Autismo e interesses restritos

Descrição de imagem: um menino de pouca idade brinca com dinossauros e olha para um deles

Para que se diagnostique o autismo em uma pessoa, é necessário que ela apresente déficits na comunicação e na interação social, além de interesses restritos e comportamento repetitivo. Essas últimas característica traduzem o que muitos chamam de hiperfoco. Isso nada mais é do que um interesse acentuado por um ou alguns poucos assuntos, enquanto o resto costuma ser ignorado. Em pessoas mais fortemente afetadas pelo TEA, esse interesse pode ser por objetos, enquanto, em pessoas menos afetadas, como é o caso dos Aspergers, pode ser, por exemplo, em uma área de estudo. Hoje, eu vou falar um pouco sobre isso e tentar explicar por que acontece conosco.

Não é de hoje que se sabe que autistas têm uma neurologia diferente dos demais. Nessa diferença, está englobada uma dificuldade acentuada com mudanças. Essa dificuldade se manifesta de várias formas, como não gostar de sair da rotina, não saber lidar com surpresas e, ainda, só gostar de saber e falar sobre determinados assuntos. Esse hiperfoco do autista chama atenção quando os pais percebem que o filho gosta de brincar apenas alinhando seus brinquedos ou girando a roda de um carrinho por incontáveis minutos, mas, na fase adulta, o que mais chama atenção é a tendência do autista de monopolizar a conversa com seu tema de interesse e não perceber que deve deixar o outro falar ou que já não aguentam mais ouvir sobre esse mesmo assunto.

Como eu não sou de falar muito, o meu caso é um pouco menos perceptível. Quando eu era criança e tinha minhas obsessões, o que eu fazia era ver vídeo após vídeo sobre o assunto e pensar muito e desenhar sobre isso. Já aconteceu de minha melhor amiga B. me pedir para eu mudar de assunto após eu só ficar falando sobre os patinadores do Disney on Ice. Já aconteceu também de meu melhor amigo da infância me implorar para eu não colocar, pela ENÉSIMA vez, o DVD do show de música clássica do compositor grego Yanni. Acontece também de eu ler muito sobre meu assunto de interesse. Quando gosto de alguma coisa, todo o meu tempo livre passa a ser dedicado a ela e eu repito uma, duas, três, dezenas de vezes os vídeos ou textos que falam sobre isso. Gosto de guardar as informações na minha mente e acessá-las a todo momento, até quando preciso me concentrar em outra coisa. Isso também ocorre com músicas, e eu tendo a ouvir várias vezes seguidas a mesma e ter minha própria rotina de ouvir essas mesmas músicas, as que devo repetir e em que ordem devo ouvi-las.

O caso do menino que é obcecado por dinossauros é bem estereotipado. No meu caso, já tive forte interesse por buracos negros, polvos, desenhos animados, Disney on Ice, Cirque du Soleil e jogos. Esse último sendo o mais duradouro, que começou ainda na infância e perdura até os dias de hoje. O que mais amo nos jogos é poder me sentir em um outro mundo e perceber os seus detalhes visuais e a beleza de suas trilhas sonoras. Não invisto tanto em saber sobre a história do universo dos jogos, como muitos fazem. O que eu gosto mesmo é da experiência de jogar e reparar no que vejo e ouço. Eu gosto de conversar sobre jogos e, praticamente, a maioria esmagadoras das conversas que fogem desse assunto me fazem sucumbir ao silêncio e não participar. Eu só sei falar sobre meus assuntos de interesse ou hiperfocos e algumas outras poucas coisas, como a faculdade. Conversa fiada não é comigo. Você nunca me encontrará conversando com um estranho no ponto do ônibus sobre o tempo ou sobre a demora do transporte. Isso simplesmente não é natural para mim, além de ser algo que eu não sei fazer.

Entretanto, essa característica nem sempre é benéfica. Se um autista tem forte interesse em astrofísica, por exemplo, ele terá um vasto conhecimento sobre esse assunto, que só não ultrapassa o dos estudiosos da área. Apesar disso, ele pode acabar não tendo interesse nenhum em outros assuntos, o que limita suas possibilidades de interação social e pode levar a tirar notas baixas na escola, além da independência. Eu, por exemplo, que tenho interesse em jogos, praticamente só tenho amigos que também gostam disso e mais os meus dois amigos da faculdade. Na escola, como eu tinha interesse em português, eu não precisava estudar muito para tirar uma boa nota nessa matéria. Já com matemática, física e química, estudar era muito penoso e, às vezes, quase impossível. Manter minha atenção em algo que foge aos meus interesses restritos é muito difícil e eu tendo a ficar em uma espécie de ilha de conhecimento. Também não tenho nenhum interesse em maquiagem, roupas e essas coisas (não que isso seja ruim) e isso me torna dependente da minha mãe no que diz respeito a me arrumar, saber o que devo vestir para uma determinada situação etc. Por eu não ter interesse nisso, eu não consigo saber sequer o básico, e isso não é muito legal.

Os interesses restritos podem tornar o aprendizado em outras áreas muito mais difícil. Às vezes, conhecimentos básicos, como algumas questões políticas do país ou como fazer compras sozinho, ou até contas matemáticas básicas, se matemática não for um interesse, se tornam mais difíceis de aprender. Por isso, muitos terapeutas alertam para a importância de utilizar o hiperfoco do autista como ferramenta para o seu aprendizado nas mais diversas áreas de estudo. Como exemplo, se um autista tem interesse em números, e você quer ensiná-lo sobre história, que tal mostrar para ele as datas em que os eventos ocorreram e calcular com ele a distância temporal entre cada evento e de cada evento com os dias de hoje? A partir disso, pode apresentá-lo ao que realmente quer ensinar. Não obstante, não se deve deixá-lo preso em sua própria bolha! Com muita paciência e carinho, pode ir apresentando coisas novas a ele, mas sem forçar. Nós autistas somos capazes de aprender! Tenho fé que um dia serei independente e poderei gerenciar minha própria vida sem maiores problemas.

Essa foi a matéria de hoje. Espero que tenham gostado. Por favor, deixem nos comentários o que acharam, sugestões e críticas construtivas. Simplesmente amo ler comentários nas minhas matérias! Curta também minha página no Facebook: A Menina Neurodiversa e siga o site para receber notificações sempre que eu publicar algo novo! =) É uma honra ter você por aqui! Obrigada pelo interesse nesse assunto tão importante! Até a próxima e tchau tchau!

Entrevista com Marcos Petry, do canal Diário de um autista

Descrição de imagem: Na frente de uma parede azul, Marcos Petry olha para a câmera com a coba aberta, como quem está falando. Ele usa óculos e uma camisa verde.

