Entrevista com a neuropsicóloga Luciana Xavier sobre autismo e sua profissão

Descrição de imagem: Luciana Xavier sorrindo e olhando para a câmera

Recentemente tive o prazer de entrevistar uma excelente profissional da psicologia, extremamente competente e atenciosa. Eu já vinha querendo entrevistar um psicólogo há muito tempo aqui para o site. Finalmente tive essa oportunidade e estou muito feliz! A Luciana Xavier é neuropsicóloga e atua em Santo André, no estado de São Paulo. Ela tem uma clínica chamada Mais Saúde, onde atende seus pacientes, ministra cursos para pais e muito mais. Vamos conhecer um pouco mais?

Alice: Poderia falar um pouco sobre você, sua educação e o que você faz?

Luciana: Sou psicóloga há 23 anos. Me formei pela Universidade Metodista de São Paulo. Me especializei em neuropsicologia há 11 anos pelo IPAF, Instituto de Psicologia e Formação, em São Paulo. Trabalho na área clínica na Mais Saúde, onde também coordeno minha equipe. Equipe formada por por fono, neuropsicopedagoga, psiquiatra e outras psicólogas, assim como uma sexóloga. Recentemente me especializei em autismo e estou cursando uma pós em ABA, Análise do Comportamento Aplicada, o único método comprovadamente eficaz no tratamento de autismo e atrasos do desenvolvimento. Eu sempre atendi autistas, pois abracei a causa há muitos anos! Desde que tive contato com meu primeiro paciente, em que realizei o diagnóstico e e iniciei o tratamento, quando colhemos os primeiros resultados, quando realmente ele me permitiu entrar em seu mundo, compreendê-lo e ajudá-lo, eu logo me apaixonei e comecei a entender muitas crianças, adolescentes e adultos que me procuravam, desconfiados do diagnóstico e de nunca terem sito diagnosticados.

Alice: Como se interessou pela área da psicologia?

Luciana: Fui auxiliar de classe numa escolinha com 16 anos, meu primeiro emprego. E a sala que fui escalada para auxiliar tinha uma criança especial, F. Sexo masculino, de 4 anos, com Síndrome de Down. Ali descobri que queria entender seu funcionamento e ajudá-lo melhor! A diretora da escola foi quem me orientou a prestar psicologia e, assim, eu fiz no ano seguinte, prestei vestibular com 17 anos e entrei em psicologia. Daí nunca mais parei de estudar e procurar respostas, alívio, formas de intervenção, de devolver qualidade de vida às pessoas que apresentam dificuldades emocionais, neurocognitivas, doenças degenerativas e qualquer outro tipo de sofrimento psíquico.

Alice: Quais são as opções de carreira para alguém formado em psicologia?

Luciana: Muitas! Clínica, escola, hospital, empresa…pesquisas, assessoria, se especializar e atuar nas mais diversas áreas humanas e de saúde mental. Hoje, a área teve um bum! Quando me formei, muitas pessoas ainda não acreditavam na psicologia, desconheciam e até desdenhavam…foi difícil. Somente com muito estudo, mostrando resultados que consegui me colocar e ser vista. Hoje, com o bum, também percebo que, apesar de muitas áreas, todo o respeito dado ao psicólogo etc tem um ponto negativo: muita gente indo fazer psicologia sem inclinação para, sem amor à profissão, sem vocação, entende? Isso me entristece um pouco. Nas mais diversas áreas hoje, o psicólogo é importante e pode estar, mas em todas precisa amar, estudar sem parar e estar preparado, pois não é uma tarefa fácil. Cuidar da saúde sempre, psicoterapia, horas de lazer e descanso, pois a profissão exige muito da gente.

Alice: Como um psicólogo pode ajudar autistas e pais de autistas?

Luciana: Bem, para mim, existem duas formas, resumidamente, de auxiliar: compreendendo e facilitando a vida de ambos! Vivo montando programas de treinamento, de auxílio e tratamento que foquem justamente nisso, melhorar as relações e a inserção da pessoa no meio, seja social, profissional, familiar ou escolar. Promovendo integração, inclusão, vencer dificuldades e caminharem juntos na evolução e conquistas! Tenho a sorte de já ter visto muitos casos bem sucedidos aqui na minha carreira. Tem depoimentos no instagram, e serei eternamente grata, pois aprendi muito com meus autistas e seus pais. Para mim, é um mundo fascinante! Só aprendi! São tratamentos geralmente longos, ajudando-os nas mais diversas fases da vida, e não tem como não admirar a força deles e de suas famílias. Ajudo, principalmente, traçando as dificuldades do autista, estabelecendo prioridades e, assim, iniciamos o tratamento focado para cara um. Não existe receita de bolo. Cada um tem seu programa de intervenção e vamos atrás de colocar em prática usando aquilo que cada um gosta, que cada um vê sentido, se identifica etc.

