Passarinha: um livro sobre uma menina autista e sua busca por um desfecho

Descrição de imagem: capa do livro Passarinha, com uma menina em posição fetal em tons de preto dentro de uma cesta que parece um ninho e a palavra “Passarinha” em branco.

A obra Passarinha, de Kathryn Erskine, é narrada a partir do ponto de vista de Caitlin, uma menina de 10 anos que tem Síndrome de Asperger. Para ela, o seu pensamento concreto transforma o mundo em preto e branco, certo e errado, isso ou aquilo. Muitas vezes sincera ou literal demais, a jovem tem dificuldade em fazer amigos e, por isso, não gosta da hora do recreio. Ela vive apenas com o pai, pois a mãe falecera anos atrás por causa de um câncer. Não apenas isso: seu irmão mais velho perdeu recentemente a vida em um tiroteio dentro da escola. Devon era o único que entendia Caitlin, que a acalmava e a aconselhava, a ajudava a lidar com as situações. Agora sem o irmão e com o pai completamente abalado e de luto, a menina precisa encontrar um desfecho para a situação.

É curioso notar que a personagem não gosta de ser considerada autista. Ela não aceita que tem a mesma condição que seu colega William H., um autista clássico que tem comportamentos diferentes, como comer terra e fugir dos professores. Para ela, Asperger não é autismo. Como poderia ela, que desenha como profissional e tem um extenso vocabulário, ter esse tal de autismo? Essa é uma questão interessante no livro para pensarmos o preconceito que os chamados “autistas de baixo funcionamento” sofrem, pois têm seu potencial ignorado e suas dificuldades realçadas. Em um mundo em que o autismo é visto como uma doença, algo a ser curado, uma condição de alguém que sofre preconceito e é tratado como incapaz, quem é que iria querer ser autista, não é mesmo?

Devon era escoteiro e, antes de partir, havia começado seu projeto de construir um armário. Com sua morte, o projeto ficou inacabado, e seu pai o cobriu com um pano. O choro era iminente toda vez que Caitlin tentava conversar sobre o irmão, principalmente quando ela se referia a ele como “Devon-que-morreu”, para tentar mostrar ao pai que sabe de seu falecimento. A aparente insensibilidade da filha, bem característico da inadequação social de sua síndrome, torna-se um gatilho para ele.

Felizmente, a menina conta com os conselhos da sua psicóloga escolar, a sra. Brook. Ela incentiva Caitlin a tentar fazer amigos, como quando, por exemplo, dá um recreio a mais para a jovem no intervalo das crianças menores. Acontece que, quando se sente ansiosa, Caitlin sente algo que ela chama de “sensação de recreio” e começa a mastigar a manga de seu casaco. A pequena aluna, assim como a maioria das pessoas no espectro autista, apresenta estereotipias, como mastigar a manga e abanar as mãos. Erskine não precisou ir muito longe para fazer sua pesquisa de campo sobre a síndrome, pois sua própria filha foi diagnosticada com Síndrome de Asperger em 2007.

De forma simbólica, a autora não apenas representa o pensamento “preto e branco” da personagem principal na sua interação com os outros, pois a jovem Caitlin jamais colore os seus desenhos. Quando as cores de misturam, a depender da que predomina, o resultado nem sempre é previsível. A dificuldade com a imprevisibilidade faz parte da Síndrome de Asperger da menina, e é retratada por Erskine de forma bem sensível em sua obra.

A evolução de Caitlin é notável ao longo da leitura. Não vou entrar em detalhes para não estragar a experiência de quem pretende ler o livro, mas pode-se dizer que, com o passar da história, tanto a Caitlin quanto seu pai e, até, toda a cidade, passam por uma grande evolução, fruto do desfecho encontrado por nada mais nada menos que a própria menina.

O título da obra é uma referência ao clássico americano To Kill a Mockingbird, do vencedor do prêmio Pulitzer, o escritor Harper Lee. Em português, a obra foi traduzida para O Sol É Para Todos. Em vários momentos do livro de Erskine, vemos referências ao de Harper Lee, como o apelido que Devon dá a Caitlin: “Scout” (escoteira em inglês), que é o nome de uma das personagens de O Sol É Para Todos. Inclusive, a própria obra é citada em Passarinha, cujo título original é Mockingbird.

