Autismo e pensamento literal: metáforas e metonímias

Descrição de imagem: Em fundo roxo, a frase “figuras de linguagem” em branco. Nos cantos, canetas coloridas.

Na escola, aprendemos sobre as tais figuras de linguagem, em especial, a metáfora e a metonímia. A primeira é como uma comparação, na qual se atribui qualidade a algo através de uma semelhança que apresenta com outro algo (ex.: A menina é uma flor / Semelhança entre menina e flor em relação à beleza, graciosidade, aroma etc). Quanto à segunda, existe a correspondência da parte com o todo (ex: Eu li Machado de Assis / autor pela obra). Pessoas com autismo têm mais dificuldades tanto com a metáfora quanto com a metonímia, que, muito mais do que apenas figuras de linguagem, são processos cognitivos.

O nosso dia-a-dia é repleto dessas figuras de linguagem, vide nossas expressões idiomáticas e nossa comunicação como um todo. Quando alguém diz “não adianta chorar o leite derramado”, automaticamente, a maioria das pessoas entende que se trata de não lamentar o problema do passado, mas, no caso de autistas, eles podem interpretar a frase literalmente e achar que se trata de alguém chorando por um copo de leite que caiu no chão. Isso se dá devido a uma cognição diferente, que tende à interpretação literal.

No caso das metáforas, eu lembro que tinha dificuldade até mesmo com a expressão “fazer a barba” porque, para mim, o conceito de “fazer” implica criação, confecção. Quando meu pai dizia “vou fazer a barba” e saía do banheiro sem barba, aquilo era extremamente confuso para mim! Como ele pode ter ido FAZER a barba e voltar SEM a barba? E por que ele foi FAZER se ele JÁ TINHA barba? (Eu hein. Que doido…) Mas lá para minha pré-adolescência que eu comecei a entender o que ele queria dizer com essa expressão. Então eu percebi que “fazer a barba” significa, literalmente, DESfazer a barba. Curioso, não?

Fora esse caso, muitas expressões me confundem até o dia de hoje. Mesmo que eu já tenha as ouvido antes, é capaz de eu ou não entender ainda ou já ter recebido uma explicação, mas não aceitá-la. 😛 Eu tenho uma tendência a ser teimosa. Não raramente minha mãe tem que me dizer “é só uma expressão, Alice” ou “é só um modo de falar”. Também acontece de eu contar uma coisa para ela e ela dizer “mentira!”, e eu logo me defendo dizendo “verdade!”. Aí ela já vem com aquele papo de que é só um modo de dizer. Por mais que eu tenha entendido que ela dizer que o que eu disse é mentira não significa que ela queira dizer que é mentira mesmo, eu não consigo ver sentido nisso! E como eu vou saber se ela realmente quer dizer que estou mentindo se ela diz isso quando sabe que é verdade?! Aí entra a minha teimosia e eu vou lá e deixo bem claro que não é mentira minha, mesmo que ela já saiba disso.

Agora, falando de metonímias, tem um caso específico de que consigo me lembrar. Certa vez, quando eu estava ajudando minha mãe a limpar a casa, ela pediu “Alice, pega o Veja pra mim”. Para quem não sabe, Veja é a marca de um produto de limpeza. Eu procurei e procurei esse tal de Veja e não encontrei em lugar nenhum! Voltei para minha mãe e avisei que não tinha nenhum produto com essa marca aqui em casa. Daí ela mesma foi ao local e pegou o produto que ela queria e disse “Como não? Olha aqui o Veja“. E era uma marca completamente diferente!!!! Como eu não sou vidente (e nem neurotípica), eu não sabia que ela estava usando a metonímia da marca pelo produto! Eu estava procurando pelo nome Veja, e não pelo produto de limpeza que faz a mesma coisa, mas é de outra marca.

Sabemos que são diversas as nossas expressões que se utilizam de metáforas e metonímias. Imagine como a comunicação se torna difícil para uma pessoa que tem o pensamento literal! Não é à toa que muitos autistas demoram a adquirir linguagem. Olha como nossa comunicação é complexa! Envolve muitos conhecimentos, além da interação social, pois, como disse uma professora do 1ª período da minha faculdade, “não se produz texto no vácuo” (o que quer dizer que sempre temos uma intenção ao produzir um texto. Note que texto engloba conversas, imagens, gestos e, mais obviamente, textos escritos etc).

AH! Outra coisa. Não é somente através da língua (seja falada ou sinalizada) que nos utilizamos dessas figuras de linguagem. Nossos gestos, que fazem parte da linguagem não-verbal, também têm! Por exemplo, quando falamos de algo que já aconteceu, ou seja, do passado, gestualizamos com o braço para trás. Isso é nada mais nada menos do que a metáfora “passado é para trás”. Curiosamente, existe uma língua – não me lembro qual – que interpreta o passado como algo que está à frente de nós. Legal, né? Aprendi isso nas aulas de Linguística IV, nas quais falamos muito de metáforas e metonímias. Talvez por isso os autistas também tenham dificuldade para entender e utilizar gestos. Sabiam que toda a nossa linguagem é baseada nesses dois processos cognitivos? Até quando dizemos “estou na praia”, estamos interpretando a praia como um contêiner do qual estamos dentro. Letras também é cultura!

Espero que tenham gostado do meu texto e o achado bem útil e informativo. Gostaria de dedicar esta matéria à minha professora Lilian Ferrari, de Linguística IV, 4° período, com quem aprendi muito e passei a amar a Linguística Cognitiva. Não esqueçam de comentar e me dizer o que acharam da matéria! Curta minha página no Facebook A Menina Neurodiversa! Muito obrigada! Tchau tchau!

Livros que recomendo sobre o assunto:

  • Introdução à Linguística Cognitiva – Lilian Ferrari (UFRJ)
  • Metáforas da vida cotidiana – George Lakoff (UC Berkeley)

4 comentários sobre “Autismo e pensamento literal: metáforas e metonímias

  1. Marisa 24 de abril de 2019 / 18:14

    Excelente Alice!
    Que clareza e riqueza na sua explicação.
    Você tem um futuro brilhante no estudo da Linguística!

    Curtido por 1 pessoa

    • alimcs 24 de abril de 2019 / 18:23

      Obrigada, sra. Marisa. Espero um dia ser tão brilhante quanto a sra!

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  2. Giovana 16 de outubro de 2019 / 10:39

    Oi Alice, tudo bem? amei encontrar seu blog e vou te seguir nas redes sociais também. Trabalho em Sala de Recursos no Atendimento Educacional Especializado e atendo muitos autistas. Estava procurando sobre este assunto – figuras de linguagem e autismo – para elaborar atividades para trabalhar com um aluno especifico que está no 9º ano e tive a feliz surpresa em parar aqui. Com mais tempo irei voltar para ler e curtir seu blog. Hã e ler o que você escreveu me deu ótimas ideias para fazer as atividades, porque entendi mais um pouquinho, então obrigada por compartilhar suas experiências. Abraço. Giovana.

    Curtido por 1 pessoa

    • alimcs 16 de outubro de 2019 / 10:42

      Puxa! Eu fico mesmo muito feliz de ter ajudado! Muito obrigada pelo comentário 🙂

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