Por que falar em cura do autismo é tão ruim para os autistas?

Descrição de imagem: criança sentada de braços cruzados e expressão vazia olha para a janela

Quando falamos de cura, pensamos logo em alguma doença, como o câncer ou a gripe. Algumas pessoas mais sabidas sobre saúde mental podem pensar também em depressão, ansiedade…mas uma coisa é certa: autismo não é doença. Isso deve ficar mais do que claro para as pessoas. Afinal, por que falar em curar o autismo faz tão mal para as pessoas autistas? Hoje falarei sobre isso.

Antes de descobrir que tenho autismo, tudo o que eu queria era “ser normal”. Eu me sentia defeituosa e burra. Achava que nunca me encaixaria na sociedade e seria infeliz para sempre. Com o diagnóstico, aprendi a me aceitar mais, a perceber que não tem nada de errado comigo. Não sou defeituosa, sou autista. Sou o que sou, sou autista. Não preciso de cura, preciso de aceitação, respeito e inclusão.

Vi muitos familiares de autistas desejarem a cura da condição, alegando ser fácil alguém com autismo leve não querer ser curado. Acontece que, independente do grau, todos os autistas têm dificuldades, variando em necessidade de apoio. É muito importante aceitar o seu autista como ele é. Entender que ele tem dificuldades, que podem ser melhoradas com terapias. Muitas vezes, o autismo vem acompanhado de comorbidades, como deficiência intelectual e comportamento agressivo. É isso que precisa ser tratado. O autismo é uma forma diferente de estar no mundo. Cabe a você, responsável pelo autista, a aprender a aceitá-lo e ir desfazendo todos aqueles ideais a respeito da criança que iria chegar. Sei que pode ser muito difícil, mas é preciso tentar. Caso esteja sendo muito duro, é bom contar com uma terapia. Afinal, o autismo afeta toda a família.

Mas então para que servem as terapias para o autismo? Ora, as terapias não servem, de forma alguma, para curar o autismo. Elas servem para ajudar o autista a funcionar melhor em um mundo que, claramente, não foi pensado para as suas necessidades. As escolas, as ruas, os carros, os supermercados, até mesmo a ideia que se tem do comportamento de uma pessoa não foram pensados para autistas. Foram pensados para pessoas ditas neurotípicas. O que quero dizer com isso é que o mundo é confuso e caótico demais para nós autistas. Muitas vezes, vencer o preconceito é um dos nossos maiores desafios. As terapias servem, então, para que nos aceitemos melhor, para que consigamos alcançar o ritmo das outras pessoas e, quem sabe um dia, para que sejamos independentes. Ou menos dependentes.

Quando você fala de cura, você me magoa profundamente. Você desvalida a minha forma de pensar, de agir, de olhar, de falar, andar, a minha atenção especial para detalhes, a minha habilidade de me auto-entreter com meus hiperfocos, a forma como eu sinto e vejo as coisas. Você diz que tudo isso está errado e que preciso ser igual a você. Quando você fala de cura, você não me aceita, você não tenta me entender, você pensa que o mundo só pode ser visto a partir da sua visão. Quando você fala de cura, você me deixa mais distante da tão sonhada inclusão, você diz que eu tenho que me adaptar ao mundo muito mais do que ele a mim. Quando você fala em cura, você me apaga, me deleta, me exclui.

Essa retórica da cura traz consigo muitos prejuízos. Entre eles, promessas de tirar os sintomas de autismo a partir de tratamentos milagrosos e…extremamente perigosos. Os boatos de que uma substância chamada “MMS” pode curar o autismo está circulando pela internet. Muitos pais estão usando. Trata-se de uma solução química tóxica e muito nociva ao organismo. A mistura é feita à base de clorito de sódio e ácido cítrico. É basicamente um alvejante. Pais estão dando alvejante para os seus filhos para vê-los curados desse maldição chamada autismo. Precisamos nos unir contra o uso dessa substância, contra a retórica da cura e em favor da aceitação. Preciso que você entenda que autismo não precisa ser curado, mas sim compreendido e aceito.

Resumidamente, gostaria de afirmar mais uma vez que autismo não é doença. Autismo é uma forma de estar no mundo. Não somos menos, somos diferentes. Que tal você tentar ver o mundo a partir da nossa perspectiva? Se permitir sentir com a mesma intensidade com a qual sentimos. Que tal tentar nos entender melhor? Perceber que o mundo é feito por pessoas diferentes e que, às vezes, algumas diferenças são maiores que as outras. Por que não tenta repensar o que você entende como o jeito certo de se comportar, de existir? Autismo não é uma sentença, autismo não é um peso, um fardo. Autismo é uma forma de neurodiversidade que deve ser compreendida e respeitada. Não sou defeituosa, sou autista. Sou o que sou, sou autista. Não preciso de cura, preciso de aceitação, respeito e inclusão.

#MMSnão

Obrigada por ler a minha matéria! Gostaria de pedir encarecidamente que curta minha página no facebook: A Menina Neurodiversa. Deixe nos comentários o que você achou, dicas, críticas construtivas, sugestões…siga o site para receber minhas matérias! Acima de tudo, respeite os autistas. “Autista” não é ofensa, é elogio.

9 comentários sobre “Por que falar em cura do autismo é tão ruim para os autistas?