Para resumir, Passarinha, de Kathryn Erskine, é uma obra linda e sensível, protagonizada por uma criança com Síndrome de Asperger que tem muito a ensinar a todos nós leitores. Certamente, você se apaixonará por Caitlin e se emocionará com sua trajetória em busca de um desfecho para história do assassinato de seu irmão. Através do olhar de uma autista, você aprenderá uma nova forma de ver o mundo e, quem sabe, irá Captar O Sentido.

Texto por Alice Casimiro.

Facebook: A Menina Neurodiversa.

Autismo e suicídio: quando o leve não é tão leve

Descrição de imagem: Em tons de preto, pessoa sentada abraçando os joelhos.

Estive ausente por um tempo porque recebi uma visita muito importante aqui em casa durante uma semana inteira. Foi o meu namorado! Nós nos conhecemos pela internet e nos vimos pessoalmente pela primeira vez! Foi maravilhoso! Mal posso esperar para vê-lo novamente. Agora ao que interessa:

Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), cerca de 800 mil pessoas tiram a própria vida anualmente. E o número de tentativas de suicídio é ainda maior. Entre os autistas leves, o risco de suicídio é nove vezes maior do que na população sem autismo. Segundo o site autimates, cerca de 28% dos autistas leves já pensaram ou pensam constantemente em tirar a própria vida. Os números são alarmantes.

A ansiedade, o sentimento de não pertencimento, o bullying, a solidão que parece eterna, entre outras coisas, são fatores de risco para os pensamentos de morte entre aqueles que se enquadram na parte mais branda do espectro autista. Justamente por sermos mais leves e, por tanto, aparentarmos menos ter a condição, somos cobrados para sermos iguais às outras pessoas: ter vários amigos, ir a festas, entrar e ter sucesso no mercado de trabalho, não fazer movimentos considerados estranhos, falar sobre e compreender os sentimentos, fazer parte de grupos sociais distintos, sair de casa, ter um namorado ou namorada, não ficar falando apenas do mesmo assunto ou ser desajeitado ao abordar uma pessoa etc. Muitas são as cobranças e poucos são os recursos para ajudar, principalmente se o autismo for tardiamente diagnosticado. Imaginem só crescer e estar cada vez mais ciente das suas diferenças, mas não ter uma explicação para elas! Foi isso que aconteceu no meu caso. O resultado? Cresci achando que tinha algum defeito, que era burra, inútil, imprestável, que jamais seria como as outras pessoas. Isso não faz bem para ninguém.

Recentemente, tivemos a triste notícia de um jovem autista de 17 anos que se suicidou após sofrer bullying constante. O rapaz tinha medo de como seria sua vida depois do ensino médio. O resultado de todo o seu sofrimento foi um vídeo de cinco minutos que ele gravou para explicar sobre sua partida e, em seguida, a tirada de sua própria vida. Casos como esse não são raros. A sociedade parece ter pouca tolerância ao diferente, tanto é que é muito fácil encontrar pessoas pertencentes a algum grupo minoritário que já tenham sofrido algum tipo de preconceito por causa disso. Pela minha convivência dentro da comunidade autista, percebo que é muito comum o pensamento de morte e, até mesmo, a própria tentativa de suicídio. Muito comumente vejo que respostas como “eu também” a afirmativas como “eu já tentei suicídio” aparecem nos grupos de autistas dos quais faço parte. É uma realidade de partir o coração.

