Autismo e interesses restritos

Descrição de imagem: um menino de pouca idade brinca com dinossauros e olha para um deles

Para que se diagnostique o autismo em uma pessoa, é necessário que ela apresente déficits na comunicação e na interação social, além de interesses restritos e comportamento repetitivo. Essas últimas característica traduzem o que muitos chamam de hiperfoco. Isso nada mais é do que um interesse acentuado por um ou alguns poucos assuntos, enquanto o resto costuma ser ignorado. Em pessoas mais fortemente afetadas pelo TEA, esse interesse pode ser por objetos, enquanto, em pessoas menos afetadas, como é o caso dos Aspergers, pode ser, por exemplo, em uma área de estudo. Hoje, eu vou falar um pouco sobre isso e tentar explicar por que acontece conosco.

Não é de hoje que se sabe que autistas têm uma neurologia diferente dos demais. Nessa diferença, está englobada uma dificuldade acentuada com mudanças. Essa dificuldade se manifesta de várias formas, como não gostar de sair da rotina, não saber lidar com surpresas e, ainda, só gostar de saber e falar sobre determinados assuntos. Esse hiperfoco do autista chama atenção quando os pais percebem que o filho gosta de brincar apenas alinhando seus brinquedos ou girando a roda de um carrinho por incontáveis minutos, mas, na fase adulta, o que mais chama atenção é a tendência do autista de monopolizar a conversa com seu tema de interesse e não perceber que deve deixar o outro falar ou que já não aguentam mais ouvir sobre esse mesmo assunto.

Como eu não sou de falar muito, o meu caso é um pouco menos perceptível. Quando eu era criança e tinha minhas obsessões, o que eu fazia era ver vídeo após vídeo sobre o assunto e pensar muito e desenhar sobre isso. Já aconteceu de minha melhor amiga B. me pedir para eu mudar de assunto após eu só ficar falando sobre os patinadores do Disney on Ice. Já aconteceu também de meu melhor amigo da infância me implorar para eu não colocar, pela ENÉSIMA vez, o DVD do show de música clássica do compositor grego Yanni. Acontece também de eu ler muito sobre meu assunto de interesse. Quando gosto de alguma coisa, todo o meu tempo livre passa a ser dedicado a ela e eu repito uma, duas, três, dezenas de vezes os vídeos ou textos que falam sobre isso. Gosto de guardar as informações na minha mente e acessá-las a todo momento, até quando preciso me concentrar em outra coisa. Isso também ocorre com músicas, e eu tendo a ouvir várias vezes seguidas a mesma e ter minha própria rotina de ouvir essas mesmas músicas, as que devo repetir e em que ordem devo ouvi-las.

O caso do menino que é obcecado por dinossauros é bem estereotipado. No meu caso, já tive forte interesse por buracos negros, polvos, desenhos animados, Disney on Ice, Cirque du Soleil e jogos. Esse último sendo o mais duradouro, que começou ainda na infância e perdura até os dias de hoje. O que mais amo nos jogos é poder me sentir em um outro mundo e perceber os seus detalhes visuais e a beleza de suas trilhas sonoras. Não invisto tanto em saber sobre a história do universo dos jogos, como muitos fazem. O que eu gosto mesmo é da experiência de jogar e reparar no que vejo e ouço. Eu gosto de conversar sobre jogos e, praticamente, a maioria esmagadoras das conversas que fogem desse assunto me fazem sucumbir ao silêncio e não participar. Eu só sei falar sobre meus assuntos de interesse ou hiperfocos e algumas outras poucas coisas, como a faculdade. Conversa fiada não é comigo. Você nunca me encontrará conversando com um estranho no ponto do ônibus sobre o tempo ou sobre a demora do transporte. Isso simplesmente não é natural para mim, além de ser algo que eu não sei fazer.