Olá, pessoal! Tive o prazer de entrevistar o Marcos Petry, do canal Diário de um autista. Ele tem um canal no YouTube, e seu vídeo mais famoso se chama Coisas que todo autista gostaria que você soubesse. (clique para acessar). Nesse vídeo, ele lista algumas coisas que gostaria que as pessoas soubessem sobre sua condição de autista. É um vídeo muito interessante, e sugiro fortemente que você assista! Fiz perguntas sobre ele e sobre sua condição de autismo, e ele respondeu de forma bem didática. Considero as informações divulgadas a seguir cruciais para a conscientização sobre o autismo. Muito se fala sobre isso, mas pouco se conhece de verdade. Não raro vemos jovens utilizando-se do termo “autista” como forma de inferiorizar uma pessoa. Dessa forma, hoje vamos conhecer um pouco mais sobre essa síndrome tão complexa a partir da visão do próprio autista. Acompanhe!

Alice: Marcos, pode se apresentar, falar um pouquinho de você?

Marcos: Sou Marcos Petry, tenho 26 anos de idade, sou escritor, palestrante e produtor de conteúdo. Sou portador de uma lesão cerebral e autista. Logo após o nascimento, tive complicações que acarretaram em desidratação profunda e o rompimento de uma membrana no coração, um sopro! Por conta disso, fiquei internado por muito tempo e, quando ganhei alta, parti para a estimulação precoce para o cérebro. Fiz anos de atividades que visavam ao desenvolvimento de novas trilhas neurais (alternativas àquelas que ficaram lesadas). Logo após esses treinos, meus pais perceberam que havia certas sequelas que não puderam ser corrigidas, como os movimentos repetitivos e pouca tolerância a sons, que eles logo atribuíram à lesão, mas entenderam logo que esse conjunto de manifestações se tratavam de nuances do autismo!

Alice: Com quantos anos você foi diagnosticado com autismo? Se foi antes de 2013, quando todos os subtipos foram englobados no TEA, com qual tipo de autismo você foi diagnosticado (infantil, clássico, Asperger etc)?

Marcos: Com sete anos de idade, uma pedagoga e amiga da minha família começou a notar as características do autismo e aconselhou-nos a procurar mais sobre a condição, então meus pais passaram a estudar e, sem encontrar explicações muito plausíveis ou de fácil acesso, eles decidiram continuar me ofertando oportunidades de vivenciar o máximo de situações possível: novos contextos, cheiros, texturas, ambientes…mais tarde, quando eu tinha 12 anos e acesso à internet, refiz o roteiro de pesquisa dos meus pais e descobri mais nuances do autismo, que, na época, dividia-se em Asperger e autismo. Fui percebendo que era aspie, mas, hoje em dia, gosto de considerar a classificação unificada do DSM V, pois creio que, desse jeito, fica mais fácil evidenciar dificuldades e conquistas dentro da ideia de Espectro Autista!

Alice: O que é a hipersensibilidade que os autistas têm? Pode falar um pouco sobre isso?

Marcos: Hipersensibilidade é o excesso de informações no ambiente de vivências. Pode ser caracterizado por um ou mais sentidos. No meu caso, sou hipersensível na parte visual e auditiva: tenho pouquíssima tolerância à luz e a sons. Para indivíduos hipersensíveis, os estímulos chegam a causar sintomas físicos, como dores ou até formigamentos. Há também os indivíduos hipossensíveis, ou seja, aqueles que precisam de muita informação ou sensações para engajar-se!

Alice: O que uma pessoa nunca deve dizer para alguém com autismo?

Marcos: Acredito que os ditos mais prejudiciais são aqueles que limitam a capacidade dos autistas, do tipo “autista não sente empatia”, ou ainda “autistas não gostam de outras pessoas por perto!”, pois nenhuma dessas afirmações é verdade! O que acontece é que o autista tem dificuldades para lidar com muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, o que causa a impressão de estar alheio a tudo, mas não deixe que essa aparente apatia desmotive!

Alice: Você fez algum tratamento durante a vida? Quais e como foi?

Marcos: Eu nunca fiz um tratamento com foco nas manifestações do autismo, mas atuei para diversificar o foco em algumas situações e para entender o mundo neurotípico da melhor forma que pude. Parte disso foi feita pelos esforços dos meus pais, não para fica igual aos neurotípicos, mas para, ao menos, tentar me conectar a eles.

Alice: Como você acha que o seu canal pode ajudar as pessoas a entenderem melhor sobre o autismo?

Marcos: Acho que, ao informar sobre o autismo e trazê-lo para o cotidiano, eu aproximo o autista das demais pessoas, e isso é um pequeno e importante passo na direção de incluir! Entendo também que o canal é uma troca de experiência entre autistas, suas famílias, seu professores e a comunidade onde eles vivem, e, ao trocar informação, as pessoas ficam conscientes do autismo, suas dificuldades e, é claro, as potencialidades também!

Alice: Pode falar um pouco sobre os movimentos repetitivos dos autistas?

Marcos: Os movimentos repetitivos do autista servem para conferir previsibilidade ao dia a dia e para a regulação do pensamento. O cérebro autístico é muito facilmente hiperexcitado com informações ao seu redor. Fazer os movimentos repetitivos proporciona ao autista uma possibilidade de filtrar em meio a tantos estímulos. Em meio aos movimentos, o autista discerne melhor entre aquilo que merece atenção e aquilo que não merece tanta atenção!

Alice: Quais são as coisas que mais de desorganizam mentalmente?

Marcos: O barulho repentino, sem aviso, me desorganiza bastante, assim como as luzes fortes! Algumas texturas também me desorganizam bastante, tais como as texturas de algumas frutas e alimentos. Entre eles, destaco a textura do abacate e do kiwi, além da textura de alguns calçados e camisas (principalmente aquelas que possuem botões).

Alice: Por que os autistas têm crises?

Marcos: Os autistas têm crises quando não conseguem filtrar tantos estímulos acontecendo ao mesmo tempo! Por conta de não conseguirem expressar o desconforto ou mesmo de sentirem-se afetados, é que muitos deles entram em crise. É uma forma tanto de chamar atenção para um problema que não conseguem resolver e também uma busca desesperada pela previsibilidade.

Alice: O que você acha importante dizer para pais de autistas que se sentem perdidos e sozinhos? Como eles podem se conectar melhor com seus filhos no espectro?

Marcos: Aos pais, eu diria que eles podem contar com bases de conhecimento, como o meu canal e outros tantos canais pró autismo para entender um pouco melhor o espectro. Diria também que o autista consegue grandes feitos desde que os familiares acreditem nesse potencial! Deem muitas oportunidades para que seus filhos se desenvolvam através de vivências diárias e cotidianas. Mediem isso com carinho e ofertem um pouco a cada dia, sempre avisando aos autistas qual será o desafio, a lição a aprender! Tenham, acima de tudo, muito amor pelos seus filhos.