O preconceito ao autista leve não vem apenas de quem não convive com o autismo. Existem pessoas que convivem com autistas mais severos, como pais, que gostam de menosprezar as dificuldades dos autistas leves. Uma vez, em um grupo de autismo, uma mãe me disse para ter um filho autista antes de querer opinar alguma coisa. Também já vi profissional dizer que Síndrome de Asperger não é autismo, mas apenas uma forma diferente de ser, que Asperger não é nada. O que essas pessoas não entendem é que o autismo é um espectro, e mais, que as dificuldades dos autistas não se limitam a não falar, não ir ao banheiro sozinho e interagir pouco. Só porque outro autista não tem as mesmas dificuldades que o filho autista severo de uma mãe, não quer dizer que ele tenha vida fácil. Na verdade, entra uma nova gama de problemas, que é a de não ter sua diferença respeitada ou reconhecida. Quanto mais leve o autismo, mas difícil o diagnóstico, mais difícil conseguir tratamento e ter direitos. Autista leve não tem vida fácil por ser leve. E não vá achando que um autista severo tem apenas as dificuldades típicas do autismo. Ele é uma pessoa também e, portanto, também quer ser respeitado como tal. Autista severo também tem sexualidade, por exemplo, além de problemas que qualquer pessoa pode ter. O problema é quando os pais olham para seu filho e veem apenas o atraso de fala, os comportamentos repetitivos e a dificuldade de interação. Enquanto no autista severo outras dificuldades ficam invisibilizadas, no leve elas são maiores do que a dificuldade de fala, por exemplo. E justamente por isso, algumas pessoas têm resistência para aceitar autismos que não são tão severos quanto o do próprio filho. Só porque uma pessoa tem estereotipias mais sutis, consegue falar, ir ao banheiro, ir à faculdade, trabalhar e se relacionar, não quer dizer que ela seja menos autista. Tudo isso é feito com dificuldade, ainda que não tão grande quanto a do autista severo. Só porque eu falo, não significa que eu saiba me expressar bem em todas as ocasiões. Só porque não grito, me jogo no chão ou me balanço em público, não quer dizer que eu não tenha dificuldades com estímulos ou mudanças, por exemplo. Posso tirar notas boas na escola, mas sou excluída pelos meus colegas, não participo das festinhas e, no colégio, só penso em ir para casa. Posso trabalhar, mas vou ter dificuldades com mudanças, com o barulho dos colegas, de entender as piadas dos outros adultos etc. Essas dificuldades são mais difíceis de ver no autista, mas elas existem e causam grande impacto na nossa vida.

No caso dos autistas não diagnosticados, são a depressão e a ansiedade que os fazem buscar ajuda. Essas comorbidades são comuns no autismo leve e devem ser tratadas o quanto antes. Ao receber o diagnóstico de autismo na fase adulta, a pessoa finalmente consegue entender toda a sua vida, que antes não fazia sentido, que parecia problemática e difícil sem motivo algum. Quando finalmente consegue aceitar sua própria condição, se entender melhor, o autista adulto se sente liberto de um grande peso.

Eu tentei suicídio três vezes com remédios e algumas com estrangulamento. As minhas primeiras duas tentativas foram antes do diagnóstico. Eu estava passando por muitos problemas e dificuldades, me sentia uma menina defeituosa e sem futuro. Desisti de tudo. Lembro de chegar chorando da escola no final da infância e na pré-adolescência porque eu não tinha amigos, porque tinham implicado comigo, porque eu não queria mais ir. Lembro de ter brigas com meus pais apenas porque entendi errado a expressão que eles usaram, gerando uma confusão desnecessária. Lembro de me mutilar com um objeto afiado para aliviar a dor de não conseguir falar com as pessoas, de não conseguir apresentar trabalhos, de não conseguir estudar para o vestibular por causa da ansiedade, por não conseguir me expressar de outra forma sobre as brigas dos meus pais. Lembro de chorar depois de voltar da faculdade por ter pego ônibus cheios e estar exausta com todos aqueles estímulos, por ter brigado com um amigo porque eu não conseguir falar para fazer um trabalho importante. Lembro de desejar estar morta todos os dias por sentir que não pertencia a lugar nenhum e nunca iria pertencer, por não querer encarar o que o futuro iria me trazer. Tudo isso poderia ter sido evitado se eu soubesse do meu diagnóstico.

Mesmo com o diagnóstico, precisamos ficar atentos aos jovens e adultos autistas leves. Eles recebem cobranças da sociedade iguais às dos neurotípicos, mas ainda possuem autismo. Além disso, são mais propensos a ser diagnosticados mais tardiamente ou até não ser diagnosticados. Com o CID-11, que passará a valer a partir de 2022, o autismo não será mais dividido em diferentes síndromes. Dessa forma, autismo será autismo. A diferença será no nível de prejuízo na linguagem funcional e presença ou não de deficiência intelectual. Muitos na comunidade autista que se enquadram no que hoje o CID-10 chama de Síndrome de Asperger estão muito ansiosos para essa mudança. Nos EUA, que usam o DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), já não existem mais os subtipos de autismo, como a Síndrome de Asperger. Agora o transtorno se divide em três níveis baseados na necessidade de apoio do indivíduo. Isso se fez necessário, pois os que possuíam Asperger não conseguiam tratamento custeado pelo governo. Isso é mais um exemplo de discriminação contra o autista leve. Por isso, devemos entender que autismo é autismo, e o que muda é a quantidade de apoio necessário para o funcionamento do autista na sociedade.

