Autismo e namoro

Descrição de imagem: um braço feminino de mão dada com um braço masculino durante o pôr do Sol.

É certo que, para o diagnóstico de autismo ocorrer, é preciso haver prejuízos sociais consistentes. O problema é que muitas pessoas acham que autistas não podem se relacionar, ainda mais estar em um namoro! Isso não é verdade. Euzinha mesma me encontro atualmente em um relacionamento amoroso à distância.

Quando eu tinha 17 anos, tive o meu primeiro namorado. Foi um choque para a família, pois nunca demonstrei interesse nisso. Eu realmente não tinha o menor interesse, mas gostava de jogar com o menino, então aceitei estar no relacionamento. O problema é que ele queria fazer coisas de namorados, como andar de mãos dadas, dar beijos e ficar abraçado no cinema. Já mencionei minha dificuldade com toques? Pois é…não deu certo. Eu suo muito pelas mãos e detestava ficar de mãos dadas. Tive meu primeiro beijo com ele e eu detestei a sensação, as texturas relacionadas a isso. Era desconfortável e nojento. Não via sentido em fazer algo assim. Quanto a abraçar e namorar no cinema, eu me irritava porque, como certos toques tiram toda a minha concentração e eu queria prestar atenção no filme, era uma péssima experiência deixar o garoto ficar com o braço atrás de mim. Teve uma vez que ele quis me beijar durante o filme…eu fui ao cinema para ver o filme, tá bem?!

Não é de se admirar que o relacionamento não deu certo. Eu tenho dificuldades de demonstrar ou compreender minhas emoções. O pobre do menino não se sentia em um namoro e terminou comigo (por telefone) depois de uns dois meses de relação. Eu cheguei a chorar, mas foi mais pela mudança súbita (ver matéria sobre autismo e rotina) do que por perder o status de relacionamento. Eu só queria o menino para jogar comigo e, por mim, continuaríamos jogando juntos como se nada tivesse acontecido, mas ele nunca mais entrou em contato. Acho que é melhor assim.

Depois de alguns anos sem querer nunca mais ter essa experiência, conheci um menino sueco em um site de aprender línguas estrangeiras. Nós gostávamos das mesmas coisas e começamos um relacionamento em 2018. Também não deu certo e terminamos dois meses depois. Fiquei bem chateada pois, para mim, minha única chance de conhecer alguém para namorar é à distância, visto que sou muito desajeitada socialmente e pouco expressiva. Sinceramente, ninguém que só me viu de longe iria me querer por causa dessas características. Eu sempre estive ciente de que só alguém que me conhecesse de verdade poderia ter interesse em mim, e que eu levo muito tempo para conseguir me soltar com alguém novo. Por isso, um relacionamento à distância era o ideal para mim.

Nesse site de aprender línguas, eu já tinha feito amizade com J. bem antes de conhecer o meu namorado da Suécia. Esse meu amigo foi um dos primeiros a saber do meu diagnóstico de autismo, e nós sempre nos apoiávamos quanto à saúde mental. Ele até procurou terapia graças ao meu conselho! Nós nos falávamos praticamente todos os dias, e ele me dava muito mais atenção que o meu namorado. Nós já sabíamos muito um do outro e, de fato, somos muito compatíveis. Foi aí que, em 15 de Fevereiro de 2019, começamos um relacionamento amoroso. A melhor parte? Ele sabe de todas as minhas dificuldades e manias e me ama exatamente como eu sou! Nós sabemos das limitações um do outro e ele me vê como Alice, e não como autista.

Isso é muito importante em um relacionamento no qual uma das pessoas é um pouco diferente, seja com autismo ou qualquer outra síndrome. No caso do autismo, é sempre importante deixar claro que nem sempre vai poder haver toque, que não se pode sair para lugares muito cheios e barulhentos, que a/o autista precisa manter sua rotina e não gosta de acontecimentos inesperados, que pode haver crises e o apoio e a compreensão do outro são indispensáveis nesses momentos difíceis, que a pessoa com TEA normalmente é um pouco mais infantil e tem dificuldades de se comunicar da forma esperada pela sociedade e não se deve ter vergonha do/a parceiro/a por causa disso…enfim, é necessário deixar bem claro quais são as dificuldades da pessoa com autismo para o parceiro não ficar perdido ou se deparar com uma pessoa completamente diferente daquela que parecia tão comunicativa na internet.

Por exemplo, para mim, ir a um supermercado é uma experiência muito desgastante. Todas aquelas luzes do teto e estímulos visuais me causam dor nos olhos. Os barulhos simultâneos me causam dor nos ouvidos. Depois de um certo tempo nesse ambiente, começa a ficar insuportável e me dá dor de cabeça. Por causa disso, esperar na fila pode ser muito difícil. Além disso, situações que exigem interação social podem ser difíceis também. Sair de casa de forma geral pode ser muito desgastante para o autista, mesmo que ele aparente não ter problemas no início. Com isso, quero dizer que adaptações precisam ser feitas em um casal em que há neurodiversidade. Crises de choro e mau humor podem acontecer e, para que isso seja evitado, o tempo solitário e quieto do autista deve ser respeitado para que ele se recarregue de todos os estresses do dia e volte para o seu amor.

J. já está ciente de que nem sempre vou entender as piadas dele ou suas expressões e ironias. Ele já está ciente de que preciso de ajuda para não fazer as coisas sempre do mesmo jeito. Ele já sabe, mesmo eu amando abraços, que, se o ambiente estiver caótico (muitos estímulos, por exemplo), o abraço vai ter que esperar até estar tudo calmo. J. sabe que eu sou bastante desajeitada e que posso ser muito sincera às vezes, mesmo quando não devo ser. Ele sabe de tudo isso, e querem saber? Ele me ama mesmo assim! Ele quer estar comigo e me acha perfeita como sou.

Moral da história: se o seu desejo é ter um relacionamento amoroso, encontre alguém que te aceite como você é e ame cada peculiaridade sua. Não ache que precisa mudar quem você é só para agradar alguém. Namore alguém que, ao invés de achar estranho que você pule ou corra de um lado para o outro e agite os braços quando está muito animada, faça isso junto com você!

Obrigada por ler a minha matéria! Agradeceria muito se você pudesse comentar e compartilhá-la com os amigos. Não esqueça de curtir minha página no facebook: A Menina Neurodiversa. Tchau!

3 comentários sobre “Autismo e namoro

  1. Siael Carvalho 28 de fevereiro de 2020 / 00:20

    Top. Muito bem escrito. Sua experiência é muito válida pra ajudar outros a entender as dificuldades num relacionamento. Eu não sei se sou autista, mas me identifico com muitas descrições que os autistas fazem de si mesmos.

    Curtir

  2. Evellyn Thayssa Silva de Oliveira 7 de setembro de 2020 / 03:58

    Amei ❤❤ me ajudou muito

    Curtir

  3. Elizabete 30 de março de 2021 / 00:35

    Gostaria de fazer algumas perguntas pra vc. Será que poderia me escrever para meu email quando tiver tempo? Obrigada

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s