  1. natmonps 10 de maio de 2019 / 17:21

    Alice, você resumiu tudo o que penso e sinto quando falam sobre cura. Pra mim é como se não me quisessem, que queriam que eu me transformasse em outra pessoa pois pelo fato de ser como sou, sou um fardo, uma tragédia. Quem precisa de cura são essas pessoas aproveitadoras e insensíveis, não nós.

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  2. Marisa 11 de maio de 2019 / 04:07

    Ótimo!
    Importantíssimo para o esclarecimento e a defesa do direito de “aceitação, respeito e inclusão”. Sempre.

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  3. Leila Aidar Ugrinovich Muito 11 de maio de 2019 / 10:24

    Alice querida, meu nome é Leila e tenho um filho autista leve, de 8 anos. Adorei ler seu texto. Aliás, tenho lido muitos. Tem me ajudado a compreender melhor meu filhote. Sobre suas colocações, gostaria de dizer duas coisas. Não queria que meu filho fosse diferente em nada. Me encanto com cada conquista dele. Ele me inspira com seu amor e hoje sou uma pessoa melhor, pois aprendi com ele a alegria da vida e o amor incondicional. Sua pureza, sua simplicidade, sua lógica, são para mim motivo de emoção constante. Sou privilegiada por ter um filho tão perfeito e especial. Meu marido pensa exatamente como eu. Talvez isso tenha vindo com a maturidade. Foi muito difícil para nós termos filho. Quando conseguimos já não éramos tão jovens. Talvez por isso sejamos capazes de somente agradecer por tudo.
    Mas o fato é que o Gu é realmente especial. É nossa vida.
    Por outro lado, consigo entender uma mãe que gostaria de ver seu filho “curado”. Principalmente nos casos mais severos. No fundo sabemos que não somos eternas e nos aflige a perspectiva de que um dia vamos morrer e,principalmente nos casos mais graves onde a criança não consegue ter um mínimo de independencia, nos apavora a ideia de deixá -los sozinhos, desprotegidos.
    Pensamentos do tipo: como ele vai se virar sozinho? Ele vai conseguir um bom emprego? Vai conseguir se sustentar? Vai poder manter uma casa? Vai se casar? Terei netos? Tudo isso passa por minha cabeça e me aflige. Isso porque o Gu vai super bem na escola, tem amiguinhos, Se relaciona. Fico imaginando o que deve passar pela cabeça de uma mãe de criança com quadros mais graves. Deve ser bem difícil.
    Por favor, não me entenda mal. Sou contra essas curas absurdas que divulgam por aí! Isso é crime e os responsáveis deveriam estar presos. Mas entendo quando uma mãe diz que gostaria de curar seu filho. Sei que é difícil, mas tente entendê-las também.
    Para terminar, quero te agradecer por partilhar conosco suas experiências, pois ajuda bastante a entendermos um pouquinho dessas cabecinhas maravilhosamente complexas.
    Bjs e parabéns pela sua iniciativa e pelas suas conquistas. Sigamos torcendo para que o mundo passe a ser um lugar melhor para todos nós.

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    • alimcs 11 de maio de 2019 / 10:49

      Muito obrigada, Sra Leila! Fico feliz que tenha gostado dos meus textos e que eles ajudam! Gostaria de dizer que, nesses casos mais severos, é muito importante os pais lutarem pela inclusão para que o filho tenha onde ficar no futuro. Falar em cura é o caminho inverso da busca pelos aceitação e, consequentemente, da inclusão. Por isso escrevo sobre autismo e busco levar informações sobre isso às pessoas. Essa questão de se casar e ter netos vem da construção da imagem de um filho “perfeito”. A aceitação do autismo vem com a desconstrução dessa imagem. E a inclusão virá somente quando houver aceitação e respeito aos autistas. Inclusão para todos os autistas: leves, moderados e severos, cada um com necessidades de apoio diferentes. Gostaria muito que os pais entendessem que querer curar o filho não leva à inclusão. É uma luta que temos que lutar para uma sociedade mais inclusiva e receptiva para nós autistas. Conto com sua ajuda 🙂 obrigada mais uma vez!

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  4. Milton Abreu 31 de maio de 2019 / 17:09

    Muito bom sua clara explicação, tão convincente que amei vc sem te conhecer.
    Abraço azuis.

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  5. Carmen 17 de novembro de 2019 / 19:23

    Como sempre, gostei muito!
    Meu filho tem 16a e ainda nao tem diagnóstico fechado. uma história bem parecida com a sua…que li no texto anterior.
    Estamos desconstruindo a imagem criada e digo que agora, aos 16a é um novo filho, ele buscando o autoconhecimento e eu o apoiando e conhecendo sob este novo prisma.
    Descobrir o autismo tem sido libertador para nós dois, agora temos uma explicação para tantas dificuldades…elesempre dizia que achava que era um ET e eu achava graça, mas hoje ele conta que sempre pensou isto pir ser diferente, por nunca se encaixar em lugar nenhum…agora, percebo que ele olha para o futuro…antes, só queria morrer.
    Enfim, queria que você soubesse um pouquinho de nós, já que nos ajyda tanto.
    um beijo e continue este trabalho lindo, de ajudar pessoas.

    Curtido por 1 pessoa

    • alimcs 17 de novembro de 2019 / 19:52

      Muito obrigada por compartilhar um pouco disso comigo. Fico muito feliz em conseguir ajudar de alguma forma 🙂

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