Muito didáticas as respostas do Marcos, não é? Espero que tenha ajudado você, que convive com algum autista e quer conhecê-lo melhor e saber como ajudá-lo. O intuito deste site é justamente esse! Procuro tanto criar um espaço seguro para pessoas autistas quanto levar mais informações sobre autismo para as pessoas. Tanto para as que precisam dessas informações quanto para aquelas que querem se informar.

Deixe nos comentários sugestões de matérias ou de perguntas que querem que eu responda ou faça para outros autistas. Quem você quer me ver entrevistar? Que informações você quer acessar? O que mais quer saber sobre autismo? Estou às ordens! Não esqueça de seguir a página A Menina Neurodiversa no Facebook. O canal do Marcos Petry você acessa clicando aqui. Então é isso! Tchau tchau!

Autismo e pensamento literal: metáforas e metonímias

Descrição de imagem: Em fundo roxo, a frase “figuras de linguagem” em branco. Nos cantos, canetas coloridas.

Na escola, aprendemos sobre as tais figuras de linguagem, em especial, a metáfora e a metonímia. A primeira é como uma comparação, na qual se atribui qualidade a algo através de uma semelhança que apresenta com outro algo (ex.: A menina é uma flor / Semelhança entre menina e flor em relação à beleza, graciosidade, aroma etc). Quanto à segunda, existe a correspondência da parte com o todo (ex: Eu li Machado de Assis / autor pela obra). Pessoas com autismo têm mais dificuldades tanto com a metáfora quanto com a metonímia, que, muito mais do que apenas figuras de linguagem, são processos cognitivos.

O nosso dia-a-dia é repleto dessas figuras de linguagem, vide nossas expressões idiomáticas e nossa comunicação como um todo. Quando alguém diz “não adianta chorar o leite derramado”, automaticamente, a maioria das pessoas entende que se trata de não lamentar o problema do passado, mas, no caso de autistas, eles podem interpretar a frase literalmente e achar que se trata de alguém chorando por um copo de leite que caiu no chão. Isso se dá devido a uma cognição diferente, que tende à interpretação literal.

No caso das metáforas, eu lembro que tinha dificuldade até mesmo com a expressão “fazer a barba” porque, para mim, o conceito de “fazer” implica criação, confecção. Quando meu pai dizia “vou fazer a barba” e saía do banheiro sem barba, aquilo era extremamente confuso para mim! Como ele pode ter ido FAZER a barba e voltar SEM a barba? E por que ele foi FAZER se ele JÁ TINHA barba? (Eu hein. Que doido…) Mas lá para minha pré-adolescência que eu comecei a entender o que ele queria dizer com essa expressão. Então eu percebi que “fazer a barba” significa, literalmente, DESfazer a barba. Curioso, não?

Fora esse caso, muitas expressões me confundem até o dia de hoje. Mesmo que eu já tenha as ouvido antes, é capaz de eu ou não entender ainda ou já ter recebido uma explicação, mas não aceitá-la. 😛 Eu tenho uma tendência a ser teimosa. Não raramente minha mãe tem que me dizer “é só uma expressão, Alice” ou “é só um modo de falar”. Também acontece de eu contar uma coisa para ela e ela dizer “mentira!”, e eu logo me defendo dizendo “verdade!”. Aí ela já vem com aquele papo de que é só um modo de dizer. Por mais que eu tenha entendido que ela dizer que o que eu disse é mentira não significa que ela queira dizer que é mentira mesmo, eu não consigo ver sentido nisso! E como eu vou saber se ela realmente quer dizer que estou mentindo se ela diz isso quando sabe que é verdade?! Aí entra a minha teimosia e eu vou lá e deixo bem claro que não é mentira minha, mesmo que ela já saiba disso.

Agora, falando de metonímias, tem um caso específico de que consigo me lembrar. Certa vez, quando eu estava ajudando minha mãe a limpar a casa, ela pediu “Alice, pega o Veja pra mim”. Para quem não sabe, Veja é a marca de um produto de limpeza. Eu procurei e procurei esse tal de Veja e não encontrei em lugar nenhum! Voltei para minha mãe e avisei que não tinha nenhum produto com essa marca aqui em casa. Daí ela mesma foi ao local e pegou o produto que ela queria e disse “Como não? Olha aqui o Veja“. E era uma marca completamente diferente!!!! Como eu não sou vidente (e nem neurotípica), eu não sabia que ela estava usando a metonímia da marca pelo produto! Eu estava procurando pelo nome Veja, e não pelo produto de limpeza que faz a mesma coisa, mas é de outra marca.

Sabemos que são diversas as nossas expressões que se utilizam de metáforas e metonímias. Imagine como a comunicação se torna difícil para uma pessoa que tem o pensamento literal! Não é à toa que muitos autistas demoram a adquirir linguagem. Olha como nossa comunicação é complexa! Envolve muitos conhecimentos, além da interação social, pois, como disse uma professora do 1ª período da minha faculdade, “não se produz texto no vácuo” (o que quer dizer que sempre temos uma intenção ao produzir um texto. Note que texto engloba conversas, imagens, gestos e, mais obviamente, textos escritos etc).

AH! Outra coisa. Não é somente através da língua (seja falada ou sinalizada) que nos utilizamos dessas figuras de linguagem. Nossos gestos, que fazem parte da linguagem não-verbal, também têm! Por exemplo, quando falamos de algo que já aconteceu, ou seja, do passado, gestualizamos com o braço para trás. Isso é nada mais nada menos do que a metáfora “passado é para trás”. Curiosamente, existe uma língua – não me lembro qual – que interpreta o passado como algo que está à frente de nós. Legal, né? Aprendi isso nas aulas de Linguística IV, nas quais falamos muito de metáforas e metonímias. Talvez por isso os autistas também tenham dificuldade para entender e utilizar gestos. Sabiam que toda a nossa linguagem é baseada nesses dois processos cognitivos? Até quando dizemos “estou na praia”, estamos interpretando a praia como um contêiner do qual estamos dentro. Letras também é cultura!

Espero que tenham gostado do meu texto e o achado bem útil e informativo. Gostaria de dedicar esta matéria à minha professora Lilian Ferrari, de Linguística IV, 4° período, com quem aprendi muito e passei a amar a Linguística Cognitiva. Não esqueçam de comentar e me dizer o que acharam da matéria! Curta minha página no Facebook A Menina Neurodiversa! Muito obrigada! Tchau tchau!

Livros que recomendo sobre o assunto:

  • Introdução à Linguística Cognitiva – Lilian Ferrari (UFRJ)
  • Metáforas da vida cotidiana – George Lakoff (UC Berkeley)

Autismo: meu mundo interno de fantasia

Descrição de imagem: em fundo preto, contorno de uma cabeça e pescoço e várias fumaças coloridas dentro.