Mas como podemos diminuir o risco de suicídio entre os autistas leves? Bem, eu diria que conscientizar as pessoas sobre o ESPECTRO autista já é um bom começo. Fora isso, falar mais sobre saúde mental e parar de achar que depressão e ansiedade são frescuras, que saúde mental não importa. Os pais e cuidadores devem ficar atentos aos sinais de seus autistas leves, como pensamentos muito negativos e autodepreciativos, se ficam agressivos ou calados depois da escola (pode ser sinal de bullying), se se automutilam etc. Além de tudo isso, os profissionais de saúde devem procurar se capacitar para reconhecer os sinais de autismo leve não diagnosticado em um jovem ou em um adulto. Apenas a resposta do motivo de suas diferenças pode fazer toda a diferença na vida de uma pessoa. Outra coisa muito importante: conscientização sobre o bullying! Sofrer desse mal é muito comum entre os autistas leves, que não aparentam ser autistas, mas possuem diversas idiossincrasias. Precisamos ensinar nossos filhos a conviver e respeitar as diferenças e tornar a sociedade mais acessível aos autistas de todos os graus.

Por hoje acho que é isso! Espero que tenham gostado da matéria. Ficou meio grande, mas é um testo importante, então tudo bem. Não esqueçam de curtir a minha página no Facebook: A Menina Neurodiversa. Até a próxima e tchau tchau!

Desafios de uma autista na universidade

Descrição de imagem: mulher de beca preta e de costas segura diploma para o alto.

Ah, a faculdade…aquele lugar no qual sonhamos em entrar e, depois que entramos, parece que o sonho vira um pesadelo!! A gente só quer que acabe logo. Como podem ver, já é um período difícil na vida de muitas pessoas. Agora, pode ser mais ainda quando se é autista. O ambiente escolar no geral pode ser muito difícil para nós, mas, a faculdade muito mais, pois é um espaço bem maior e com menos atenção individualizada para cada caso específico. Hoje, decidi escrever sobre as minhas dificuldades enquanto universitária autista, afinal, somos uma minoria absoluta nesse espaço acadêmico.

Em primeiro lugar, a mudança da escola para a universidade já pode ser, em si, muito assustadora para qualquer pessoa. Mas, quando essa pessoa tem uma dificuldade particular com mudanças, o medo pode ser ainda mais intenso. O ambiente novo, o percurso novo, as pessoas novas, as matérias novas, professores novos, a rotina nova…tudo isso pode desestabilizar a pessoa autista. Por isso, antes de começar a faculdade, eu pesquisei tudo o que podia sobre meu curso, sobre o prédio em que ocorreriam minhas aulas, vi vídeos que mostrassem os ambientes…me preparei o máximo que pude para não ser pega totalmente de surpresa. O máximo que senti foi ansiedade, mas fiquei calma. No dia da matrícula, fui com meus pais visitar o meu prédio. Isso ajudou muito. No primeiro dia de aula, minha mãe fez o percurso comigo de ônibus para eu aprender o caminho. Isso também foi bem útil. Com isso, posso dizer que uma ótima estratégia para ajudar o autista com essa mudança tão brusca é tentar antecipar o que puder, ir ao local com antecedência, ensinar o caminho, pesquisar junto.

Depois que a faculdade começou, me deparei com meu segundo problema: a interação social. Eu já tinha poucos amigos na escola. Na verdade, eu tinha só uma amiga no ensino médio, mas, mesmo assim, passava os recreios sozinha. Pelo visto, essa amiga era só para fazer trabalhos. Na faculdade, me deparei com uma quantidade absurda de jovens que eu não conhecia e, observando como eram estranhos em relação ao que eu estava acostumada, eu senti, sinceramente, que preferia nem conhecer. Festas com bebida, vestimentas estranhas, falar alto, se atracar romanticamente…esse mundo estranho dos jovens/adultos da faculdade era, certamente, um em que eu não queria entrar. O meu mundo continuava sendo ver desenho e jogar, que que não combinava nada com o dos outros universitários. Me senti muito deslocada. Será que esse ambiente é para mim mesmo? Será que pertenço a este lugar? Como vou sobreviver aqui por, pelo menos, quatro anos? Felizmente, depois de alguns dias, consegui fazer um amigo, e esse amigo depois me trouxe mais uma amiga. Hoje formamos um trio de amizade. Pelo menos consegui arrumar dois amigos, mas não graças à minha própria iniciativa, como sempre. Tive sorte. Em relação aos professores, a interação não é tão boa. Ainda tenho muita dificuldade de tirar dúvidas em sala e ir falar com eles.