Entretanto, essa característica nem sempre é benéfica. Se um autista tem forte interesse em astrofísica, por exemplo, ele terá um vasto conhecimento sobre esse assunto, que só não ultrapassa o dos estudiosos da área. Apesar disso, ele pode acabar não tendo interesse nenhum em outros assuntos, o que limita suas possibilidades de interação social e pode levar a tirar notas baixas na escola, além da independência. Eu, por exemplo, que tenho interesse em jogos, praticamente só tenho amigos que também gostam disso e mais os meus dois amigos da faculdade. Na escola, como eu tinha interesse em português, eu não precisava estudar muito para tirar uma boa nota nessa matéria. Já com matemática, física e química, estudar era muito penoso e, às vezes, quase impossível. Manter minha atenção em algo que foge aos meus interesses restritos é muito difícil e eu tendo a ficar em uma espécie de ilha de conhecimento. Também não tenho nenhum interesse em maquiagem, roupas e essas coisas (não que isso seja ruim) e isso me torna dependente da minha mãe no que diz respeito a me arrumar, saber o que devo vestir para uma determinada situação etc. Por eu não ter interesse nisso, eu não consigo saber sequer o básico, e isso não é muito legal.

Os interesses restritos podem tornar o aprendizado em outras áreas muito mais difícil. Às vezes, conhecimentos básicos, como algumas questões políticas do país ou como fazer compras sozinho, ou até contas matemáticas básicas, se matemática não for um interesse, se tornam mais difíceis de aprender. Por isso, muitos terapeutas alertam para a importância de utilizar o hiperfoco do autista como ferramenta para o seu aprendizado nas mais diversas áreas de estudo. Como exemplo, se um autista tem interesse em números, e você quer ensiná-lo sobre história, que tal mostrar para ele as datas em que os eventos ocorreram e calcular com ele a distância temporal entre cada evento e de cada evento com os dias de hoje? A partir disso, pode apresentá-lo ao que realmente quer ensinar. Não obstante, não se deve deixá-lo preso em sua própria bolha! Com muita paciência e carinho, pode ir apresentando coisas novas a ele, mas sem forçar. Nós autistas somos capazes de aprender! Tenho fé que um dia serei independente e poderei gerenciar minha própria vida sem maiores problemas.

Essa foi a matéria de hoje. Espero que tenham gostado. Por favor, deixem nos comentários o que acharam, sugestões e críticas construtivas. Simplesmente amo ler comentários nas minhas matérias! Curta também minha página no Facebook: A Menina Neurodiversa e siga o site para receber notificações sempre que eu publicar algo novo! =) É uma honra ter você por aqui! Obrigada pelo interesse nesse assunto tão importante! Até a próxima e tchau tchau!

5 comentários sobre “Autismo e interesses restritos

  1. Claudia de almeida Sa 30 de abril de 2019 / 00:28

    Adorei a matéria Alice! Você esta de parabéns!! Seus textos são muito esclarecedores e muito bem escritos!
    Estou orgulhosa e feliz por ver como você esta evoluindo e se saindo muito bem com tudo isso!! Um grande beijo pra você.

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  2. Tânia Panaro 30 de abril de 2019 / 09:36

    Bem interessante. E sabe, todo mundo tem direito de ter seus interesses. Eu também acho um saco fazer compras e me importar com maquiagem e roupas.
    Ao contrário de vc, que se torna especialista em alguns assuntos, eu sou daquele tipo que é curioso acerca de tudo um pouco mas acaba não sabendo muito sobre nada (só , no caso, minha profissão) . O mundo precisa de todo tipo de pessoas. Por isso, somos todos diferentes! Bem legal sei trabalho, continue!

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    • alimcs 30 de abril de 2019 / 09:38

      Obrigada, Tânia! Fico feliz em ler seu comentário!

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  3. tabatacristine 1 de maio de 2019 / 11:48

    Oi Alice!
    Adorei o seu site!
    Já li vários e vários textos.
    Aprendi muito e me ajudará muito na minha consulta com o psiquiatra que terei daqui uns meses.
    Um agradecimento especial ao seu texto sobre a sua infância! Nossa, você não faz ideia do quanto me ajudou.
    Tantas coisas sobre mim haviam sido esquecidas e você me ajudou a me reconectar comigo mesma.
    Parabéns pelo seu trabalho!

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    • alimcs 1 de maio de 2019 / 12:08

      Obrigada, Tabata! Fico feliz que tenha lido minhas matérias e que elas tenham te ajudado =)

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