Não sei se é assim com todo mundo, mas tenho meu próprio mundinho particular dentro da minha mente. Acho que é comum no autismo as pessoas terem uma forma de escape dentro de si. Por exemplo, vi, certa vez, uma entrevista com um homem com Asperger que disse que tinha seu próprio mundo interno de fantasia, em que ele havia criado seu próprio país e pensado em todo o seu sistema econômico e detalhes que norteiam essa realidade. Achei bem interessante. Foi aí que me dei conta que isso pode ser algo relacionado ao autismo. Lembro que o moço disse que gosta de passar um tempo nesse mundo quando dá vontade. Isso dito, vou falar do meu próprio mundo interno de fantasia.

Quando eu era criança, eu era fissurada por desenhos animados. Em todo desenho de que eu gostava, tinha uma personagem que era minha preferida. Os episódios que eu mais sentia ansiedade para assistir eram os que tinham foco nessas personagens de que eu gostava. Eu ficava assistindo às cenas com a maior atenção, e, depois que aprendi a usar a internet, gostava de procurar esses episódios ou só as cenas para ver e ficava repetindo. O que isso tem a ver com meu mundo interno de fantasia? Ora, tudo! Todo dia, antes de dormir, eu gostava de recapitular as minhas cenas preferidas com as personagens de que eu mais gostava. Eu repassava essas cenas na mente várias vezes. Lembro de demorar para escolher uma personagem para passar o resto do meu tempo acordada pensando nela, que nem as pessoas escolhendo filme no catálogo da Netflix. Depois que escolhia a personagem, eu tinha duas opções: 1) rever minhas cenas preferidas na mente; 2) criar a minha cena ideal, sempre com enfoque naquela personagem. Era assim até eu cair no sono. Eu levava um tempão para dormir porque a chegada da noite era o momento em que eu sabia que ia ter aquele tempo tão precioso comigo mesma. Era o momento em que minha mente iria me entreter até eu apagar. Eu gastava o maior tempão somente em uma cena porque eu precisava pensar em um detalhe por vez, como o movimento, ou o rosto, ou as roupas. Minha ambição sempre era prosseguir com a cena, mas nunca acontecia. Eu ficava presa assistindo sempre à mesma várias e várias vezes. As noites eram bem agitadas.

Hoje em dia, não é bem assim. Eu ainda vejo desenho, mas muito menos. Sequer vejo mais televisão. Tudo ao que assisto é pelo computador. Dessa forma, porque eu não vejo mais tantos desenhos, minhas cenas preferidas são as da vida real, com pessoas reais. Eu gosto de rever e criar cenas com pessoas que eu conheço ou já vi. Por exemplo, um dos assuntos de que gosto é o Disney on Ice. Eu sei o nome de vários dos patinadores e conheço um pouco sobre eles. Já aconteceu de eu me imaginar com eles rindo e me divertindo. Por ser uma cena ideal para mim, com personagens de que gosto e sobre um assunto legal, isso me causa muita animação. Se eu me imagino rindo na cena, é capaz de eu acabar rindo na vida real, e isso pode acontecer em um momento bem aleatório. Normalmente os meus momentos de navegar pelo meu mundo interno acontecem quando eu estou sozinha, o que não causa problemas. Pode acontecer de eu ficar tão agitada de animação que eu levanto subitamente da cadeira e começo a correr ou pular, me agitando e rindo. Não apenas com os assuntos de que gosto, mas também é possível eu me animar com a lembrança de algo que realmente aconteceu comigo, ou de eu criar cenas que eu gostaria que acontecessem, com a participação de pessoas do meu convívio. Curiosamente, nem todas as cenas são felizes. Já aconteceu diversas vezes de eu me imaginar tendo uma crise na qual eu me agrido. Da última vez que isso aconteceu, eu levantei da cadeira para correr e pular, mas, ao invés de rir, eu me soquei. Parece que eu me perco no que não é real por um segundo e acabo transferindo a cena mental para a realidade. É estranho.

Bem, acho que é isso. É a primeira vez em toda a minha vida que compartilho isso. Até hoje, somente eu sabia dessa minha característica. Meus pais já sabiam que eu corria e pulava, pois não é fácil de se esconder, visto que nossa casa é pequena. Mas eles nunca souberam o que acontecia para engatilhar essa reação. Acho que ninguém nunca soube. Tenho curiosidade de saber se isso acontece com mais alguém, pois me sinto muito estranha sendo assim. Correr dentro de casa por causa de um pensamento muito animador acontece desde que eu me lembro. Agora que estou tomando um outro remédio para ansiedade, não tenho corrido mais, mas ainda pulo, me agito etc. Normalmente eu não gosto de ser interrompida quando estou no meu mundo interno de fantasia. Eu gosto de ficar lá o tempo que eu quiser, mas, como isso me faz ficar muito agitada, eu tento evitar hoje em dia, pois já sou uma adulta. É muito mais normal ver uma criança correndo e rindo sozinha do que uma adulta, certo? 😛

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Autismo e pensamento concreto

Descrição de imagem: Batman pensativo com a mão no queixo. Em cima, a frase “entendeu?”, e, embaixo, a frase “ou quer que eu desenhe?”

Não é de agora que se sabe que o pensamento das pessoas com autismo é muito mais concreto do que o da maioria das pessoas. Exatamente por isso que temos dificuldades com figuras de linguagem, como metáforas. Bem, não é sobre isso que vim falar hoje. O pensamento literal em si fica para outra matéria. Hoje, vim falar sobre o pensamento concreto no autismo. Por que temos tanta dificuldades para entender conceitos abstratos? Por que, às vezes, realmente precisamos que a pessoa desenhe?

Sempre que alguém me pergunta “entendeu ou quer que eu desenhe?”, me dá aquela vontade de responder “sim! Desenha, por favor!”. É que recursos visuais são excelentes aliados para o aprendizado de pessoas autistas. Pessoalmente, tenho muita dificuldade de compreender comandos muito longos e sem indicação visual. Quer um exemplo? Pois bem. Quando alguém me indica um caminho que eu tenho que seguir, eu preciso que me dê informações concretas, como “quando chegar à esquina e vir uma oficina azul chamada X, vire à direita”. Nada de “ande três quarteirões, depois vire à direita, depois vire à esquerda, depois entra na rua tal…” Isso não funciona comigo e só me deixa frustrada e confusa.

Teve uma vez que eu precisei ir ao oftalmologista sozinha pela primeira vez. Meu pai tentou várias vezes me explicar como chegar lá. Eu só consegui me sentir segura depois de desenhar um mapa com as instruções que ele me passou. Fui andando na rua com meu caderninho na mão e olhando para o meu desenho, como se fosse um GPS. No mapa, eu pus os nomes das ruas, pontos de referência e as direções que deveria seguir. Foi muito mais fácil, e acabei não me perdendo e chegando ao destino com facilidade. Sem estresse como tem de ser.