Depois de esbarrar com a dificuldade da mudança de rotina e de interação social, foi a vez da hipersensibilidade sensorial. Os jovens lá da faculdade falam muito alto e, como são muitos, ocorrem muitos barulhos ao mesmo tempo. Eu fico desorganizada, incomodada. Às vezes, pode me machucar, me irritar. Não é só o barulho: as luzes também. Algumas vezes, já aconteceu de eu não conseguir olhar para o professor durante a aula por causa das luzes do teto. Deixei de prestar atenção no que ele estava falando. Outro problema não menos importante, na verdade, pior que o das luzes, é o transporte público que pego para ir à faculdade. Eu pego dois ou três ônibus para ir e dois para voltar. Pode ocorrer de pegar um muito cheio de pessoas e eu ficar em pé grudada nelas. Tenho muita sensibilidade tátil. Eu já escrevi aqui no site sobre o direito ao assento preferencial por causa da dificuldade do autista com o transporte público, mas acontece que eu só descobri meu diagnóstico este ano e, além disso, ninguém vai me ceder lugar, já que autismo não é visível no aspecto físico das pessoas. Eu teria que provar que sou autista e, sinceramente, isso deve ser muito cansativo. Não tenho essa coragem ainda. Prefiro me preservar. Já perdi a conta das vezes que cheguei da faculdade chorando e tive crise por causa não só da exaustão da faculdade, mas do transporte público lotado. É algo muito complicado. A solução mais recente que encontramos foi minha mãe me permitir voltar para casa de uber quando a aula termina muito tarde e o transporte costuma ficar muito cheio, mas isso causa muitos gastos e nós não somos ricos para ter esse luxo. Me sinto culpada por fazer minha mãe gastar esse dinheiro por minha causa. Sei que ela gasta com amor e prazer, mas mesmo assim…

Outro problemão que enfrento na faculdade é a dificuldade em dar atenção ao que não me interessa. Não são todas as matérias que tenho que me agradam. Muitas delas são completamente desinteressantes para mim. Isso me faz não conseguir prestar atenção nas aulas e não conseguir me concentrar para fazer trabalhos ou estudar para as provas. Acabo não indo tão bem quanto sei que poderia ter ido. Isso me frustra, pois não gosto de tirar notas abaixo de 9. Sou muito exigente comigo mesma e isso é um problema. Tenho dificuldade em respeitar minhas limitações. Aliás, falando em limitações, outra coisa que me atrapalha muito para fazer trabalhos e estudar é algo que somente há pouco tempo descobri que existia: disfunção executiva. Aparentemente, isso afeta nossa capacidade de organização, planejamento e execução de tarefas, entre outras coisas. É muito comum em diversos transtornos mentais, como autismo e TDAH. Eu sempre peno muito para fazer trabalhos e estudar. Me distraio, não me planejo, fico desorganizada…já aconteceu muitas vezes de eu ficar sem dormir, terminar o trabalho e ir direto para a faculdade entregar, sem ter dormido. Além disso, como já escrevi aqui para o site, matérias muito abstratas, como literatura, são muito difíceis de entender para mim. Como meu pensamento é muito concreto, tendo a entender muito melhor conceitos concretos. Quando chega ao nível da abstração, e o professor começa a, como meus amigos dizem, viajar, eu me sinto perdida. Sinto que não consigo alcançar o raciocínio proposto e acabo não entendendo nada. Nesses casos, preciso recorrer aos meus amigos ou a artigos na internet, de preferência os que se utilizam de uma linguagem bem concreta.