Alice: Aqui no blog, sempre falamos de autismo a partir de uma visão interna, que é a de uma pessoa autista. Poderia nos mostrar a visão de uma psicóloga sobre o TEA?

Luciana: Posso dizer, por mim, os autistas têm sua maneira d ver o mundo, de buscar soluções, de relacionarem-se. São mais sensíveis, literais, concretos, muitas vezes inocentes, puros, devido a essa forma de raciocínio tido como mais concreto. Muitas vezes nos surpreendem e nos fazem refletir! Adoro entender a lógica de cada um. Tento experimentar todas as “aflições” com cada um e, assim, explico para seus pais ou amiguinhos da escola. Vivo me questionando sobre as estereotipias, sobre os típicos x atípicos e o quanto os típicos também têm descargas de ansiedade, manias, balançar as pernas etc. Gosto quando entendemos a função das estereotipias e, assim, vejo alívio no indivíduo, que entende que não é estranho, certo ou errado, apenas uma forma de se auto-regular. Aí aprendo, entende? E posso dividir isso com outros pais, outros terapeutas e vamos formando uma rede de apoio. Vejo que os autistas têm sentimentos puros, verdadeiros e intensos. Vejo que não entendem ou lidam com as maldades. Muitas vezes nem preveem que possam existir e, por isso, me encanto todos os dias e, por isso, estudo tanto e me aprofundo. Temos muito o que compreender, respeitar e aprender com os autistas e seu modo singular de ser!

Alice: Muito se fala em autismo em crianças, intervenção precoce etc. Mas, no caso dos adultos que perderam essa oportunidade, como é o tratamento? Como proceder?

Luciana: Tenho alguns adultos autistas e que não foram tratados, de grau leve. Manejamos através da psicoterapia, reforçando a aquisição das habilidades sociais, minimização das dificuldades, angústias etc. Pode precisar também de suporte medicamentoso. Por isso, tenho psiquiatra na equipe. E, assim, seguimos em tratamento em equipe conforme a necessidade, evolução do paciente. Os de graus mais severos são, geralmente, crianças do passado que não foram diagnosticadas, ou de diagnóstico errado que não se beneficiaram de tratamento, então não podemos dizer se a falta de tratamento contribui para a evolução para severo ou se já eram severos. De qualquer forma, tem sempre o que fazer e o que melhorar! Nunca, em hipótese alguma, aceite que não há o que se fazer e melhorar a qualidade de vida.

Alice: Pode nos contar um pouco sobre os seus projetos envolvendo o TEA?

Luciana: Faço palestras, grupos de coaching parental, apoio aos pais. Promovi encontros de autistas, como foi no Parque Azul, em São Paulo, e o livro que eu e a @blogdelara lançaremos em breve: sexualidade e TEA. Estou engajada nas comunidades autistas e com outros profissionais, sempre tentando informar, buscar novidades e trazer para a clínica.

Alice: Que dicas e informações poderia dar para os jovens que pretendem cursar psicologia?

Luciana: Estejam sempre prontos para tocar na alma humana do outro com cuidado, respeito e amor e nunca, nunca parem de estudar! Mergulhem dentro de si e vejam se há uma vocação real. Não se iludam somente com o lado positivo. Passo madrugada lendo, fazendo laudos, discutindo casos, respondendo directs de outros profissionais que até questionam todo meu positivismo quanto à causa do autismo, tratamento e possíveis evoluções. Não é nada fácio. Por isso, tem que realmente gostar e não ser levado por modismo.

Alice: Que dicas e informações poderia dar para profissionais que pretendem trabalhar com autistas?

Luciana: Se aperfeiçoem, vão para o chão brincar, estimular, avaliar a criança. Visitem a escola, acolham os pais! Se reúnam com profissionais já experientes! Enfim, bora estudar!! Livre-se de tudo o que julga saber e olhe para cada autista de um modo singular. Nenhuma intervenção será como outra, e sim alicerçada nas dificuldades, nos traços de personalidade, nas crenças e costume de cada autista! Nos gostos, preferências, ritmo de cada um. Somente quando estiverem verdadeiramente conectados e munidos de uma boa teoria sustentada por bases cientificamente comprovadas, você poderá ajudar este autista.

Essa foi a entrevista com a neuropsicóloga Luciana Xavier! Espero que tenha gostado e aprendido muitas coisas, assim como eu! Sigam a sra. Lu no intagram e no Facebook para acompanhar o trabalho dela! Instagram: @neuropsicolux. Facebook: Psicóloga Luciana. Não esqueça de curtir a página A Menina Neurodiversa no Facebook! Até a próxima e tchau tchau!

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