Saber sobre essa forma autista de pensar pode ser um grande aliado de pais e professores que convivem com o autismo. Dessa forma, é sempre bom ter em mente que imagens são essenciais para o entendimento de atividades, comandos e conceitos. Não encha a criança de comandos. Um passo de cada vez, sempre mostrando o que é para ser feito, o que se quis dizer com aquela frase que foi dita.

Um outro exemplo que posso dar é a minha experiência na faculdade. Como podem ver no quadro “quem sou eu”, à direita, eu faço faculdade de Letras. Lá eu tenho muitas matérias diferentes, desde poesia até teoria linguística. Por que será que me dou muito melhor lendo textos teóricos do que poemas? A pergunta foi retórica. A resposta nós já sabemos: porque meu pensamento é muito concreto, ora! É muito mais fácil para mim entender o que eu leio quando o autor conta diretamente o que ele pensa do que quando ele se utiliza de formas abstratas de expressão. E é engraçado, pois, para que eu entenda um poema, eu preciso recorrer a um artigo, que é mais concreto, no qual é explicado o que o autor do poema quis dizer. É assim que eu sobrevivo às aulas de poesia.

Acho que por enquanto é só. Não estou conseguindo pensar em mais coisas para falar sobre isso. Isso não significa que não tenho mais exemplos, apenas que não lembro neste momento. Esse assunto certamente ainda não foi esgotado e pode resultar em uma segunda parte posteriormente. Obrigada por ler minha matéria! Fico muito feliz! Não esqueça de curtir a minha página no Facebook: A Menina Neurodiversa. Até mais!

Agradecimento às profissionais de saúde mental que tanto me ajudam

Descrição de imagem: Em um fundo de universo em tons de azul, o símbolo da medicina com a palavra “psiquiatria” e o símbolo da psicologia com a palavra “psicologia”

Andei passando por tempos difíceis ultimamente. Muito sombrios mesmo. Recaídas acontecem, e a última foi bem perigosa. Não gosto de falar sobre isso, mas é a realidade. Nessas horas, é sempre bom pensar naqueles profissionais que me ajudam. O título desta matéria ia ser “agradecimento aos profissionais de saúde mental que tanto me ajudam”, mas precisei mudar. Isso porque minha ajuda vem de duas mulheres. Duas mulheres altamente profissionais, providas de muita empatia e amor pelo que fazem. O que seria de mim sem esses serviços tão bem prestados? Precisei me ausentar um pouco deste espaço, mas, agora que voltei, quero apenas agradecer a essas duas, assim como ao sistema público de saúde, tão desvalorizado.

Muito obrigada à minha médica, srta. Mª C., por ser tão atenciosa e paciente comigo, que não consigo falar nas consultas. Obrigada por ler meu caderninho tão cheio de palavras e dos mais diversos detalhes do meu dia-a-dia. Obrigada por prescrever a medicação que me ajuda a dormir melhor e a ser menos ansiosa. Sou muito grata por isso. Muito obrigada pelos abraços carinhosos que me dá e por ser tão amável e humana, sem me tratar como um pedaço de carne. Eu espero do fundo do meu coração que tenha muito sucesso, paz e felicidade. Todos os desenhos que fiz e as conchinhas da praia e os itens da minha coleção que lhe dei foram de coração. ❤

Muito obrigada à minha psicóloga, sra. M., por ser a melhor psicóloga do (meu) mundo e por me dar um diagnóstico quando eu estava perdendo as esperanças de descobrir o que eu tinha, depois de anos e anos mudando de profissionais. Obrigada pelos apertos de mão e pelo profissionalismo de dar inveja nos recém-formados. Muito obrigada pelo serviço extremamente bem feito e pelo acolhimento. Muito obrigada pelo abraço, que deixou meu dia extremamente mais feliz. Voltei para casa com um belo sorriso no rosto. Obrigada por ser atenciosa, paciente e por comentar no meu site e apoiar meu projeto. Desejo que tenha muita felicidade, paz e realização. Todos os desenhos e bilhetes que fiz foram sinceros. ❤

Muito obrigada ao SUS por me possibilitar atendimento psiquiátrico e psicológico gratuito depois de tantos problemas com plano de saúde e falta de dinheiro. Muito obrigada por ser público e gratuito. ❤

Acho que é isso. Eu só queria demonstrar gratidão, pois sou mesmo muito grata. De verdade. Minha saúde mental não seria a mesma sem esses serviços maravilhosos. Por isso, obrigada a todos os envolvidos! ❤

O Som e a Sílaba: a peça de teatro sobre uma menina com Síndrome de Asperger (autismo)

Descrição de imagem: Em um fundo preenchido por peças de quebra-cabeça amarelas, do lado direito, a atriz Alessandra Maestrini sendo abraçada pela cantora lírica Mirna Rubim. Alessandra demonstra não estar gostando do abraço. No topo, o texto “a emocionante comédia musical de Miguel Falabella”. À esquerda, o texto “O Som e a Sílaba”, sendo a palavra “som” em azul” e “sílaba” em rosa. Mais embaixo, os nomes Alessandra Maestrini e Mirna Rubim.

A Síndrome de Asperger é conhecida como a forma mais branda de autismo. Por terem interesses restritos, os portadores da síndrome podem, muitas vezes, desenvolver habilidades especiais em sua área de interesse. É o caso da Sarah, interpretada por Alessandra Maestrini em O Som e a Sílaba, que tem grandes habilidades musicais, incluindo ouvido absoluto.

A comédia musical foi criada por Miguel Falabella, que há anos vem pesquisando sobre a Síndrome de Asperger. Além do fascínio pela condição, o diretor já estava há tempos para convidar a cantora lírica Mirna Rubim para trabalhar com ele. A união das duas coisas levou à criação da peça O Som e a Sílaba. Falabella criou a personagem Sarah Leighton especialmente para a atriz e cantora Alessandra Maestrini. O papel de sua instrutora musical, Leonor Delise, ficou para a talentosa Mirna Rubim.

A narrativa conta a jornada de Sarah, uma moça autista com notáveis dons musicais, que, ao se sentir deslocada na casa do irmão, decide ir à procura de um sentido para sua vida. Nesse intuito, encontra a cantora de ópera internacional Leonor, uma mulher fechada e problemática que acabou se tornando professora de canto. O relacionamento entre elas se torna a chave do desenvolvimento e da superação de ambas. Como isso acontece você vai conferir assistindo à peça.