Agora, preciso mencionar um problema que ainda me afeta muito, mas que me afetava muito mais no início da graduação e me causou muita tristeza. Trata-se da apresentação de trabalhos. É fato que eu me comunico muito bem escrevendo, mas, quando se trata de falar, não me saio tão bem assim. Me atrapalho com as palavras, esqueço o que ia dizer, tenho problemas de pronúncia, não consigo falar alto etc. É terrível. No primeiro período, tive que apresentar o meu primeiro seminário. Era meu aniversário, e era o pior presente da minha vida. Eu já estava nervosa de falar na frente da turma e da professora, mas tudo piorou quando o nervosismo de falar em público se aliou à dificuldade com mudanças inesperadas. A apresentação, que ia ser no auditório, passou a ser em outra sala, completamente diferente e bem menor. Fora isso, houve imprevistos durante a nossa apresentação. E aí, quando chegou a minha vez de falar, eu falei por uns 20 segundos e depois não consegui mais. Travei. Sentia que ia infartar tamanha a força com que meu coração batia. Me senti encurralada em um pesadelo terrível. Depois da apresentação, a professora conversou com nosso grupo e me aconselhou a procurar ajuda. Eu já fazia terapia, mas não estava surtindo efeito. Eu não tinha o diagnóstico ainda. Fiquei devastada, me sentindo uma fracassada defeituosa. Fui me isolar em um canto solitário do meu prédio e fiquei chorando. Pedi para os meus pais me buscarem porque não me sentia em condições de voltar de ônibus sozinha. Sorte que tinha essa opção.

Foi no segundo período da faculdade que eu tive a minha primeira tentativa de suicídio. No terceiro, tive a segunda. Foram três no total. Na verdade, foram três com remédios e algumas outras tentativas de auto-estrangulamento. É algo muito difícil de contar, mas necessário. A população autista possui um risco de suicídio expressivamente maior do que a população em geral. Isso é um grande problema. Nas minhas duas primeiras tentativas, eu não sabia o que eu tinha. Ninguém me dava uma resposta para as minhas dificuldades e diferenças. Eu me sentia com defeito, me sentia uma fracassada sem esperança de futuro. Pensava em morte o tempo todo, voltava para casa com planos de me matar. Na verdade, eu já pensava em morte frequentemente desde o ensino médio. Foi uma época muito difícil. Muita solidão e muitos problemas familiares. Problemas graves dentro de casa. Eu não tive qualquer auxílio seja na escola seja na faculdade. Como eu não tinha um laudo, ninguém nem cogitava me ajudar. Parece que só se oferece ajuda a quem tem um rótulo para justificar suas dificuldades. Como se eu me isolar na escola não fosse motivo o suficiente. Como se eu chorar em casa porque não tinha amigos ou porque sofria bullying não fosse motivo o suficiente. Somente uma professora, no oitavo ano do ensino fundamental, chamou minha mãe para conversar por eu não falar com ela em sala. Mas o pensamento era simplesmente “é que ela é muito introvertida” e fim. O colégio em que estudei conta com um núcleo de auxílio para alunos com necessidades especiais. Uma crítica que faço é que só atendem quem tem um diagnóstico. É muito mais fácil assim do que observar o aluno na escola, do que conversar com os pais e oferecer ajuda no ambiente escolar. Na faculdade é ainda pior, é cada um por si e, ainda por cima, uma competição de quem consegue a vaga disso ou daquilo.

Estou prestes a terminar o quinto período da faculdade de Letras e, como não podia ser diferente, já chorei e quase tive crise por não conseguir lidar com tantos trabalhos, por me sentir sobrecarregada. É um ambiente com exigências massantes. Ainda me questiono se é lugar para mim. Felizmente, este semestre, pela primeira vez, uma professora fez uma adaptação para mim. Ela ficou sabendo do meu diagnóstico pelo meu amigo em uma das aulas. Como eu mandei um e-mail para ela avisando da minha situação, ela me ofereceu isenção no trabalho final. Dessa forma, fiquei livre de mais um trabalho. Foi uma tremenda ajuda, e sou muito grata a essa professora. Muito mesmo. Mas, também, essa professora é psicóloga e tem um olhar aguçado para alunos neurodiversos ou diversos das mais diferentes formas. A maioria dos professores não tem esse conhecimento. Muitos têm o pensamento de que o aluno que se vire. Até mesmo quando sabem que é autista. Há alguns dias, ouvi sobre um caso de uma professora que disse que não pode fazer nada por uma aluna autista que vai reprovar na mesma disciplina acho que pela terceira vez. Como podemos sobreviver assim? O que o nosso futuro aguarda? Mais limites? Quando a universidade vai ser, de fato, para todos?

Acho que me alonguei um pouco, mas não me arrependo de nada do que escrevi. Espero que tenha achado esta matéria útil e informativa de alguma forma. Deixe um comentário e curta a minha página no Facebook A Menina Neurodiversa. Até a próxima e tchau tchau!