Entrevista com Marcos Petry, do canal Diário de um autista

Descrição de imagem: Na frente de uma parede azul, Marcos Petry olha para a câmera com a coba aberta, como quem está falando. Ele usa óculos e uma camisa verde.

Olá, pessoal! Tive o prazer de entrevistar o Marcos Petry, do canal Diário de um autista. Ele tem um canal no YouTube, e seu vídeo mais famoso se chama Coisas que todo autista gostaria que você soubesse. (clique para acessar). Nesse vídeo, ele lista algumas coisas que gostaria que as pessoas soubessem sobre sua condição de autista. É um vídeo muito interessante, e sugiro fortemente que você assista! Fiz perguntas sobre ele e sobre sua condição de autismo, e ele respondeu de forma bem didática. Considero as informações divulgadas a seguir cruciais para a conscientização sobre o autismo. Muito se fala sobre isso, mas pouco se conhece de verdade. Não raro vemos jovens utilizando-se do termo “autista” como forma de inferiorizar uma pessoa. Dessa forma, hoje vamos conhecer um pouco mais sobre essa síndrome tão complexa a partir da visão do próprio autista. Acompanhe!

Alice: Marcos, pode se apresentar, falar um pouquinho de você?

Marcos: Sou Marcos Petry, tenho 26 anos de idade, sou escritor, palestrante e produtor de conteúdo. Sou portador de uma lesão cerebral e autista. Logo após o nascimento, tive complicações que acarretaram em desidratação profunda e o rompimento de uma membrana no coração, um sopro! Por conta disso, fiquei internado por muito tempo e, quando ganhei alta, parti para a estimulação precoce para o cérebro. Fiz anos de atividades que visavam ao desenvolvimento de novas trilhas neurais (alternativas àquelas que ficaram lesadas). Logo após esses treinos, meus pais perceberam que havia certas sequelas que não puderam ser corrigidas, como os movimentos repetitivos e pouca tolerância a sons, que eles logo atribuíram à lesão, mas entenderam logo que esse conjunto de manifestações se tratavam de nuances do autismo!

Alice: Com quantos anos você foi diagnosticado com autismo? Se foi antes de 2013, quando todos os subtipos foram englobados no TEA, com qual tipo de autismo você foi diagnosticado (infantil, clássico, Asperger etc)?

Marcos: Com sete anos de idade, uma pedagoga e amiga da minha família começou a notar as características do autismo e aconselhou-nos a procurar mais sobre a condição, então meus pais passaram a estudar e, sem encontrar explicações muito plausíveis ou de fácil acesso, eles decidiram continuar me ofertando oportunidades de vivenciar o máximo de situações possível: novos contextos, cheiros, texturas, ambientes…mais tarde, quando eu tinha 12 anos e acesso à internet, refiz o roteiro de pesquisa dos meus pais e descobri mais nuances do autismo, que, na época, dividia-se em Asperger e autismo. Fui percebendo que era aspie, mas, hoje em dia, gosto de considerar a classificação unificada do DSM V, pois creio que, desse jeito, fica mais fácil evidenciar dificuldades e conquistas dentro da ideia de Espectro Autista!

Alice: O que é a hipersensibilidade que os autistas têm? Pode falar um pouco sobre isso?

Marcos: Hipersensibilidade é o excesso de informações no ambiente de vivências. Pode ser caracterizado por um ou mais sentidos. No meu caso, sou hipersensível na parte visual e auditiva: tenho pouquíssima tolerância à luz e a sons. Para indivíduos hipersensíveis, os estímulos chegam a causar sintomas físicos, como dores ou até formigamentos. Há também os indivíduos hipossensíveis, ou seja, aqueles que precisam de muita informação ou sensações para engajar-se!

Alice: O que uma pessoa nunca deve dizer para alguém com autismo?

Marcos: Acredito que os ditos mais prejudiciais são aqueles que limitam a capacidade dos autistas, do tipo “autista não sente empatia”, ou ainda “autistas não gostam de outras pessoas por perto!”, pois nenhuma dessas afirmações é verdade! O que acontece é que o autista tem dificuldades para lidar com muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, o que causa a impressão de estar alheio a tudo, mas não deixe que essa aparente apatia desmotive!

Alice: Você fez algum tratamento durante a vida? Quais e como foi?