O espetáculo acontece de Quinta à Domingo até o dia 21 de Abril de 2019, no Teatro XP Investimentos, que fica na Avenida Bartolomeu Mitre, 1110B, Leblon. Os horários são: Quinta a Sábados às 21h00, e Domingo às 20h00. Os ingressos custam: plateia superior – R$50,00 e R$25,00 (inteira e meia entrada, respectivamente); plateia – R$100,00 e R$50,00 (inteira e meia). Você pode adquirir seus ingressos através do site http://www.eventim.com.br, ou comprar na bilheteria.

Entrevista com o autista e youtuber IndieAndy

Descrição de imagem: Andy de perfil e em um fundo azul olha para a câmera sem sorrir e usa um moletom preto e azul, com a palavra “spectrum” colorida no meio.

Olá, pessoal! Dessa vez, conversei com o youtuber IndieAndy, que está dentro do espectro do autismo e produz conteúdo focado em seu diagnóstico. Andy mora no Reino Unido com sua noiva e tem grande gosto pelo que faz. Fiz 10 perguntas para ele. Acompanhe!

Alice: Oi, Andy! Você pode falar um pouco sobre o seu diagnóstico? Quando, como e que tipo (de autismo) foi?

Andy: Eu fui diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista em 1996 depois que meus pais perceberam que eu não estava atingindo os marcos de desenvolvimento quando eu tinha 2-3 anos de idade. A partir disso, fui levado para o meu médico e então indicado para um especialista, que me diagnosticou. Eu não lembro como aconteceu por causa da minha idade, mas parece que (o diagnóstico) não foi marcado por excitação ou drama, o que é bom porque eu não tenho tempo para isso. (Andy esqueceu de responder com que tipo de autismo ele foi diagnosticado, mas foi com Transtorno Invasivo do Desenvolvimento – Sem Outra Especificação)

Alice: Quando você descobriu sobre o seu diagnóstico?

Andy: Eu descobri sobre o meu diagnóstico quando eu tinha 10-11 anos, depois que comecei a perceber que eu era diferente dos meus colegas. Eu notei isso sobretudo pelos olhares estranhos dos meus colegas e as conversas com as pessoas simplesmente não iam do jeito que eu queria que fossem. E também o sentimento de ser bem alienígena, eu acho. Com esses sentimentos em mente, eu falei com minha mãe sobre como eu estava me sentindo e ela revelou meu diagnóstico. A princípio e por vários anos, eu não conseguia me aceitar. Eu conseguia aceitar o fato de que eu era diferente, mas é meio difícil colocar na minha cabeça por que eu tinha que ser (diferente). Mas foi na idade adulta que eu realmente comecei a perceber que as minhas diferenças me tornam a pessoa que eu sou. O autismo não me define, mas é algo que eu estimo.

Alice: O que a palavra “autismo” significa para você?

Andy: Autismo, pessoalmente, significa que eu tenho uma forma diferente de ver, sentir as coisas, e apenas diferente de forma geral. Mas essas diferenças estão à parte da minha pessoa e isso é algo que eu gosto em mim. Por anos, eu tentei me encaixar e, honestamente, isso me fez extremamente infeliz. Foi quando eu encontrei a comunidade autista que eu percebi que eu não deveria tentar me encaixar. Eu deveria ser capaz de me posicionar e apenas ser eu mesmo. Ter essa forma de pensar ajudou no meu bem-estar e meus pensamentos sobre meu autismo como um todo.

Alice: O que você mais gosta sobre ser autista? Pode me contar sobre suas características preferidas?

Andy: Minha parte preferida de ser autista é a minha curiosidade pelas coisas, situações, pessoas e a vida em geral. Eu tendo a fazer um monte de perguntas sobre diferentes coisas. Isso é sobretudo para eu entender o que eu estou vendo ou o que está acontecendo. Mas isso me ajudou muito a crescer na minha carreira, no Youtube e também na minha vida pessoal porque eu fico obcecado e faço perguntas. Outras características preferidas incluem o modo como eu me comunico, minha criatividade e honestidade.

Alice: Qual a parte mais difícil de ser autista? Pode me contar sobre suas características menos preferidas?

Andy: Eu diria que uma parte difícil são as situações sociais. Agora eu gosto de algumas ocasiões sociais em que eu consigo interagir e seguir adiante. Mas quando é um evento ou situação social em que eu não conheço muitas das pessoas que vão ou ao qual eu nunca fui ou não sei o que esperar, isso me faz sentir bem ansioso e eu me sinto isolado. Até quando estou com alguém pode ter esse isolamento, então eu fico sem saber o que fazer ou como me livrar daquela situação ou dos pensamentos. Mesmo gostando de ver os pontos positivos do meu autismo, há momentos em que eu tenho dificuldades e é uma realidade que eu vivo diariamente, assim como outras pessoas autistas também fazem. Diria que outras das minhas características menos favoritas incluem minha natureza obsessiva, que pode levar ao vício. Quando eu fico aficionado por alguma coisa, fica difícil mudar de atividade ou não ser obsessivo.

Alice: O que as pessoas nunca devem dizer para uma pessoa autista?

Andy: Tem uma lista de exemplos nos quais consigo pensar, mas você pode encontrar essa lista no meu canal, pois falo sobre isso lá. Por exemplo, só para essa pergunta, é que “autistas dizem que são autistas porque não querem trabalhar”. Eu recebi esse comentário em um dos meus vídeos recentemente. Isso é bem raro de acontecer nessa comunidade, mas é algo de que vale a pena falar para esta entrevista. Só porque eu não “pareço autista” ou não “soo autista” não significa que eu não seja autista. E também a ideia de que eu quero conseguir benefícios pelo meu autismo porque eu não quero trabalhar não faz nenhum sentido e não é factual. Eu trabalho em período integral em um escritório, e as pessoas autistas querem sim trabalhar. O problema é que há barreiras para conseguir emprego para pessoas autistas, como entrevistas etc. Menos de 20% dos autistas do Reino Unido têm um emprego de período integral, o que é um número alarmante. Sinceramente, não assuma coisas sobre pessoas autistas baseando-se no que você pode ver porque tem sempre muito mais em alguém do que apenas o que está na sua frente.

Alice: Quais são as diferenças entre ser uma criança autista e um adulto autista?

Andy: Eu não diria que tinha uma diferença, já que as crianças crescem e viram adultos, e nós continuamos autistas. Só estou dizendo que, só para esclarecer, ninguém cresce e deixa de ser autista. Eu diria que a diferença entre os dois são realmente as experiências que você tem e como você lida com as coisas, e eu sinto, honestamente, que a percepção das outras pessoas muda. Se você olha para uma criança autista, se ela estiver tendo dificuldade com alguma coisa, você faz o seu melhor para ajudá-la. Mas se os papeis se invertem e for um adulto, os outros podem dar olhares ou fazer comentários maldosos. Esse é um dos principais motivos pelos quais eu continuo fazendo conteúdo sobre autismo. Eu quero que as pessoas vejam que existem adultos autistas por aí que podem ter seus próprios desafios. Não apenas promover a conscientização, mas também começar o curso da aceitação para todos os indivíduos autistas independentemente de idade etc.

