaga disso ou daquilo.

Estou prestes a terminar o quinto período da faculdade de Letras e, como não podia ser diferente, já chorei e quase tive crise por não conseguir lidar com tantos trabalhos, por me sentir sobrecarregada. É um ambiente com exigências massantes. Ainda me questiono se é lugar para mim. Felizmente, este semestre, pela primeira vez, uma professora fez uma adaptação para mim. Ela ficou sabendo do meu diagnóstico pelo meu amigo em uma das aulas. Como eu mandei um e-mail para ela avisando da minha situação, ela me ofereceu isenção no trabalho final. Dessa forma, fiquei livre de mais um trabalho. Foi uma tremenda ajuda, e sou muito grata a essa professora. Muito mesmo. Mas, também, essa professora é psicóloga e tem um olhar aguçado para alunos neurodiversos ou diversos das mais diferentes formas. A maioria dos professores não tem esse conhecimento. Muitos têm o pensamento de que o aluno que se vire. Até mesmo quando sabem que é autista. Há alguns dias, ouvi sobre um caso de uma professora que disse que não pode fazer nada por uma aluna autista que vai reprovar na mesma disciplina acho que pela terceira vez. Como podemos sobreviver assim? O que o nosso futuro aguarda? Mais limites? Quando a universidade vai ser, de fato, para todos?

Acho que me alonguei um pouco, mas não me arrependo de nada do que escrevi. Espero que tenha achado esta matéria útil e informativa de alguma forma. Deixe um comentário e curta a minha página no Facebook A Menina Neurodiversa. Até a próxima e tchau tchau!

14 comentários sobre “Desafios de uma autista na universidade

  1. Ana Paula 6 de julho de 2019 / 16:20

    Nossa, me identifiquei com muita coisa! Estou na minha segunda graduação. Na primeira eu não sabia que era Asperger, e foi um dos períodos mais estressantes e horríveis da minha vida. Nem sei como consegui terminar… Agora, estudando pela segunda vez e sabendo de minhas diferenças e de como me cuidar, estou conseguindo aproveitar meus estudos e sou grata por ter minha vida de volta. Parabéns pelo texto. 😘❤🌹

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  2. Kátia Prado 6 de julho de 2019 / 17:07

    Acho ótimo vc relatar suas experiências durante o período da faculdade. Muitos jovens vão se identificar e ao mesmo tempo descobrir que, apesar das dificuldades, também são capazes de seguir em frente. Por outro lado, colegas e professores podem aprender um pouco sobre o que pode lhe causar sofrimento e, de repente, com pequenas mudanças, tornem o ambiente mais acolhedor e seguro, não só para vc mas para qualquer pessoa com sensibilidade semelhante.
    Continue escrevendo, ensine, mostre o que causa sofrimento e peça ajuda aos amigos quando não conseguir falar. Precisamos aprender a respeitar e incluir, mas também precisamos conhecer.
    Beijos!

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  3. Antonia 6 de julho de 2019 / 21:40

    Olá sou uma mãe de uma autista atípica…me identifiquei muito com sua história.. tivemos o diagnóstico tbm em 2017 depois de muitas buscas em vão…hj ela tbm está na segunda graduação e fax Letras tbm como vc…a primeira foi muito traumante por não termos um diagnóstico escrito e carimbado…a faculdade na vdd a pessoa que representava essa faculdade não quis nis ajudar por não termos um laudo…absurdo…enfim ela conseguiu terminar a faculdade e aos poucos fomos colando os caquinhos…
    Aí o que nos ajudou nessa segunda graduação é que fui até a coordenação do curso e falamos a respeito das dificuldades de interação social…as dificuldades com os trabalhos em grupo… e a coordenadora se colocou muito disposta a nós ajudar…e assumir e falar sobre o autismo ajudou muito a minha filha aceitar esse diagnóstico…enfim….vcs são muito fortes muito mais do que pensam…e tenho fé que o autismo vai receber o seu devido respeito.
    Força continue firme sua jornada..torço por vcs. Bjs

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  4. Débora Rossini 8 de julho de 2019 / 13:54

    Muito interessante seu relato!
    Mas, se realmente você gosta desse curso, já pensou na possibilidade de fazer faculdade à distância? Realmente, a sobrecarga sensorial e os desafios do ambiente cheio de pessoas podem deixá-la tão cansada a ponto de não lhe sobrar energia suficiente para se concentrar em provas e trabalhos (que, por si só, demandam uma grande dose de energia mental…) O que acha? Talvez isso possa até ajudá-la a melhorar seu rendimento. Que tal? Mas é apenas uma sugestão, caso você goste!

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  5. Marta Oliveira 4 de agosto de 2019 / 21:50

    Vontade de te abraçar Alice! Não gostava de notas abaixo de 8,00, agora eu não consigo tirar nem 5,00. Você consegue, você é forte!

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    • alimcs 4 de agosto de 2019 / 21:51

      Vai dar tudo certo! Nós vamos conseguir! Você é forte também 🙂

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  6. shirley asperger 8 de junho de 2020 / 15:25

    Fiz inscrição para o enem,e para o vestibular e desisti por que entrei em pânico,ir sozinha de ônibus,sem ninguém que conhecesse
    Faculdade presencial só na cidade vizinha,a distãncia só pagando no mínimo 300 reais por mês,tenho BPC mas isso é para o meu sustento

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    • Marta de Fátima Severiano de Oliveira 8 de junho de 2020 / 15:29

      Eu entrava em pânico de andar na rua e no ônibus depois de presenciar alguns assaltos.

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      • shirley asperger 9 de junho de 2020 / 16:03

        Nunca vi isso dentro de ônibus,mas eu sou autista dependente da mãe e tenho medo de ir de ônibus sozinha sem ninguém que eu conheça

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      • shirley asperger 9 de junho de 2020 / 16:04

        Nas vezes que eu andei de ônibus eu ia com o pessoal da escola ou do projeto PISD do CVT quixeré,por isso não tinha medo

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  7. shirley asperger 5 de julho de 2020 / 19:32

    Pensei em desistir ao ler seu post mas outra pessoa que nem conheço me encorajou a tentar(a pessoa é de um aplicativo de diário) e não poss fazer faculdade a distãncia aqui por que não tenho computador, e aqui as faculdades online são pagas acima de 200 reais,não temos condições de pagar tudo isso,e também não sei se me daria bem com rotina de aulas online de faculdade
    Por isso prefiro a presencial,mas nesse módulo só existe em outra cidade vizinha

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