Entrevista com Natália Moneda, autista adulta e mãe de autista.

Descrição de imagem: rosto de Natália com uma das mãos na boca e efeitos roxos e azuis parecendo aquarela.

Dias atrás entrevistei uma moça que faz parte de alguns grupos sobre autismo dos quais também participo. Eu a pedi em amizade e ela aceitou, se tornando minha nova amiga! Uma fofa! A Natália tem 29 anos, é de São Paulo e tem um filho de 5 anos. Os dois são autistas. Quer saber mais sobre ela? Acompanhe!

Alice: Pode falar um pouco de você e da sua história?

Natália: Eu sempre fui diferente. Na escola, eu tirava boas notas mesmo não sendo estudiosa. Era muito original nas atividades, me vestia de um jeito diferente, mas também sofria bullying. E eu era uma adolescente rebelde e questionadora. Creio que, na adolescência, tive minhas crises mais fortes, e eram quase todos os dias. Meus pais me levavam em um hospital, onde eu tomava um soro, um calmante, e ficava bem por algumas horas. Fui crescendo e a sensação de não pertencimento sempre me acompanhou. E eu me sentia frustrada por nunca conseguir fazer parte de um todo. Por mais que eu me esforçasse, eu não conseguia criar laços com as pessoas. Arrumava brigas por ser muito sincera. Eu já tive depressão bem severa, que quase me ceifou a vida e, mesmo fazendo tratamento, as coisas continuavam a não fazer sentido. Até descobrir o autismo, por um acaso. E, desde então, eu passei a me aceitar e gostar de quem eu sou, entender minhas limitações e até mesmo superar algumas delas.

Alice: Com quantos anos você descobriu seu diagnóstico de autismo? O que mudou na sua vida?

Natália: Na verdade, quando meu filho tinha um ou dois anos (hoje ele tem cinco), eu desconfiei de que ele era autista. Eu tinha acho que 25 anos. Pesquisei bastante sobre e me identifiquei. Mas eu estava em uma fase muito complicada da minha vida. Estava deprimida e não quis nem cogitar essa hipótese. Ano passado voltei a pesquisas e ler sobre autismo em adultos, mas fui digerindo a informação aos poucos. Mas esse ano, com 29 anos, eu caí na real de que precisava me conhecer a fundo. Precisava entender o autismo e o que isso iria acarretar na minha vida. Procurei ajuda profissional e fui diagnosticada.

Alice: Como foi crescer sem saber que era autista?

Natália: Eu cresci achando que nem humana eu era (rs). Que eu era uma extraterrestre e havia sido deixada na Terra sei lá porque! HAHAHAHA. Eu não me sentia parte da sociedade, das pessoas, do sistema. Me sentia totalmente diferente e oposta ao que as pessoas são e esperavam de mim. Por vezes me odiei, pois não conseguia acompanhar os demais, mas, como fui criada como neurotípica, aprendi a me “disfarçar” um pouco.

Alice: As mulheres são 4 vezes menos diagnosticadas com autismo do que os homens. Por que acha que isso acontece?

Natália: Nós mulheres, desde muito cedo, somos levadas a ser receptivas e sociáveis. Somos ensinadas a ser cordiais e cuidadosas. Então nós, que somos autistas, também fomos ensinadas assim, e, com isso, fomos adquirindo habilidades de nos “camuflar” entre os neurotípicos. Então muitas das nossas características foram se perdendo ou “amenizando”. Fora que ainda hoje acredita-se que o autismo tem maior ocorrência entre o sexo masculino, o que dificulta o nosso diagnóstico.

Alice: Quais são as suas maiores dificuldades enquanto autista?

Natália: Eu creio que o TPS (Transtorno de Processamento Sensorial) é a minha maior dificuldade. Meus sentidos são todos muito aguçados e isso não é tão legal. Frequentemente tenho dor de ouvido, dores de cabeça muito intensas e incapacitantes, pois meu cérebro fica extremamente sobrecarregado. E também acho chato quando questionam meu autismo. Perguntam se eu tenho certeza, dizem que eu deveria procurar outros profissionais para me diagnosticar, que é impossível eu ser autista e blá blá blá. Isso me deita muiiiiiiito irritada.

Alice: Você tem um filho. Como o autismo afeta a forma como você lida com a maternidade?

Natália: O autismo só me ajuda a ser uma mãe melhor para o meu filho. Por eu ser autista e entender o que se passa com ele, eu tenho muita empatia. O que para muitas mães seria como um absurdo e motivo de perderem a calma, eu levo numa boa. Converso muito com meu filho, explico o porquê das coisas. Quando estou sobrecarregada, também explico a ele, e ele entende e me deixa quietinha (rs). Claro que tem momentos difíceis, momentos em que fico estressada, coisas que muitas vezes não entendo ou que é difícil para eu fazer, mas, em geral, o saldo positivo é bem maior.

Alice: Quais são os seus hiperfocos? Já teve problemas por causa deles?

Natália: Tenho um hiperfoco em desenhar, no Queen (em desenhar ouvindo Queen rs), no Freddie Mercury, em autismo. Recentemente eu fiquei bem enrolada com a matéria da faculdade porque eu não conseguia estudar. Só conseguia desenhar (rs) e, por mais que eu tentasse me concentrar, era muito complicado. Uma vez meu namorado reclamou que eu só falava de Queen e autismo (rs), e minha mãe às vezes diz que “tudo pra mim é Freddie Mercury” e que ela não aguenta mais ouvir falar dele HAHAHA.

Alice: Qual é a maior dificuldade de se conseguir um laudo de autismo sendo mulher e adulta?

Natália: A dificuldade é que, por eu ter sido criada como neurotípica e então “camuflar” minhas características, muitos médicos dissem que é impossível eu ser autista por conseguir falar, andar sozinha. Também acham que eu estou procurando coisas em mim, que eles são profissionais e eles quem têm que saber, não eu (olha que absurdo!). Não param para ouvir. Ouvir como foi sua infância, as dificuldades que enfrentou a vida toda, como se sente…e já vão logo enfiando um diagnóstico que eles acham que é o certo, sem se importar em pesquisar e entender a paciente a fundo.

Alice: Como a terapia pode ajudar o autista adulto?

Natália: A terapia é uma forma de se conhecer melhor, de entender suas limitações e aprender a lidar com elas, de entender toda a complexidade de ser quem você é, mas de um jeito positivo. A terapia (a boa terapia, né) vai ajudar a desenvolver confiança, auto-estima. E sendo confiantes, seremos muito mais corajosos para enfrentar o mundo. É fundamental para um autista adulto fazer terapia, na minha opinião. Mas desde que se sintam bem com o profissional, sejam amparados e tenham confiança naquela pessoa.

Essa foi a entrevista com a Natália, que abordou autismo adulto, feminino e na maternidade! Espero que tenha gostado dessa entrevista! A Nat tem uma página no Facebook chamada Papo de autista – Aspieteriana, que é tão legal quanto ela! 🙂 Não se esqueça de curtir a página A Menina Neurodiversa no Facebook e deixar seu comentário! Até a próxima e tchau tchau!

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