Alice: Você tem uma noiva. Pode me contar sobre como é ter um relacionamento amoroso estando no espectro? De que forma é diferente dos outros relacionamentos?

Andy: Ter a minha noiva é realmente maravilhoso. Ela me faz feliz e é bom ter alguém que é sua melhor amiga e alma gêmea, de verdade. Pode ser difícil com problemas de comunicação e situações que surgem podem ser desafiadoras para o nosso relacionamento. Mas eu a amo muito e mal posso esperar para pôr um anel no dedo dela. Eu acho que a principal diferença é que o nível de intimidade entre mim e minha noiva é muito mais pessoal do que em qualquer outro relacionamento que eu tenho. (Andy não entendeu que eu quis dizer diferente dos relacionamentos de outras pessoas sem autismo, mas tá bom)

Alice: Por que e como você começou um canal no YouTube?

Andy: Eu comecei o IndieAndy em 2016 para mim mesmo. Eu queria me desafiar a fazer algo diferente. Parecia bem divertido, então esse foi um outro fator que me levou a criar o canal do YouTube. Eu estava meio que em uma situação difícil na época, pois estava desempregado havia vários meses e procurava constantemente por trabalho. Então, para mim, o IndieAndy se tornou uma saída criativa. Eu não comecei a falar sobre o meu autismo até Novembro de 2016, e isso foi lentamente se tornando o principal assunto pelo qual eu fiquei conhecido. Fico feliz por isso porque comecei o canal para me ajudar. Agora, eu posso tentar ajudar outras pessoas compartilhando minhas experiências. Não tem nada mais recompensador do que isso.

Alice: Pode dar algum conselho para pais de crianças autistas?

Andy: Eu mesmo não sou um pai, então é meio difícil dar conselhos significativos sobre o lado da parentalidade. Eu diria que a única coisa que posso dizer é para continuar seguindo em frente. Vai haver dias em que é difícil e pode ser desafiador. Quando criança, eu era um pouco descontrolado. Mas apenas lembre-se que as coisas ficam melhores com o tempo necessário, persistência e tendo o apoio adequado.

Essa foi a entrevista com o querido IndieAndy! Deixe nos comentários a sua dúvida ou sua parte favorita da entrevista! Não se esqueça de seguir a página no facebook: A Menina Neurodiversa, curtir, comentar e compartilhar com seus amigos! Vamos levar mais informação sobre o autismo para as pessoas e fazê-las se sentirem menos sozinhas. Esse é o meu objetivo com este site 🙂 Obs.: traduzir tudo isso do inglês foi difícil para um caramba, então seja solidário com a coleguinha e divulgue o meu trabalho! 😉

Link do canal do Andy:
https://www.youtube.com/channel/UCR-fiMOz0Ot2x3bwA-_mS0A

Autismo e namoro

Descrição de imagem: um braço feminino de mão dada com um braço masculino durante o pôr do Sol.

É certo que, para o diagnóstico de autismo ocorrer, é preciso haver prejuízos sociais consistentes. O problema é que muitas pessoas acham que autistas não podem se relacionar, ainda mais estar em um namoro! Isso não é verdade. Euzinha mesma me encontro atualmente em um relacionamento amoroso à distância.

Quando eu tinha 17 anos, tive o meu primeiro namorado. Foi um choque para a família, pois nunca demonstrei interesse nisso. Eu realmente não tinha o menor interesse, mas gostava de jogar com o menino, então aceitei estar no relacionamento. O problema é que ele queria fazer coisas de namorados, como andar de mãos dadas, dar beijos e ficar abraçado no cinema. Já mencionei minha dificuldade com toques? Pois é…não deu certo. Eu suo muito pelas mãos e detestava ficar de mãos dadas. Tive meu primeiro beijo com ele e eu detestei a sensação, as texturas relacionadas a isso. Era desconfortável e nojento. Não via sentido em fazer algo assim. Quanto a abraçar e namorar no cinema, eu me irritava porque, como certos toques tiram toda a minha concentração e eu queria prestar atenção no filme, era uma péssima experiência deixar o garoto ficar com o braço atrás de mim. Teve uma vez que ele quis me beijar durante o filme…eu fui ao cinema para ver o filme, tá bem?!

Não é de se admirar que o relacionamento não deu certo. Eu tenho dificuldades de demonstrar ou compreender minhas emoções. O pobre do menino não se sentia em um namoro e terminou comigo (por telefone) depois de uns dois meses de relação. Eu cheguei a chorar, mas foi mais pela mudança súbita (ver matéria sobre autismo e rotina) do que por perder o status de relacionamento. Eu só queria o menino para jogar comigo e, por mim, continuaríamos jogando juntos como se nada tivesse acontecido, mas ele nunca mais entrou em contato. Acho que é melhor assim.

Depois de alguns anos sem querer nunca mais ter essa experiência, conheci um menino sueco em um site de aprender línguas estrangeiras. Nós gostávamos das mesmas coisas e começamos um relacionamento em 2018. Também não deu certo e terminamos dois meses depois. Fiquei bem chateada pois, para mim, minha única chance de conhecer alguém para namorar é à distância, visto que sou muito desajeitada socialmente e pouco expressiva. Sinceramente, ninguém que só me viu de longe iria me querer por causa dessas características. Eu sempre estive ciente de que só alguém que me conhecesse de verdade poderia ter interesse em mim, e que eu levo muito tempo para conseguir me soltar com alguém novo. Por isso, um relacionamento à distância era o ideal para mim.

Nesse site de aprender línguas, eu já tinha feito amizade com J. bem antes de conhecer o meu namorado da Suécia. Esse meu amigo foi um dos primeiros a saber do meu diagnóstico de autismo, e nós sempre nos apoiávamos quanto à saúde mental. Ele até procurou terapia graças ao meu conselho! Nós nos falávamos praticamente todos os dias, e ele me dava muito mais atenção que o meu namorado. Nós já sabíamos muito um do outro e, de fato, somos muito compatíveis. Foi aí que, em 15 de Fevereiro de 2019, começamos um relacionamento amoroso. A melhor parte? Ele sabe de todas as minhas dificuldades e manias e me ama exatamente como eu sou! Nós sabemos das limitações um do outro e ele me vê como Alice, e não como autista.