Marcos: Eu nunca fiz um tratamento com foco nas manifestações do autismo, mas atuei para diversificar o foco em algumas situações e para entender o mundo neurotípico da melhor forma que pude. Parte disso foi feita pelos esforços dos meus pais, não para fica igual aos neurotípicos, mas para, ao menos, tentar me conectar a eles.

Alice: Como você acha que o seu canal pode ajudar as pessoas a entenderem melhor sobre o autismo?

Marcos: Acho que, ao informar sobre o autismo e trazê-lo para o cotidiano, eu aproximo o autista das demais pessoas, e isso é um pequeno e importante passo na direção de incluir! Entendo também que o canal é uma troca de experiência entre autistas, suas famílias, seu professores e a comunidade onde eles vivem, e, ao trocar informação, as pessoas ficam conscientes do autismo, suas dificuldades e, é claro, as potencialidades também!

Alice: Pode falar um pouco sobre os movimentos repetitivos dos autistas?

Marcos: Os movimentos repetitivos do autista servem para conferir previsibilidade ao dia a dia e para a regulação do pensamento. O cérebro autístico é muito facilmente hiperexcitado com informações ao seu redor. Fazer os movimentos repetitivos proporciona ao autista uma possibilidade de filtrar em meio a tantos estímulos. Em meio aos movimentos, o autista discerne melhor entre aquilo que merece atenção e aquilo que não merece tanta atenção!

Alice: Quais são as coisas que mais de desorganizam mentalmente?

Marcos: O barulho repentino, sem aviso, me desorganiza bastante, assim como as luzes fortes! Algumas texturas também me desorganizam bastante, tais como as texturas de algumas frutas e alimentos. Entre eles, destaco a textura do abacate e do kiwi, além da textura de alguns calçados e camisas (principalmente aquelas que possuem botões).

Alice: Por que os autistas têm crises?

Marcos: Os autistas têm crises quando não conseguem filtrar tantos estímulos acontecendo ao mesmo tempo! Por conta de não conseguirem expressar o desconforto ou mesmo de sentirem-se afetados, é que muitos deles entram em crise. É uma forma tanto de chamar atenção para um problema que não conseguem resolver e também uma busca desesperada pela previsibilidade.

Alice: O que você acha importante dizer para pais de autistas que se sentem perdidos e sozinhos? Como eles podem se conectar melhor com seus filhos no espectro?

Marcos: Aos pais, eu diria que eles podem contar com bases de conhecimento, como o meu canal e outros tantos canais pró autismo para entender um pouco melhor o espectro. Diria também que o autista consegue grandes feitos desde que os familiares acreditem nesse potencial! Deem muitas oportunidades para que seus filhos se desenvolvam através de vivências diárias e cotidianas. Mediem isso com carinho e ofertem um pouco a cada dia, sempre avisando aos autistas qual será o desafio, a lição a aprender! Tenham, acima de tudo, muito amor pelos seus filhos.

Muito didáticas as respostas do Marcos, não é? Espero que tenha ajudado você, que convive com algum autista e quer conhecê-lo melhor e saber como ajudá-lo. O intuito deste site é justamente esse! Procuro tanto criar um espaço seguro para pessoas autistas quanto levar mais informações sobre autismo para as pessoas. Tanto para as que precisam dessas informações quanto para aquelas que querem se informar.

Deixe nos comentários sugestões de matérias ou de perguntas que querem que eu responda ou faça para outros autistas. Quem você quer me ver entrevistar? Que informações você quer acessar? O que mais quer saber sobre autismo? Estou às ordens! Não esqueça de seguir a página A Menina Neurodiversa no Facebook. O canal do Marcos Petry você acessa clicando aqui. Então é isso! Tchau tchau!

3 comentários sobre “Entrevista com Marcos Petry, do canal Diário de um autista

  1. Natália 23 de abril de 2019 / 14:56

    Parabéns, Alice! Muito boa essa entrevista! Amo o canal do Marcos Petry

    Curtido por 1 pessoa

  2. lourdinetesouza1@gmail.com 7 de outubro de 2020 / 08:13

    Bom dia! Eu sou Lourdes, agradeço pelas informações e gostaria de mais conteúdo sobre espectro autista, no que diz respeito as estratégias para minimizar o incomodo com o barulho. Obrigada!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s