Isso é muito importante em um relacionamento no qual uma das pessoas é um pouco diferente, seja com autismo ou qualquer outra síndrome. No caso do autismo, é sempre importante deixar claro que nem sempre vai poder haver toque, que não se pode sair para lugares muito cheios e barulhentos, que a/o autista precisa manter sua rotina e não gosta de acontecimentos inesperados, que pode haver crises e o apoio e a compreensão do outro são indispensáveis nesses momentos difíceis, que a pessoa com TEA normalmente é um pouco mais infantil e tem dificuldades de se comunicar da forma esperada pela sociedade e não se deve ter vergonha do/a parceiro/a por causa disso…enfim, é necessário deixar bem claro quais são as dificuldades da pessoa com autismo para o parceiro não ficar perdido ou se deparar com uma pessoa completamente diferente daquela que parecia tão comunicativa na internet.

Por exemplo, para mim, ir a um supermercado é uma experiência muito desgastante. Todas aquelas luzes do teto e estímulos visuais me causam dor nos olhos. Os barulhos simultâneos me causam dor nos ouvidos. Depois de um certo tempo nesse ambiente, começa a ficar insuportável e me dá dor de cabeça. Por causa disso, esperar na fila pode ser muito difícil. Além disso, situações que exigem interação social podem ser difíceis também. Sair de casa de forma geral pode ser muito desgastante para o autista, mesmo que ele aparente não ter problemas no início. Com isso, quero dizer que adaptações precisam ser feitas em um casal em que há neurodiversidade. Crises de choro e mau humor podem acontecer e, para que isso seja evitado, o tempo solitário e quieto do autista deve ser respeitado para que ele se recarregue de todos os estresses do dia e volte para o seu amor.

J. já está ciente de que nem sempre vou entender as piadas dele ou suas expressões e ironias. Ele já está ciente de que preciso de ajuda para não fazer as coisas sempre do mesmo jeito. Ele já sabe, mesmo eu amando abraços, que, se o ambiente estiver caótico (muitos estímulos, por exemplo), o abraço vai ter que esperar até estar tudo calmo. J. sabe que eu sou bastante desajeitada e que posso ser muito sincera às vezes, mesmo quando não devo ser. Ele sabe de tudo isso, e querem saber? Ele me ama mesmo assim! Ele quer estar comigo e me acha perfeita como sou.

Moral da história: se o seu desejo é ter um relacionamento amoroso, encontre alguém que te aceite como você é e ame cada peculiaridade sua. Não ache que precisa mudar quem você é só para agradar alguém. Namore alguém que, ao invés de achar estranho que você pule ou corra de um lado para o outro e agite os braços quando está muito animada, faça isso junto com você!

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Conheça Carly Fleischmann, uma autista não-verbal que encontrou sua própria voz.

Descrição de imagem: Carly Fleischmann no centro da imagem, vestindo uma roupa bege e olhando para baixo.

Aos dois anos de idade, Carly foi diagnosticada com autismo. Seus pais ouviram dos médicos que ela jamais ultrapassaria a capacidade mental de uma criança de seis anos e jamais se comunicaria com eles. E parecia que isso era verdade…até que ela fez onze anos.

Em certa ocasião, para a surpresa de sua família, Carly se dirigiu ao computador e digitou, letra por letra, as palavras “HURT HELP“, que formam as palágras “dor/dói” e “ajuda”. Logo em seguida, ela vomitou atrás do sofá. Detalhe: ela não havia sido ensinada a escrever. Pela primeira vez, a menina estava se comunicando com o mundo exterior.

A inesperada atitude gerou alvoroço na família, que jamais esperava que sua filha, com autismo severo não-verbal, pudesse se comunicar. Ao ser levada para especialistas, para que vissem aquele comportamento inédito, inicialmente, nada aconteceu. Um tempo depois, Carly foi até o computador e digitou: “Eu tenho autismo, mas isso não é quem eu sou. Gaste um tempo para me conhecer antes de me julgar.” Os anos de terapia intensa diária pareciam estar surtindo efeito: Carly podia se comunicar.

A partir de então, sempre que quisesse alguma coisa, Carly teria que digitar para ter seu pedido atendido. No início não foi tão fácil, mas, alguns meses depois, a jovem estava se comunicando mais.

Descrição de imagem: Carly, de blusa rosa, sorri e tampa um dos ouvidos com o dedo indicador.

Além de TEA, Carly também tem TOC, um transtorno frequentemente associado ao autismo. A menina, que tem uma irmã gêmea sem autismo, explica seu comportamento: “Eu tenho lutas comigo todos os dias, desde que acordo até a hora de ir dormir. Não posso ir ao banheiro sem dizer a mim mesma para não pegar o sabonete e cheirá-lo ou sem lutar comigo mesma para não esvaziar todos os frascos de xampu.” Ao ser indagada sobre o por quê de balançar os braços violentamente, bater a cabeça nas coisas ou querer arrancar as roupas, ela explica que “se eu não fizer isso, parece que meu corpo vai explodir. Se eu pudesse parar, eu pararia, mas não tem como desligar. Eu sei o que é certo e errado, mas é como se eu estivesse travando uma luta contra o meu cérebro.” Além disso, ela explica que tapa os ouvidos e olhos para bloquear a entrada de informações em seu cérebro. É como se ela não tivesse controle e tivesse que bloquear o exterior para não ficar sobrecarregada.

Após tantas vitórias, Carly, juntamente a seu pai, escreveu um livro chamado Carly’s Voice – Breaking Through Autism e criou conta no Facebook e Twitter, além de um blog. O livro conta sobre a jornada da menina com autismo e sua história de superação em um mundo que nada espera de pessoas com autismo grave. Nas redes sociais e em seu blog, a menina tira dúvidas de pais de autistas e promove a conscientização sobre o autismo.

O sonho de Carly sempre foi ser apresentadora de um programa. Foi nesse intuito que ela criou o show Speechless with Carly Fleischmann, no qual ela faz perguntas para celebridades através da voz computadorizada de um tablet. A jovem autista de 24 anos já recebeu em seu programa convidados como Channing Tatum, James Van Der Beek, Beth Behrs, Grace Helbig e Whitney Cummins. Com muito humor, a canadense faz perguntas engraçadas e, por vezes, constrangedoras para seus entrevistados, provocando muita risada em seus telespectadores. O sucesso foi tamanho que até no The Late Show with Stephen Colbert, um famoso programa de TV americano, ela já apareceu.

Descrição de imagem: Carly e Channing Tatum, sentados à mesa, riem durante uma entrevista. Carly veste uma jaqueta preta e usa um tablet para se comunicar. Channing usa uma blusa de manga comprida bege.
Descrição de imagem: Carly, sentada em frente a um notebook, sorri enquanto tampa um dos ouvidos com o dedo.

Fontes:

https://socialgoodbrasil.org.br/2013/a-voz-de-carly

https://www.hypeness.com.br/2013/02/menina-revela-pela-primeira-vez-como-e-estar-por-tras-dos-olhos-de-um-autista/

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